27 de outubro de 2012

eterna refeição

I
A cada dia o seu ritual.
Como a cada coisa, o seu destino
Levantava-se debruçando por igual
Pra começar seu encargo matutino

Manhãs têm horas necessárias
Pro café, para as pausas, para o chão
Pro jardim, pro livro de culinária
Tudo cabia na privada procissão

Com o rigor das cerimônias
E o falso improviso dos costumes
Podava plantas, em geral begônias
Enquanto declarava-lhes ciúmes

Com elas falava sobre o íntimo
Ele não voltaria; ela, absorvida
Até considerava o motivo legítimo –
Ele fora já embora desta vida

Aceitar era um termo forte
Mas ela já compreendera sim
A outra, que ele chamava morte
Havia-o levado, seduzido; enfim

Que termos cabem a tal raposa?
Que truculência, que coisa má
Outras amantes fazem com esposas
Crueldades possíveis de revogar!

Eis a queixa que as begônias ouviam
Com um amor de dezenas de mães
Caladas ficavam, os que respondiam
Eram os relógios de parede alemães

Em todo caso, não se arrasa
Ela sim, mas não seu hábito
A vida ou pelo menos a casa
Negava a evidência do... óbito

Seus vizinhos reparavam a rotina
Ora indiscretos, ora preocupados
Notavam-na ao fogão pela cortina
E o cheiro a vazar pelo telhado

A vizinhança toda fazia perguntas
Umas adequadas, outras trapaceiras
Todas, no entanto, disjuntas
De suas preocupações de cozinheira

Contentava-se em mexer colheres
E em esperar banhos-maria
Ignorava como viviam mulheres
A existência era sua casa vazia

II
Às doze horas e quinze minutos
Apagava bocas, destampava panelas
Tirava as luvas e os gestos brutos
Às vezes chuviscava só pra ela

Sorriu ao servir a eterna refeição
Sabedora de que iria agradá-lo
Em três pratos descansou o feijão
O arroz, o bife à cavalo

E conversava com seu marido
Este era tão ausente quanto estava
O avental sujo repousava despido
Na cadeira que, entre quatro, não afastava

E a vizinhança espiava na chuva
Prescrutava justo o terceiro prato.
Pois é, o segredo da viúva
É outro morto: um filho? Um mulato?

III
Mas nós, leitores de respeito
Não invadimos a casa, menos o luto
Guardemos a viúva deste jeito
E o poema fica assim, irresoluto

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