25 de julho de 2009

nota

O mar está aqui justo à frente, enorme, calado. Há um porto logo ali, onde entram e saem barcos de todos os tamanhos. Ao fundo vê-se uma vela, alguns pássaros. O mar é dinâmico como a vida. De cá, parece um chão mole, azul. Difícil entender por que, vistas de longe, as pessoas se amontoam em sua borda. Devia haver mais pessoas do lado do azul. Talvez um extraterrestre desavisado pensasse assim.

Vejo o mar, ele esteve quase sempre ali e eu acabo de chegar. Sua superfície esconde segredos de outro mundo. Dentro do mar há outro mundo acontecendo, a despeito deste de fora. O último em detrimento daquele, mas algas não param, os grandes tubarões e mínimas esponjas não param. Os coletivos de animais invisíveis da noite do mar seguem vivendo e impondo reflexões metafísicas a quem lembra de suas existências.

Olho o mar, e um pouco de sentir-me olhada por ele vem um calafrio. Olho-o com deslumbramento que me envergonho da miniatura de carne que guarda meu espírito, esse quiçá ainda menor que sua embalagem. Perto do mar somos tão pequenos. Mesmo se eu quisesse não poderia meu espírito navegar em alto-mar, por medo. Por respeito, quem sabe. O mar é a encarnação secreta de Deus.

13 de julho de 2009

cobaia

Não era simples assim, ouvir vozes. Dizer assim era reduzir a tão pouco toda uma vida de assombrações. Ouvir vozes, sim, e daí, todos ouvem as vozes dos vivos. No caso dele era de dar calafrios porque os lugares de onde as vozes teoricamente sairiam, pelo menos segundo sua intuição tátil, estavam vazios. Começou acreditando que podia ouvir o pensamento das pessoas. Aos poucos notou que raras vezes as feições e os tipos físicos delas correspondiam aos seus “dizeres”, e foi ficando cético, até uma tarde de terça-feira em que uma velhinha sentada ao seu lado no ônibus teria anunciado-lhe telepaticamente o gol do Corinthians. Não dava. Começou a duvidar dos bichos. Não podia ver um vira-lata na rua e punha-se a segui-lo a ver se esboçava alguma opinião sobre o tempo. Ao cair em si viu-se suspeitando de mortos, mas as vozes falavam de coisas tão vivas...

Quando conheceu Dra. Marli foi sua salvação. Ela lhe deu um remédio potentíssimo, capaz de calar as vozes. Funcionou por um bom tempo: podia dormir, assistir TV, até trabalhar podia, e arrumou-se de cobrador. O único inconveniente era ficar surdo também para outras coisas... aos poucos deixou de reconhecer também a voz dos irmãos, dos filhos, e por último da mãe.

Recentemente as vozes invisíveis têm voltado. Vamos ter de aumentar as doses do remédio de Dra. Marli. Constata com um pouco de desilusão que o remédio não faz as vozes calarem, apenas tapa seus ouvidos enquanto elas continuam a gritar.

Dra. Marli, apesar de sua larga boa vontade e enorme acervo, não dispõe de remédios que façam as vozes calarem. Dra. Marli só dispõe de remédios ensurdecentes.

Dra. Marli também ouve vozes mas prefere tapar seus ouvidos com música clássica e muito vinho, mas isto fica entre os colegas da junta médica.

6 de julho de 2009

friaca

É domingo, as tia fica de coração aberto. Domingo é Natal da semana. Faz figa com dedo do pé, ensinou a mãezinha. Fechou o sinal. Tô chegano. Abre as vista, um minuto. Mapeio os Sedan, quatro só aqui na da direita, é pra cá. Cambito foi pela esquerda. Hm, três vidro fechado, melhor aqui pelo meio, tô vendo ali um Fox com ma tia gorda com o bração pra fora. Ar-condicionado prejudica a distribuição do capital, aí. Venho vindo, venho pedindo pros outro, nada nada. Uma moedinha, meu senhor. Só pra ajudar. Deus te acompanhe. Acompanhe o cacete. Lá tá a tia gorda, vendo eu pegar merda nenhuma. Bom é assim, merda nenhuma, chega na tia gorda ela recompensa. Cincão. Bora lá, só mais um golzinho. Só estender a mão de boa, nem pedir com a boca, nego dá nada e a tia recompensa, fica com dó que ninguém deu, mora? Merda, o viado do golzinho me tasca três moedas de cinco. Merda. Sinal abriu, caralho, caralho, avanço pra tia gorda. Tia, só uma moedinha pra eu ir pra casa. Merda, gorda ruim, deu nada. Três minutos pra cherar enquanto passa os outro. Na próxima vem um Civic pretão, apostei com o Cambito. Passa aí, Cambito. Quanto? Quinze centavos, bicho. Viado é teu pai, feladaputa. Vou carregar mais cedo e te deixo aí na friaca. Amarelou do outro lado da rua, bora, bora, bora.

4 de julho de 2009

parto


O pai desejava um filho
ser mulher
A mãe vai se acostumar
ser mulher
Em criança alguém abusa
ser mulher
Cedo aprende a chorar
ser mulher
Espicha, engorda, menarquinha
ser mulher
Peitinho de cone é um mistério
ser mulher
Beija o primeiro e
ser mulher
Vira a putinha do colégio
ser mulher
Superou passou sorri pra vida
ser mulher
Se vira, se pinta, faculdade
ser mulher
É ser de choro e ser de briga
ser mulher
Compra umas langeries e umas amizades
ser mulher
Gravidez precoce, terceiro mês
ser mulher
O feto tá barato, não tem freguês
ser mulher
Ser grávida é ser muito mulher
ser mulher
No aborto vai parte do que ela é
ser mulher
Formou, desemprego, secretária
ser mulher
Sorri pro chefe, tá na área
ser mulher
Casamento marcado pra maio
ser mulher
Coroa me banca eu caio
ser mulher
Mamãe, tô grávida de novo
ser mulher
Agora um neto é bem-vindo
ser mulher
E cólica e medo e peito em cone
ser mulher
O álbum da noiva vai ficar lindo
ser mulher
Casamento, boquete, parto normal
ser mulher
É ter coração muito delicado
ser mulher
Corte, hemorragia, parada cardíaca
ser mulher
É morrer de útero cansado
ser mulher
A neném teimou e nasceu
ser mulher
É parir e morrer e dar a vida
ser mulher
Neném ensangüentada querer a mãe
ser mulher
Mamar no seio quente da falecida

3 de julho de 2009

crescidinhas

Não se pode economizá-las, essas meninas de hoje. Gastam-se milhões em suas educações. Elas fingem que aprendem, não desgrudam de seus iPods. Elas dão pros professores. São belas. Nós, jovens adultas, perguntamo-nos se já fomos tão belas quanto elas quando éramos meninas. Não fomos.

Não, deve-se pagar por elas. Uma Europa por cada uma, sem negociação. É pegar ou largar. Essas meninas vão estudar direito particular. Digo, direito público, escola particular. O pai é de esquerda, mas ela nunca entenderá. A mãe não entendeu e está com ele há vinte, contando com os seis meses de separação quando cada um foi comer umas putinhas.

Essas meninas vão tomar o mundo. Sábado elas vão fazer as unhas, quinta estragou, quanta ansiedade: 48h de unha lascada. Comprar acetona. Depois fazer teatro moderno. Não se pode desperdiçá-las. Estou planejando, planejando algum jeito de resgatar pelo menos uma ou duas. Elas vão ser chefes das coisas. Elas vão processar alguém na Maria da Penha. Elas são fortes, cara, tem que dar jeito.

Acho que esses meninos de hoje são a solução. Sim, eles sim. Impagáveis. São cheirosos, amorosos, dão tudo por suas mães. Drogados, não importa, eles se controlam. Os meninos são bons, as meninas não. Os meninos e seu amor é que há de salvá-las. Talvez eles enlouqueçam, mas, bá, este é o preço por tão fresco capital humano: as meninas de hoje.