30 de agosto de 2009

equívoco

Em italiano, quando se quer referir-se a um ser que já passou desta para melhor, já bateu as botas, não se usam baixos eufemismos como aqui. Diz-se: é morto. O uso honesto do verbo ser confere dignidade e determinação à morte dum, valores no Brasil nem tanto respeitados pela conjugação no presente do indicativo do verbo estar. Está-se morto, no Brasil. Como pode.

E como vai fulano. Fulano? Está morto, não ficou sabendo? Corra lá a dar os pêsames à família antes que renasça, falta dizer.

Que falácia. Não é possível estar-se morto. Somos vivos, por que diabos estar-se mortos? Morre-se; afinal, quer coisa mais infinitamente essencial do que a morte? São justos estes italianos, vibram seus braços e fazem milhões de trejeitos enquanto vivos, mas põem com humildade e reverência a morte em seu devido lugar: o eterno, o ontológico, o ser.