12 de janeiro de 2011

logo ali jaz amy

A plateia em parte adora Amy, em parte a sustenta, torcendo por um instante a mais de sobrevivência da musa. Entre uma canção e outra, ela bebe de sua caneca de porcelana, inofensiva. Será chá?

Lá pelo meio do show, um virtuoso backing vocal assume o microfone enquanto Amy some em direção aos bastidores. A poderosa voz negra não convence o público, que veio para ver Amy, quer Amy a todo custo, quer que ela cheire logo o que tenha que cheirar e volte. O público a ama verdadeiramente, não apenas a adora; é como se cada um a conhecesse.

Ela roda os braços em uma mímica pública, mandando os músicos que apresenta continuarem a tocar enquanto ela dança. Não há performance, ela está distraída. A multidão mal se importa com os nomes que ela cita durante a apresentação da banda: todos querem é pegar um seu trejeito, sacar seu cochicho com o backing vocal, vislumbrar um de seus sorrisos de cumplicidade aos seus íntimos de palco.

Ela sorri, a multidão ovaciona. Ela dá uma volta, a multidão ovaciona. Ela cambaleia, a multidão aguarda, torce, recupera-se e a ovaciona. É como se todos estivessem na esperança por mais um minuto de sua existência. Seus músicos são excelentes, mas poderiam não ser. Suas influências são sólidas, mas isso não importa. Suas composições beiram a genialidade, mas isso é o de menos. Suas letras, carregadas de lirismo e temperadas de confissões, comunicam algo além do que Amy canta. Ela vislumbra que a fanática recepção do público deve-se a algo maior do que leva em sua música. Sua irreverência é a de uma criança que não tem culpa por sua beleza, e que faz rir os adultos sem saber ao certo como repetir o gracejo bem sucedido. Sabe que tem algo de único, algo que ela também desconhece, quer passa para tantos mil, à sua revelia. Talvez isso explique sua aparente negligência: é que o amor que desperta não é exatamente para ela, Amy apenas o incorporou por coincidência. Algo que seu estilo caprichoso transmite está para além de sua intenção. O quê?

Amy não comanda o show, este é papel dos outros. Ela está ali para entregar ao público seu charme, mas não sabe qual a próxima música. Amy pede para ser cuidada, pergunta what’s next, what to do. Amy e sua banda de pais, de irmãos negros, que a acolhem como a uma aldeia que recebe um filhote ferido.

Amy é um bicho ferido que faz ignorar sua força e escancara sua ferida. Amy não é dos nossos, mas de um tipo que dá a uma geração sem nome o seu próprio nome, representa sem forçar o seu tempo, e o faz bêbada, por acidente. Impossível assistir a Amy sem vê-la criança, sem odiar cada um dos homens que a traíram e a abandonaram e a inspiraram a escrever estes versos. A multidão quer sempre Amy, mas para colocá-la no colo e lhe devolver tanto amor mal correspondido, para lhe acariciar os cabelos e lhe retirar cuidadosamente o aplique. Entretanto, cada um também sabe se resignar em ser fã, telespectador, torcedor. Cada um sabe-se pequeno diante de seu talento para a morte.

Amy é efêmera. A ameaça de sua perda leva-nos ao êxtase por fazer-nos acreditar estarmos aproveitando a oportunidade de sua última aparição. Amy vai morrer? Vai se matar em álcool, drogas? Todos torcem que não, mas acreditam que sim. Planejam e temem sua morte anunciada, aquilo que a geração anterior não pode fazer a Lennon, e a anterior ainda deve a Elvis. Eu fui, eu fui, será a consolação premiada de muitos. Por isso, ao se assistir ao show de Amy, quase se pode tocar seu rosto. Cada vez que ela revira os olhos nas órbitas, mostrando o branco da esclerótida por baixo do negro delineador, conduz a multidão ao delírio. Porque ali beija a morte e a engana, mandando-a esperar mais um momento, e porque sai do palco como anuncia que deixará a vida: sem se despedir.

1 de janeiro de 2011

eutanásia

Criar um bicho e ensiná-lo do que gostamos. Às vezes maltratar o bicho, de amor, de apertos. Sacanear com o bicho às vezes esquecendo-se dele, às vezes negligenciando suas necessidades, às vezes incomodá-lo para curtir sua reação engraçadinha. Amar um bicho, atribuir a ele virtudes que todos os outros donos atribuem aos seus, saber disso e não interromper a fantasia de exclusividade de se ter o melhor dos bichos. Viajar e sentir mais saudade do bicho do que dos parentes. Comparar o bicho a outros bichos, pensar de vez em quando quanto se teria economizado na vida sem este bicho, ver filmes sobre bichos e pensar no seu. Ter de sacrificar um bicho querido. Pagar trezentos reais pela eutanásia. Ter por um bicho doente uma piedade que não devotamos aos parentes humanos mais próximos.

Amar mesmo é amar um bicho, que não nos sabe enquanto humanos, mas enquanto seus próprios, grandes, estranhos, amados bichos.