10 de novembro de 2010

dom

Espalhar flores pelos decibéis da tua voz, ouvi-la colhendo flores. Ouvir cada trecho dela, teimando, investindo, segurando cada segundo em que falas. Esperar durante teu silêncio, até que tua voz brote do nada e o recubra, povoando o tempo. Se te calas, suspendo a atenção entre o último instante em que dizias e o próximo em que se fará ouvir a nota alojada no teu específico timbre, pelo qual te reconheço a qualquer distância. Então, falarás. Desejo que nada cale tua boca, a minha sequer. Desejo que fales comigo, desejo ouvir-te não ideias, mas ritmo. Não opiniões, mas trejeito. Não conteúdo, mas forma. Desejo que tua boca mexa, e que dela emerjam tuas delicadas nuances de som que penetram meus ouvidos numa massagem inelutável. Tua voz não é onda, ou luz, mas tentáculo.

Não me importa tua língua. Não estou a procurá-la ou a esperar que esta me procure. Falar, espalhar flores pelos decibéis da tua voz. Dom que trazes e faz do beijo um desperdício.