10 de novembro de 2010

dom

Espalhar flores pelos decibéis da tua voz, ouvi-la colhendo flores. Ouvir cada trecho dela, teimando, investindo, segurando cada segundo em que falas. Esperar durante teu silêncio, até que tua voz brote do nada e o recubra, povoando o tempo. Se te calas, suspendo a atenção entre o último instante em que dizias e o próximo em que se fará ouvir a nota alojada no teu específico timbre, pelo qual te reconheço a qualquer distância. Então, falarás. Desejo que nada cale tua boca, a minha sequer. Desejo que fales comigo, desejo ouvir-te não ideias, mas ritmo. Não opiniões, mas trejeito. Não conteúdo, mas forma. Desejo que tua boca mexa, e que dela emerjam tuas delicadas nuances de som que penetram meus ouvidos numa massagem inelutável. Tua voz não é onda, ou luz, mas tentáculo.

Não me importa tua língua. Não estou a procurá-la ou a esperar que esta me procure. Falar, espalhar flores pelos decibéis da tua voz. Dom que trazes e faz do beijo um desperdício.

5 de março de 2010

gestalt

Vinha dormindo tarde, só depois de todos os seus afazeres. Afazeres são luxuosos quando dormem antes de quem os têm. Check list vencido, quase todo, todo dia. Aqueles ítens que ficaram faltando hoje, repetiam no check list de amanhã, mas no de hoje dá ok, dá ok. Tarde significava quatro, cinco da manhã. Tarde significava nunca.

Mas aí durante a manhã se redimia. Acordava só pra almoçar, onze, doze, uma hora. Ligava não. Banho demorado, horas de cremes, perfumes, testar mil colares, decidir por um lenço, sair de casa e olhar pro trânsito. Que maravilha. Sinal fechado é tempo de abrir o check list do dia. E outro dia ia render por umas dezoito horas.

À noite vinha chegando em casa cansada, suja, tranquila. Está-se tranquilo frequentemente quando se se suja de trabalho. Uma noite ela olhou no espelho. Gozado. Sentiu que não tinha no mundo alguém a quem devesse perdir perdão. Se era ou não verdade, virou.

7 de fevereiro de 2010

resposta

Ama-se, isto é bem simples. O amor depende de algumas variáveis bem mais práticas do que os mais românticos gostam de assumir: momento de vida de um e do outro, tempo passado entre a última grande relação e o momento do encontro, opiniões de familiares, primeira impressão, outfit. Ele não desce como um raio, incontornável e caótico, determinando pra vida das pessoas caminhos muito diferentes do que os planejados. O amor sempre cai como uma luva porque a mão, particularidade aqui outra ali, esta já a temos.

O amor é um pouco de sorte, é um pouco de tempo, é um pouco de disposição. Envolve algo de merecimento, é verdade, mas bem pouco. Necessita mais de ajuste que de coincidência. Qualidades e defeitos surpreendentes emergem, eventualmente, no amado. O que fazer se já amamos? O amor acostuma-se, adapta-se e se estica. Não é sacrifício, mas dispendioso. Não é dever, mas trabalho.

Amor, esta resposta, como tal, não existe. Amor é só uma pergunta insistente, sincera, que duas pessoas resolvem se fazer mutuamente e vão respondendo, devagarinho, tentando não esgotá-la. Sabe-se se está vivo enquanto os amantes sorriem mais que choram e perguntam mais que respondem.

11 de janeiro de 2010

metrô

Pousara os olhos fixamente nalgum lugar da paisagem que jamais poderia recordar de novo – olhava mas não via. Os olhos parados, pousados pra fora, apenas faziam sentinela para a mente vagar livre do lado de dentro, por suas alcovas, rios sujos do passado. Dentro a mente esgueirava tentáculos de desejo e tamanho ódio que, se fizesse barulho, soaria como possessão.

Pensava mal e bem de uma mulher que, agora entendia, talvez nunca mais pudesse ter à vista tão estreita - de poros e cílios. Quando se ama e se é correspondido olha-se tão de perto, pode-se, certo? Já não mais. Como que um portão se trancara entre ela e ele e agora para sempre fingiriam jamais ter tido as intimidades cuja lembrança é incontornável. Agora suas mãos estariam policiadas para não pegar-lhe na bunda e nos cabelos. Lodo começava a fazer-se neste portão.

Pensou bem e mal dela, como dissemos, enterrou-lhe num funeral luxuoso em sua mente, mas também a viu nua em imperfeição gritando para ele trazer toalha, viu esta mulher beijando um outro homem, mas obrigou-se a mudar logo de imagem, viu esta mulher fazendo caridades, conversando com alguma criança e sorria, viu-a mentir, escarnecer, envelhecer rápido e dava uma velha mesmo feia. Viu-a e do revés, e como se algo em seu semblante tivesse se desligado, sacudiu a cabeça para espantar a poeira imaginária. Obrigou-se a mexer os olhos e falou duas ou três palavras para perdoar-se a si mesmo por tudo. Intrometida, como uma mãe, a paisagem concedeu-lhe perdão.