4 de novembro de 2012

domingo

aos domingos a morte é como eles
como a tarde e como a missa
monótona e previsível
óbvia e submissa
estamos todos a saber que ela vem
e sem negar que ela exista

aos domingos ela não é livre
como um vírus que passou despercebido
pelo câncer
não é como a cabeça no meio fio
de que Raul deveria ter morrido
antes
não é como em Don Quixote sua sina
Nem o mergulho de Karenina

aos domingos estamos a postos:
um parente vem de lado
dar mais um nome à lista dos homenageados
ao padre
as funerárias abrem as portas
com o acolhimento das conveniências
e nenhum corpo fica sem visita
porque o cemitério está lotado
e sempre sobra alguma flor
à indigência

morrem mais idosos sem socorro
porque a família está a beber
e a ambulância demorou
morre-se mais nas filas
morre-se mais voluntariamente,
pelas sacadas, pontes, nas beiras
e morre a esperança dela
que havia nascido sexta-feira

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