31 de dezembro de 2012

versos nus

Queria que você chegasse manso
Tipo enquanto eu danço
O novo do Bon Iver

Planejado e louco como o tiro
Que ensaiou De Niro
No Taxi Driver

Queria você afiado no Borges
Sua estante não foge
Desse meu exame

E te queria abrir à nova MPB:
Ana Cañar você
Ao fatiar salame

Queria um amor meio Brás Cubas
Uma acidez que aduba
Esse over lirismo

Arrumasse hora prum Noel
Mas nada de chapéu
Que afetação eu cismo

Queria um orgulho não tacanho
Tipo aquele do Caetano
Enfrentando Hermeto

Que topasse se hospedar no Harlem
Perdoasse a fase do Woody Allen
E fosse meio incorreto

Te queria forte e cabeludo
Mas se não for, eu pulo
E a gente lê Mafalda

Queria que você gostasse de tango
E também de Fandangos
E de não fazer nada

Te queria bem assim, disposto
Meio brega, meio bom gosto
Fumasse vez em quando

Te queria leve e engraçado
Nalgum lugar entre o Wado
E o Marlon Brando

De preferência ex-comunista
E bom neologista
Como meu Guimarães

Melhor se fosse dado
Tanto ao labor quanto ao fado
Tanto a mim quanto à mãe

E ainda assim, bom de olhar
Filho novo do Godard
E da Nouvelle Vague

Pra gente ser bem natural
E brincar de prever o final
Antes que o filme acabe

Eu queria um homem de macramê
Cujo arremate fizesse encolher
O resto do universo

Que tirasse uma foto proibida
Em cada museu da vida;
Que coubesse nesses versos

E a pergunta que os deixa nus
É se eu faço jus
A tamanha exigência

A resposta cabe numa palavra:
Não. Mas sou eu quem o lavra 
Portanto, a experiência

30 de dezembro de 2012

me gira

Me gira, meu caro
Que é raro tanta leveza
Na hora do sono

Me joga pra cima
Me mima, me chama de deusa
Ou de demônio

Me erra, meu bem
Que é zen, a gente disrfaça
Eu mesma me engomo

Me chama do que quiser
Que eu te chamo de zé,
De alaor, de antônio

Me come, me bebe
Digere: me faz seu nada
Me reduz ao hidrônio

Me puxa o cabelo,
Um apelo! Me faz de medusa
Em cada gorgônio

E lá pro fim, por amor
faz assim: me larga e
Me deixa sem dono

Que eu fico daquele jeito
No meu peito: sem rima
sem rima sem rima

25 de dezembro de 2012

em boa companhia

Cai tanto de teu
Nesse breu
Caem torres, tijolos
Em meu colo
Cai tônus, cai tez
Da fronte
Cá e tão longe
Cai tanto de teu

Cantando
O ouvido tocando o chão
Qual capitão adivinhando o passo do inimigo
Prossigo

te caetando
Grão em grão

20 de dezembro de 2012

método

Saiu de cena como se fosse mero coadjuvante. Curvou-se para a plateia à esquerda, depois à direita. Não se enlevava com a euforia do público. Não era arrogância ou frieza decorrente do costume. Apenas não se enlevava. O público, estas centenas de gentes, bem como sua admiração explícita no derradeiro minuto de espetáculo, eram peças do jogo de sua profissão. Como o é o abraço que recebe o médico ao salvar uma vida. Não faz sentido o abraço: é seu ofício.

Encaminhou-se para a segunda coxia, recebeu com afeto os cumprimentos dos colegas - mais por delicadeza e algum talento para a paciência do que por vaidade. Enfim, pelos colegas mais que por si. Entrou em seu camarim, ajustou o pé da arara dos figurinos, que estava torta. Sentou-se diante do espelho, e não se emocionou, não se orgulhou. Notou que uma das lâmpadas da barra lateral do espelho tinha uma frequência intermitente, e a desatarrachou, por precaução.

O método, quando um homem o tem, não filtra ofício, disposição ou apetite. Se o tem, o tem; e este homem o tinha. Poderia ter sido a bolsa de valores. Poderia ter sido medicina, por pouco não foi. Poderia ter sido uma família. Apenas calhara de ser o balé.

mineira

Nada há de mais sagrado
Que o padecer resignado
Seguinte ao fim do amor

Nada mais puro e sublime
Que deixar que a tristeza se anime
Ao natural, desde o torpor

O coração é uma carne mansa
E na dor, ele descansa
Feito filé salgando ao sol

E de sofrer fica curtido
Bem temperado e distendido
Qual o mineiro e seu paiol

17 de dezembro de 2012

teu museu

Quanto mais há pensamento, e em proporção a sua vastidão, mais cresce a distância entre duas pessoas. Um pensante, ao se deparar com esta coisa estranha que se autoentitula pessoa, em geral se perde em considerações racionalistas, resultado mais ou menos certo da tentativa de compreender o fenômeno do encontro. 

Quanto mais se pensa, mais se desencontra: mais se desloca do espáço etéreo onde se passou o encontro, um lugar virgem da interpretação, ainda poupado das palavras e dos malabarismos da consciência. Este lugar, onde duas pessoas efetivamente se encontram, onde elas não são mais que corpos encostados e disparadores mútuos das mais diversas sensações, é o oposto do pensamento. Este só vem, e com ele sua necessidade, logo depois que os corpos desencostaram. O pensamento aí quer produzir de novo o encontro, mas não consegue - porque sua precária reconstrução imagética não chega à beira da perfeição sensorial do encontro. O pensamento é uma alucinação fracassada. 

Assim, todo encontro de pessoas pensantes redunda num desencontro proporcional à sua afinidade de pensamento. Filósofos, poetas, artistas são em geral destinadamente solitários. Quanto mais pensam, mais se afastam de cada instante de despedida dérmica - e isto, desde a mãe! Afastam-se aí da dor respectiva da despedida. E então pensam mais, para se despedirem mais da despedida. Um dos efeitos da incongruência absoluta entre o pensamento e o encontro é a amarga frustração em que se lança aquele, uma vez que se percebe a si mesmo em ação. Então, o pensamento leva o solitário pensante a desejar, mesmo que por um instante romântico, antes ter nascido louco e capaz de alucinar. 

E o que me interessa desta digressão em si mesma racionalista é notar a seguinte obviedade: quando o encontro é entre dois pensantes, o processo é disparado de cada lado, gerando um abismo alquímico de solidão super povoado de palavras. Enquanto as peles esperam...

11 de dezembro de 2012

marchinha

Quando soro, choro
Quando sorvo, esquenta
Quando sobro, danço
quando sou imensa

Quando sonho, quase
Quando Soho, massa
Quando sofro, escrevo
Quando assopro passa

Quando sou-te sua
Quanto salto em mim
Quando o sulcro senta
Quando sombro; fim

brasilinha

Brasília, meu amor...
Beijo-te com minhas rodas
Uma semana sem te ver
E tu já tanto me esnobas

Matas Oscar, fazes teu luto
Desfazes do corpo enquanto não estou
Tu és mais cruel que o setor hoteleiro e
mais displicente que a rodô

Fazes frio, obras na W3
Choves sobre minhas rotas mundanas
Ó, Brasília, não me punas
Com tamanha vingança urbana!

Prometo-te, não volto mais
A outro lugar, nunca me mudo
Não brigues comigo, Candanga
Sou tua, tu és minha; é tudo!

Faz um sol cinza, dá sorriso breve
Te amo no minhocão e seus cartazes
Brasilinha? Um abraço de tesourinha
E vamos fazer as pazes

biblioteca

Não sou mais que uma bibliotecária
Trato com os arquivos empoeirados
Eu e minha lista precária
De dados

Catálogo frio de grandes obras
Apenas títulos, apenas sobras
Apenas restos que autores entregam
Para que os achemos nas estantes

Memória morta, aprendi a me precaver
De toda a beleza, de todo o amor, de todo ódio, e minha apatia
Me permite cumprir com eficiência
As demandas duras da arquivologia

Quando, no entanto, uma página insiste
Em ser lida, e até um capítulo todo
Quando, então, uma lágrima torta
Se recusa a concordar que eu esteja morta

Abrem-se todos os livros
Levantam-se todas as poeiras
Dobram-se estantes

e minhas páginas
Tornam aos troncos que foram
Que tornam às àrvores
Que por sua vez votam a ser sementes
Que numa noite escura lançaram
E que continuam crispando
Na minha fogueira

E então minha biblioteca
Vira abismo
E meu leitor
Vira beira

6 de dezembro de 2012

molhados

Ele vem e pronto prende
pára peito parede esmaga
ventre coice coito escuro
Ele me cava come estraga

Ele escorrega mela esfrega
dobra puxa encaixa cai
Ele gargalha cotovelo pelo
boca urro e ai

Ele desliga o chuveiro
sério sôfrego cenho unha
Ele me entalha suor toalha
Ele me esculpe e me rascunha

Ele sossega venta fecha
seu corpo treme surra e mói
Ele se nega flor sucumbe
Ele ama me derrama e dói

Oscar

Aqui tudo é estrangeiro
Da melhor qualidade:
Dono que se sabe hóspede
É que mora de verdade

Estranhamos todo o resto
Os nascidos destas curvas
Cada um dos rostos aqui é céu
Olho candango não se perturba

As formas que nos fizeram
Incomodar noventa graus
Se expandem por entre as vidas
Do nosso sereno caos

E somos todos marcados
Pelas assíndotas recortadas
Rumamos olhos ao infinito
No sinal verde de entrequadra

Doce Lúcio, doce utopia
De cobaia de cidade!
Doces palácios transversais
Insubordinados à gravidade

E fino Oscar, que ao partir
Como ninguém, deixa impresso
O traço que desafia o peso
E a teimosia do concreto:

traço que literalmente
Carregamos entre as luas
E que impede que as fechemos
Enquanto Oscar descansa as suas

29 de novembro de 2012

talha

Talha-me delicado, a faquinha em riste
Os olhos pregados nos meus
Mais a me precaver da dor que a me ameaçar

Talha-me com os olhos, que me esculpem
Dão-me as tuas margens
E me abençoam como, na verdade
São os fiéis que abençoam os santos

Talha-me ao averiguar quem sou
Nos cantos do que pareço:
Meus ângulos
Mas, por amor a Deus!
Avalia-me, com tuas mãos
Diz-me: sou boa ou não para teu toque

Detalha-me
E me destaca de toda visão

23 de novembro de 2012

fé verdadeira

Tudo posso naquele que me fortalece:
Naquele travesseiro que me descansa
Naquele cobertor que me aquece

O senhor é meu pastor e nada me faltará
(Obrigada, velho garçom
Que desce a próxima sem eu chamar)

Creio em deus pai todo poderoso
Meu pai nunca mentiu pra mim
Apesar de ser mafioso

Enfim, Jesus, escutai a nossa prece
Mas podeis seguir abençoando
Só quem vós acheis que merece

Além.

21 de novembro de 2012

he cannot refuse

Te mostra, poeta, percebe
Que aquilo que tens de direito é meu
Te desenha, te canta, aquarela -
Te vira, quero teu poema que sou eu!

Poeta é coisa dos outros,
Entendes? És nosso, todo do mundo
Deves o prazer de te ler aos que
Dão-te um canto, apesar de imundo

Assume, assume tua sina
Tu és um servente desde nascido
Serves aos outros para dar-lhes
Tudo que não tens: verdade e sentido

Tua eternidade é involuntária
Por mais que a autoria te coce...
Não te enganes a ponto de crer
Que talento é coisa de tua posse!

Tu tens nada! És servo que furta
Do cofre de aço do patrão
Tu descobriste o código da roldana
Roubaste o inefável da língua padrão

Tu que psicografas o que não morreu
Tu que acordas sonho e horror
Alto-falante de cartas imaginadas
Trancadas a chaves no aparador

Tu que escancaras o ponto
Onde a linguagem evita chegar
Poeta, tu és o furtivo gatuno que
Convences deixar-te invadir o lar

Tu exploras! Exploras a todos
Que esperam, respiram por teu olhar
Espalhado com toda destreza
Nas coisas que vês e nas que não há

No entanto, este chefe te cobra
Este já não dobras, vê-se subtraído
Nos encantastes? Agora escreve
poemas até teres caído!

Pudores, tu dizes, pudores - não sou 

um bom servo, não posso escrever
Como pode o insubordinado
Natimorto se recusar a nascer?

Poeta, por bem ou por mal
Escravo e gatuno, és nossa Geni
Alforria? Diabo, hoje tu escolhes:
Escreve - ou deixas de existir

14 de novembro de 2012

pra língua

Há livros que livram,
palavras que lavram,
silêncios que sulcam,
santos que não salvam.

Há gente que guente
e nós desatamos;
há mundos imundos
e outros tratando.

Há peles que apelam
e rezas roçando.
Há tal luz invisível
que vejo ventando.

Há verdade bem vesga
E mentira a sermos.
Há bagos de bagagem
em loucos que lemos!

Há mulher sem orifício
prum Chico sem choque.
Há tudo, nem tanto -
Exceção a reboque.

Mas para cada, a sacada
do sentido sem tino:
na língua nada míngua,
correm dez mil destinos...

13 de novembro de 2012

passo atrás

A clínca psicanalítica não está isenta de prescrições. Por ser solicitada também como tratamento, e por felizmente não ter cedido de todo à sedutora recusa a tal demanda, a psicanálise também prescreve. No seu caso, diferente de outras profilaxias, uma prescrição basta: a de que se suspendam as outras.

declaração

Ah, minha amiga, não conte
Ca sorte que nós pode não tê
Não conte cus fi aos monte
E os livro tudo por iscrevê
Não conte comigo, não conte
Pro caso possível deu morrer
Antes

Ah, minha amiga, não diga
Que tua admiração é maió
Meu amor por ocê dá fadiga
Sem ocê, creia, eu era uó
Desespero na chance que ocê siga
Choro cacomigo e dou até dó
Agora

Minha amiga, não suma
Minhalma não é confiante:
Ao contrário da tua, uma pluma
É planeta pesado, já errô bastante
Perambulou muito sem otra alguma
Na órbita do teu giro constante
Depois

da minha amiga, sem ela
Não sei nem pra onde eu vô
Ela mais eu é tanta querela
Que nós aprende a vivê; eu já tô
Esperano: espantaio sentinela
Nas portera que abri pra tantamor

utilitário

temer de co-piloto
barriga de aluguel
morte de parente
pai besta e mãe cruel
pranto sob o rímel
férias no arranha-céu

dois pássaros voando
extintor na enchente
nó de marinheiro
no embrulho do presente
réu querido nosso e

testemunha inconsistente

asa delta na nimbus
e bússola no espaço
colírio no escuro
magreza no regaço
ironia da Alanis
e alegria de palhaço

fruta podre por dentro
areia no calção de banho
faltou papel higiênico
meu bordão arrebentando
ipva iptu - sinto ter
começado o ano

12 de novembro de 2012

distância

Ocê ocê ocê
Contospecado sem confessá
Falasverdade de mentira:
Só conversa pra boi acordá
Enquanto ocê finge de carpira
Seus nó na goteira vão desatá!

Ocê ocê ocê
Mipõe uzói tudim pra trás
Mipõe de novo toda pequena
Me faz sorri. Tu tá dimais
Mipõe aqui a escrevê puema
Me faz pedi pra me pedi prupai

Ocê ocê ocê
Comigo tu inda há de tê
Eu espero que Jesuis dexe
Quinda faço essisseuzói vê
Eu vendo eles oiá prus feixe
Dessizói quiaterra há de comê

7 de novembro de 2012

arremates

A campainha da família dera lugar a um molho de chaves -
De casa, da firma, da casa da mãe onde cuidar de cães alheios

A sobrancelha tinha outro formato, que não o do genótipo
Posto ser a forma da sobrancelha um dos raros atributos femininos a se curvar à vontade da dona

Acordava sempre à mesma hora, fosse qual fosse a hora de deitar
Antes, procedera e procedia exatamente ao contrário

E comprava alimentos perecíveis
E abria as janelas para o sol entrar no apartamento
E pagava suas contas quase todas
Mas tinha uma cara, um jeito, um charme de menina!

No resto, era uma mulher
Feita de véspera
Pela mão dum deus apressado

6 de novembro de 2012

chuva

A mim a chuva se parece em tudo ao amor
:
Não gosto dela, senão de seus rastros
senão depois de ter acabado
De nada dela, senão do que fica - a temperatura amena
O cheiro de nada ao qual atribuímos ser de chuva
A sensação involuntária de paz

Que vem mesmo que não queiramos
E não é raro não querermos
Além do que toda poeira se assenta
Ao menos por alguns dias
E tudo, uma vez molhado
Pela chuva ou pelo amor

Pode vir a nascer
Não sendo interrompido
Por jardineiros ou abortos

4 de novembro de 2012

domingo

aos domingos a morte é como eles
como a tarde e como a missa
monótona e previsível
óbvia e submissa
estamos todos a saber que ela vem
e sem negar que ela exista

aos domingos ela não é livre
como um vírus que passou despercebido
pelo câncer
não é como a cabeça no meio fio
de que Raul deveria ter morrido
antes
não é como em Don Quixote sua sina
Nem o mergulho de Karenina

aos domingos estamos a postos:
um parente vem de lado
dar mais um nome à lista dos homenageados
ao padre
as funerárias abrem as portas
com o acolhimento das conveniências
e nenhum corpo fica sem visita
porque o cemitério está lotado
e sempre sobra alguma flor
à indigência

morrem mais idosos sem socorro
porque a família está a beber
e a ambulância demorou
morre-se mais nas filas
morre-se mais voluntariamente,
pelas sacadas, pontes, nas beiras
e morre a esperança dela
que havia nascido sexta-feira

receita para a felicidade


Cachorro acordando pra sair na chuva
Bons amigos de longe e de perto
Nem chance de namorado novo
E a certeza de estar no caminho errado

27 de outubro de 2012

reclamando com djavan

E faz anos, quantas músicas
Que te olho e não te vejo
Você me encara e eu nem sei
O que fazer com o trejeito
Se me quebro, se me dobro
Se você dança ou se me deixo
Mas assim que me decido
Você dança com o alheio!

Deve ter, no desencontro
Alguma já satisfação
Que não precisa de mais nada
Pra morrer de achar bom
Nem de beijo, nem de cama
Nem de dor, nem de canção
Só, talvez, de uma carona
E uma prosa no portão

A distância até você
Junto com suas chegadas
(Constantes e nem de todo
Assim tão desengajadas)
Isso de te ter vizinho
E evitar curto caminho
Esse todo – esse nada
Me põe mesmo toda errada
E de analista, viro a lista
Dos palpites, das apostas
Das fofocas de empregada

Que me notam, no portão
A prosear toda gostosa
Com homem que nunca entrou
Esse sim, todinho prosa
Eu, poema sedutor
Você, leitor melhor
Samba de duas notas só
Quanta palavra! Antes não fosse

Mas dessa vez não vou ter dó
Agora é o meu solo, só
Na nossa dança de cu doce

amigo antigo

soube da tua falação
da conversa desmedida
denegrindo ma pessoa
de louca, má, perdida
instruindo novos camarada
a depressa se esquivar
que eu nunca vou prestar
nem prestei por toda a vida

velho amigo, tu não gosta?

pois tu tem toda razão
sou cabocla muito exposta
cheia de contradição
inconsequente, inconfiavo
prepotência é meu sermão
defeito de caráter sobra
bem mais quias qualidade
mas porém apesar de cobra
e dosfato que tu nuadmira
tenho uma porção caipira
com grandapreço pela verdade

infiliz ou felizmente
meus defeito e eu somo muitos
nós sempre vivemo junto,
e nem sempre somo amigo
já num arrenego deles mais
e eles têm paciência comigo
tu, amigo lá de trás,
tanto quanto eles antigo
saiba: eu e meus defeito
oiamo bem pra frente
torcendo pra esquina da vida
dobrar os meus e os teus
novamente

eterna refeição

I
A cada dia o seu ritual.
Como a cada coisa, o seu destino
Levantava-se debruçando por igual
Pra começar seu encargo matutino

Manhãs têm horas necessárias
Pro café, para as pausas, para o chão
Pro jardim, pro livro de culinária
Tudo cabia na privada procissão

Com o rigor das cerimônias
E o falso improviso dos costumes
Podava plantas, em geral begônias
Enquanto declarava-lhes ciúmes

Com elas falava sobre o íntimo
Ele não voltaria; ela, absorvida
Até considerava o motivo legítimo –
Ele fora já embora desta vida

Aceitar era um termo forte
Mas ela já compreendera sim
A outra, que ele chamava morte
Havia-o levado, seduzido; enfim

Que termos cabem a tal raposa?
Que truculência, que coisa má
Outras amantes fazem com esposas
Crueldades possíveis de revogar!

Eis a queixa que as begônias ouviam
Com um amor de dezenas de mães
Caladas ficavam, os que respondiam
Eram os relógios de parede alemães

Em todo caso, não se arrasa
Ela sim, mas não seu hábito
A vida ou pelo menos a casa
Negava a evidência do... óbito

Seus vizinhos reparavam a rotina
Ora indiscretos, ora preocupados
Notavam-na ao fogão pela cortina
E o cheiro a vazar pelo telhado

A vizinhança toda fazia perguntas
Umas adequadas, outras trapaceiras
Todas, no entanto, disjuntas
De suas preocupações de cozinheira

Contentava-se em mexer colheres
E em esperar banhos-maria
Ignorava como viviam mulheres
A existência era sua casa vazia

II
Às doze horas e quinze minutos
Apagava bocas, destampava panelas
Tirava as luvas e os gestos brutos
Às vezes chuviscava só pra ela

Sorriu ao servir a eterna refeição
Sabedora de que iria agradá-lo
Em três pratos descansou o feijão
O arroz, o bife à cavalo

E conversava com seu marido
Este era tão ausente quanto estava
O avental sujo repousava despido
Na cadeira que, entre quatro, não afastava

E a vizinhança espiava na chuva
Prescrutava justo o terceiro prato.
Pois é, o segredo da viúva
É outro morto: um filho? Um mulato?

III
Mas nós, leitores de respeito
Não invadimos a casa, menos o luto
Guardemos a viúva deste jeito
E o poema fica assim, irresoluto

26 de outubro de 2012

meu pai meu pai meu pai

Meu pai, meu pai, meu pai
Seu amor é tão doce
Quanto bala de coco antiga
Enguiça o fundo da boca
E maltrata com a gengiva
Tanto que babo na roupa
E você limpa minha saliva

Meu pai, meu pai, meu pai
Seu amor é tão amargo

Quanto bafo de cerveja
De quando vem biritum
Me aperta forte e me beija
Pedir conselho no negócio
Discutir a Dilma e a igreja

Meu pai, meu pai, meu pai
Seu amor é tão azedo
Feito limão antes da tequila
Feito maçã verde demais
Feito óleo de copaíba
Feito criança passada da hora
Feito idoso em pé na fila

Meu pai, meu pai, meu pai
Seu amor é tão salgado
Feito calote em alto mar
Fica impregnado na gente
Nem a mãe consegue limpar
É feito comida de baiano
Feito suor de Cuiabá

Meu pai, meu pai, meu pai
Seu amor é dum gosto estranho
Bom e ruim ao mesmo tempo
Que se acumula há mais de ano
Nas papilas deste rebento
Cuja língua, no entanto
Vai ficar sempre querendo

chatinha chatinha

Vejo-te vir calmamente
Vem com o vento silente
Venho te ter veemente
Vela vestindo a gente

Peço-te pano pra pranto
Peço-te porção pro santo
Peço-te ponha-te um tanto
Perto de mim cá no canto

Quero-te coisa concreta
Quero-te tosco e esteta
Quero-te ilha deserta
Quente, carente e quieta

25 de outubro de 2012

rejunte

Ele deslizou a porta de vidro
E pisou no tapete já molhado
Dos pingos que, ao contrário do cheiro
Orientaram-se obedientemente
Na direção certa
Seu cheiro, no entanto
Subiu à revelia das regras
E apegou-se às coisas que encontrou
O vitrô fica assim embaçado
Não de vapor, mas de cheiro
Os azulejos aveludados
Não de vapor, mas de cheiro
E o rejunte especialmente
Desde sempre esquecido
Quase inútil
Foi onde o cheiro dele enfim
Ao contrário das expectativas
Resolveu se assentar
Na porosidade convidativa do gesso

Aqui o rapaz já se envolvera
Numa toalha velha
Mas ainda felpuda e vermelha
Corpo limpo
É mais magro e pálido
Perde pele, pêlos, até ossos
E tudo o mais que, reunido 

No canto mais teimoso
Chamamos: poeira

Uma menina, suja da vida
Desliza para dentro do box
Sem a cautela comum
dos que tomam banho primeiro
Abre o registro com os olhos fechados
Resignada com a certeza
De que contra a força com que a água
vai cair sobre sua cabeça
Nunca é demais se precaver

Seu banho não é tão lânguido
Quanto imaginamos na adolescência
Tampouco é grosseiro
Pois esta moça, em particular
Não usa buchas naturais.
Resumo da ópera: ela sai
Puxa uma toalha laranja
Seca as pernas e o rosto, basicamente
E estende a toalha ao lado da dele
Deixa o banheiro com as costas molhadas
E alcança uma calcinha seca
Que repousava sob o sol
Econômico que o vitrô permite entrar
Único visitante do casal
Além de um eventual pernilongo
Mas este não é convidado

Ao subir aos limites do teto
E depois derreter com o vapor
Dos projetos de nuvem que
Viriam a ser nuvem
Não fosse o teto
O cheiro dela aconchega-se
No rejunte, junto ao dele
Emaranhados se inscrevem
No banheiro para sempre
(Até pros futuros inquilinos
Que dali a dez anos
Vão escolher a casa porque
Gostaram de uma energia, sabe)

Ao contrário do casal
Que se deita esparramado
Um de cada lado, ele seco
Ela, molhada e sutilmente
Peidando

escutar

Escutar
Escutar para viver
Escutar por prazer
Cobrar por isso
Fazer disso ofício
Escutar por ser
Difícil dizer
Escutar
É como falar: minha vida

É escutar a dos outros
Escutar a dos loucos
Que não pode ser dita
E escutar a dos sãos
Que não pode ser calada
Escutar
A calada
Da vida
E cobrar tão caro
Pra ser catadora de lixo
Por ser gari de silêncios
Por ser o esgoto dos mundos
A que empresto ouvidos

Trabalhar de escutar
É ser, muito raramente,
Mas sempre, a puta
Dos sentidos

sardenta

Primeira noite que vi teu fundo
Perguntei-me quantos mundos
Havia em quantos sistemas
solares - eras um céu divertido
Teu corpo nem de todo despido
Era quase recoberto de estrelas

Ai, pintas escuras aos centos
Ai, noite clara, corpo sardento
Tu és a dublê da Via Láctea,
Mulher! Então eu não pude
Recolher do vasto nude
Tanta melanina homeopática

Prometo-te: essa noite te conto
Uma a uma, ponto por ponto
Número exato dos teus astros negros
A menos que, do eclipse invertido
Surja lua avessa por onde um gemido
Vai me pedir que mantenha segredo

22 de outubro de 2012

poema amargo

Então era verdade
A tua idade, tua dentadura
Que beijei como se não fosse
Osso e tártaro e matéria dura

Então era lição
Quando enfim te aprendi a cura
Do que restou, podre ou não
Na pele, nos furos, dentes e cintura



Então tinhas razão
A gente vira mulher onde se fura
Meus vãos repletos de nãos
Te louvam por teres me deixado crua

Então era gratidão

A última nota da poção escura
Que traguei até saciar
Minha vontade da desgraça tua

20 de outubro de 2012

Querido

Querido,
briga comigo
Me põe de castigo
Me impede que eu sigo


Querido,
me deixa que eu nego
Senão eu sossego
Querido, eu preciso


Que você me incomode
Não pergunta se pode
Me bate e não fode
Senão eu desisto


Querido,
pensa comigo:
Eu tô de vestido
Não é por acaso

Querido,
vem logo e vem raso
Canalha que eu caso
Querido, eu preciso 

Que você me incomode
Não pergunta se pode
Me bate e não fode
Senão eu desisto


Querido

joão g.

Que no peito dos desaforados também bate um coração
Que no peito dos desesperados também bate um coração
Que no peito dos desavisados também bate um coração
Que no peito dos desencarnados também, opa, aí não

buraquinho

Deus é o maior voyeurista jamais visto.

recursos

Torcia pra tropeçar na rua
Adorava turbulência no vôo
Certa vez um moleque lhe assaltou, faca na garganta:
Passa tudo! Gozou

Precisava de surpresas
Na vida e na comida
Gargalhava ao encontrar um fio de cabelo
No almoço e no suor do marido
Por isso comia em botecos
E contratava belas empregadas
Seus únicos hábitos, além de

estender a mão
Por entre grades na calçada
Sempre que um cão latia
Já foi mordida três vezes
E para estas ocasiões
Leva a máquina fotográfica

Sua mais secreta fantasia
Era o rato de Clarice
Pelo qual rezava a Deus
Que lhe respondia sempre:
Minha filha, esgotaram-se
meus recursos!

11 de outubro de 2012

Oedipus indulgence

May you be mine as I
Be totally hers for she
Is mainly me and you
Are our rival prize

Because, father, we
Know love is deep
And still we can hate
Whomever of us is free

From the triple romance
That relies in her hands -
Our private paradise
Is the hell we bring inside

9 de outubro de 2012

centro do mundo

Estou seca por um homem
Que me gasta em segredo
Se eu deixo, até sangrar
E silencioso me acorda cedo

Me queima só de encostar
A milhões de milhas de mim
Homem que não sabe abraçar
E me aquece mesmo assim
Ama todas como a mim

E ainda todos, pra m'aflição
Poligâmico, cruel e vital
Deus onipotente e pontual

Pai, pão, dono e freguês
Vai se esgueirar quarto adentro
Lembrando que é o centro do mundo - por volta das seis

Como todo homem
Toda vez

5 de outubro de 2012

astral

Entrando no céu astral
Um mês antes do primeiro quarto
de século
A data insiste em ecoar aquela
Mais concreta
Quando o quarto não era de século
Mas de dormir, entre outros

Inferno astral, dizem
E a vida neste ano anda tão boa
E noutros foi tão má comigo
E noutros esteve tão besta
Que em meu ceticismo me resigno

pensando que vocês, estrelas, estão aí
a boiar em paz no universo
E intuo que seu silêncio é prova
de que nunca quiseram ter nada a ver com isso.

Embora reconheça, minhas amigas
que nossa cafetina, Dona Lua
estivesse linda na minha primeira noite

E tenha me introduzido muito gentilmente
na celestial arte
dos quartos

4 de outubro de 2012

Confesso:

Confesso: parecer-me a ti é mais
Honroso que parecer-me ao meu favorito pai
Somos mulheres e disso decorre
Uma obrigação corporativista de presteza

Menos por ela, mais pela admiração
velada entre espasmos de raiva
de tamanha identificação, ai, mãe
Como é toda tua minha beleza!

30 de setembro de 2012

mundo paralelo II

Ser-te tão perto e parecer-te
tão longe como a fonte deste rio
cujas águas conhecemos só por onde
desembocam já nas pedras do vazio

Rio que de fronte é tão vasto

que desconhecemos sua vastidão
Rio sempre nosso e sempre estranho
qual as mesmas pedras desse chão

Todo dia o vemos, nosso rio

mas suas águas são outras toda vez
heraclitamente transformado
molha não quem és, mas quem tu vês

Quem eu fui, para ti, sabem as águas

quem já sou, outra amiga e outro ser:
folclore, rio gelado que impede
a planta ribeirinha de crescer

Desde o chão duro que piso a sua beira

eu te vejo, doce amiga, a braçar
Neste rio, nadas contra a corrente
e o vences, tu que já sabes nadar

Eu não entro neste rio - meu respeito

pelo mito que ele corre me impede
Só te assisto e és doce feito ele nas
braçadas rumo ao nada em que investes

Doce amiga, tão gelada feito o rio

Perdoa a covardia de meus pés
Não deixarem tão segura margem
Pelo boto fugidio que tu és

26 de setembro de 2012

DSMemes

Mulher pode ser mistérica
obsessinta e fórica
ou esquizonofrenética

até douda loica paranunca
altista, autesta e outrista
ter transtorno de dissonalidade

Nosso olho é piscanalista:
não há DSM que resista
a tanta mulheridade

23 de setembro de 2012

5 de setembro de 2012

17 de julho de 2012

16 de junho de 2012

moenda

aqui na terra nois chama nóóó
praís quiocês tão vazeno
detrás do muro, dendo armário
aqui de fora nois tá veno

ocês range tudo, parece moenda

parece um chicote no boi sereno
e ao mestempo ocês são quetim
iguar o sor, a poeira e o veneno

ocês dribla tudo, fala por código

ocês é esperto mas nois tamém semo
nois pode ser novo, bobim e carpira
mas divagarzim vai percebeno

ocês fala bonito, da história dascoisa

fala de desejo, dever e cosseno
trigonomestria, universo infinito
escreve em língua que nois num lemo

ocês brinca de padre, doutor e menino:

ocês esconde e pergunta e nós confessemo
ocês têm os ensino tudim do corpo dosotro
ocês cutuca as menina e sai correno

mas nois semo forte na arte do espio

nois só faz oiar e ficar quereno
nois desvia as pergunta de num responder
nois faz ocês rir passeguir moeno

nois é iguar ocês; cadiquim menos

20 de abril de 2012

Breivik

Então Breivik mostrou-se ao júri do mundo. Bem apessoado, como um bom nazista, livra-se das algemas para cerrar o punho, bater no peito, erguê-lo em riste à altura do rosto. Dos milhares de ângulos capturados, um fotógrafo teve mais sorte e vendeu o instante de Breivik por muito dinheiro.

Mas não foi exatamente um flagra. O flagra foi do próprio Breivik. Ele explicou que a missão era também suicida, mas não conseguiram pegá-lo; aí já não é problema dele. Pegou o mundo despercebido, uma Noruega de democracia tão madura que beirava a inocência. Uma ilha sem cercas. As paredes da ilha eram estudantes de esquerda, muros que Breivik derrubou um a um, totalizando setenta e sete.


Antes desses muros havia a misogenia, uma pluralidade perigosa à completude de Breivik. Ele escutou os nomes de cada um dos mortos e feridos. Não dá pra dizer que não tenha esboçado reação: o que foi aquele cenho de dever cumprido? Não se pode dizer que não tenha sentimentos: o que dizer da emoção ao ouvir-se, como um discípulo a um mestre?


Pobre Breivik, de novo a assustar o mundo sem saber por quê: a solene petulância de quem está com a certeza, a chocante coragem de quem sairá de toda forma ileso, a invejável liberdade de quem está na loucura.

2 de março de 2012

vão

Havia um buraco insistente na gente 
Um limite, fronteira, risco no chão 
Coisa que dá vez em quando na terra 
Quando seca tão seca que parte em duas 

Havia um sem jeito, um quê de distância 
O silêncio pesado, a palavra esperança 
O limite da pele do ouvido que espera 
Encostada na ponta das palavras nuas 

Havia, é certo, uma tagarelice 
Um trem de povoar toda a vizinhança 
Das coisas bonitas que a gente divide 
Desertas, sozinhas e sem nome ainda 

Um quem vem falar a um outro tamanho 
É britadeira contra o chão de petróleo 
É palavra contra a natureza humana, 
selvagem, são coisas que eu colho 

Havia entre nós uma encruzilhada 
Entre o que poderia vir a ser dito 
Seu olhar e o solo 
E daí a aposta renconciliável 
Na existência e no buraco do outro 

Havia uma borda de um campo minado 
Que ao atravessá-la, 
nascia um, o outro secando 
E esse passo entre uma terra e outra 
É coisa de anos