11 de janeiro de 2010

metrô

Pousara os olhos fixamente nalgum lugar da paisagem que jamais poderia recordar de novo – olhava mas não via. Os olhos parados, pousados pra fora, apenas faziam sentinela para a mente vagar livre do lado de dentro, por suas alcovas, rios sujos do passado. Dentro a mente esgueirava tentáculos de desejo e tamanho ódio que, se fizesse barulho, soaria como possessão.

Pensava mal e bem de uma mulher que, agora entendia, talvez nunca mais pudesse ter à vista tão estreita - de poros e cílios. Quando se ama e se é correspondido olha-se tão de perto, pode-se, certo? Já não mais. Como que um portão se trancara entre ela e ele e agora para sempre fingiriam jamais ter tido as intimidades cuja lembrança é incontornável. Agora suas mãos estariam policiadas para não pegar-lhe na bunda e nos cabelos. Lodo começava a fazer-se neste portão.

Pensou bem e mal dela, como dissemos, enterrou-lhe num funeral luxuoso em sua mente, mas também a viu nua em imperfeição gritando para ele trazer toalha, viu esta mulher beijando um outro homem, mas obrigou-se a mudar logo de imagem, viu esta mulher fazendo caridades, conversando com alguma criança e sorria, viu-a mentir, escarnecer, envelhecer rápido e dava uma velha mesmo feia. Viu-a e do revés, e como se algo em seu semblante tivesse se desligado, sacudiu a cabeça para espantar a poeira imaginária. Obrigou-se a mexer os olhos e falou duas ou três palavras para perdoar-se a si mesmo por tudo. Intrometida, como uma mãe, a paisagem concedeu-lhe perdão.

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