27 de outubro de 2012

reclamando com djavan

E faz anos, quantas músicas
Que te olho e não te vejo
Você me encara e eu nem sei
O que fazer com o trejeito
Se me quebro, se me dobro
Se você dança ou se me deixo
Mas assim que me decido
Você dança com o alheio!

Deve ter, no desencontro
Alguma já satisfação
Que não precisa de mais nada
Pra morrer de achar bom
Nem de beijo, nem de cama
Nem de dor, nem de canção
Só, talvez, de uma carona
E uma prosa no portão

A distância até você
Junto com suas chegadas
(Constantes e nem de todo
Assim tão desengajadas)
Isso de te ter vizinho
E evitar curto caminho
Esse todo – esse nada
Me põe mesmo toda errada
E de analista, viro a lista
Dos palpites, das apostas
Das fofocas de empregada

Que me notam, no portão
A prosear toda gostosa
Com homem que nunca entrou
Esse sim, todinho prosa
Eu, poema sedutor
Você, leitor melhor
Samba de duas notas só
Quanta palavra! Antes não fosse

Mas dessa vez não vou ter dó
Agora é o meu solo, só
Na nossa dança de cu doce

amigo antigo

soube da tua falação
da conversa desmedida
denegrindo ma pessoa
de louca, má, perdida
instruindo novos camarada
a depressa se esquivar
que eu nunca vou prestar
nem prestei por toda a vida

velho amigo, tu não gosta?

pois tu tem toda razão
sou cabocla muito exposta
cheia de contradição
inconsequente, inconfiavo
prepotência é meu sermão
defeito de caráter sobra
bem mais quias qualidade
mas porém apesar de cobra
e dosfato que tu nuadmira
tenho uma porção caipira
com grandapreço pela verdade

infiliz ou felizmente
meus defeito e eu somo muitos
nós sempre vivemo junto,
e nem sempre somo amigo
já num arrenego deles mais
e eles têm paciência comigo
tu, amigo lá de trás,
tanto quanto eles antigo
saiba: eu e meus defeito
oiamo bem pra frente
torcendo pra esquina da vida
dobrar os meus e os teus
novamente

eterna refeição

I
A cada dia o seu ritual.
Como a cada coisa, o seu destino
Levantava-se debruçando por igual
Pra começar seu encargo matutino

Manhãs têm horas necessárias
Pro café, para as pausas, para o chão
Pro jardim, pro livro de culinária
Tudo cabia na privada procissão

Com o rigor das cerimônias
E o falso improviso dos costumes
Podava plantas, em geral begônias
Enquanto declarava-lhes ciúmes

Com elas falava sobre o íntimo
Ele não voltaria; ela, absorvida
Até considerava o motivo legítimo –
Ele fora já embora desta vida

Aceitar era um termo forte
Mas ela já compreendera sim
A outra, que ele chamava morte
Havia-o levado, seduzido; enfim

Que termos cabem a tal raposa?
Que truculência, que coisa má
Outras amantes fazem com esposas
Crueldades possíveis de revogar!

Eis a queixa que as begônias ouviam
Com um amor de dezenas de mães
Caladas ficavam, os que respondiam
Eram os relógios de parede alemães

Em todo caso, não se arrasa
Ela sim, mas não seu hábito
A vida ou pelo menos a casa
Negava a evidência do... óbito

Seus vizinhos reparavam a rotina
Ora indiscretos, ora preocupados
Notavam-na ao fogão pela cortina
E o cheiro a vazar pelo telhado

A vizinhança toda fazia perguntas
Umas adequadas, outras trapaceiras
Todas, no entanto, disjuntas
De suas preocupações de cozinheira

Contentava-se em mexer colheres
E em esperar banhos-maria
Ignorava como viviam mulheres
A existência era sua casa vazia

II
Às doze horas e quinze minutos
Apagava bocas, destampava panelas
Tirava as luvas e os gestos brutos
Às vezes chuviscava só pra ela

Sorriu ao servir a eterna refeição
Sabedora de que iria agradá-lo
Em três pratos descansou o feijão
O arroz, o bife à cavalo

E conversava com seu marido
Este era tão ausente quanto estava
O avental sujo repousava despido
Na cadeira que, entre quatro, não afastava

E a vizinhança espiava na chuva
Prescrutava justo o terceiro prato.
Pois é, o segredo da viúva
É outro morto: um filho? Um mulato?

III
Mas nós, leitores de respeito
Não invadimos a casa, menos o luto
Guardemos a viúva deste jeito
E o poema fica assim, irresoluto

26 de outubro de 2012

meu pai meu pai meu pai

Meu pai, meu pai, meu pai
Seu amor é tão doce
Quanto bala de coco antiga
Enguiça o fundo da boca
E maltrata com a gengiva
Tanto que babo na roupa
E você limpa minha saliva

Meu pai, meu pai, meu pai
Seu amor é tão amargo

Quanto bafo de cerveja
De quando vem biritum
Me aperta forte e me beija
Pedir conselho no negócio
Discutir a Dilma e a igreja

Meu pai, meu pai, meu pai
Seu amor é tão azedo
Feito limão antes da tequila
Feito maçã verde demais
Feito óleo de copaíba
Feito criança passada da hora
Feito idoso em pé na fila

Meu pai, meu pai, meu pai
Seu amor é tão salgado
Feito calote em alto mar
Fica impregnado na gente
Nem a mãe consegue limpar
É feito comida de baiano
Feito suor de Cuiabá

Meu pai, meu pai, meu pai
Seu amor é dum gosto estranho
Bom e ruim ao mesmo tempo
Que se acumula há mais de ano
Nas papilas deste rebento
Cuja língua, no entanto
Vai ficar sempre querendo

chatinha chatinha

Vejo-te vir calmamente
Vem com o vento silente
Venho te ter veemente
Vela vestindo a gente

Peço-te pano pra pranto
Peço-te porção pro santo
Peço-te ponha-te um tanto
Perto de mim cá no canto

Quero-te coisa concreta
Quero-te tosco e esteta
Quero-te ilha deserta
Quente, carente e quieta

25 de outubro de 2012

rejunte

Ele deslizou a porta de vidro
E pisou no tapete já molhado
Dos pingos que, ao contrário do cheiro
Orientaram-se obedientemente
Na direção certa
Seu cheiro, no entanto
Subiu à revelia das regras
E apegou-se às coisas que encontrou
O vitrô fica assim embaçado
Não de vapor, mas de cheiro
Os azulejos aveludados
Não de vapor, mas de cheiro
E o rejunte especialmente
Desde sempre esquecido
Quase inútil
Foi onde o cheiro dele enfim
Ao contrário das expectativas
Resolveu se assentar
Na porosidade convidativa do gesso

Aqui o rapaz já se envolvera
Numa toalha velha
Mas ainda felpuda e vermelha
Corpo limpo
É mais magro e pálido
Perde pele, pêlos, até ossos
E tudo o mais que, reunido 

No canto mais teimoso
Chamamos: poeira

Uma menina, suja da vida
Desliza para dentro do box
Sem a cautela comum
dos que tomam banho primeiro
Abre o registro com os olhos fechados
Resignada com a certeza
De que contra a força com que a água
vai cair sobre sua cabeça
Nunca é demais se precaver

Seu banho não é tão lânguido
Quanto imaginamos na adolescência
Tampouco é grosseiro
Pois esta moça, em particular
Não usa buchas naturais.
Resumo da ópera: ela sai
Puxa uma toalha laranja
Seca as pernas e o rosto, basicamente
E estende a toalha ao lado da dele
Deixa o banheiro com as costas molhadas
E alcança uma calcinha seca
Que repousava sob o sol
Econômico que o vitrô permite entrar
Único visitante do casal
Além de um eventual pernilongo
Mas este não é convidado

Ao subir aos limites do teto
E depois derreter com o vapor
Dos projetos de nuvem que
Viriam a ser nuvem
Não fosse o teto
O cheiro dela aconchega-se
No rejunte, junto ao dele
Emaranhados se inscrevem
No banheiro para sempre
(Até pros futuros inquilinos
Que dali a dez anos
Vão escolher a casa porque
Gostaram de uma energia, sabe)

Ao contrário do casal
Que se deita esparramado
Um de cada lado, ele seco
Ela, molhada e sutilmente
Peidando

escutar

Escutar
Escutar para viver
Escutar por prazer
Cobrar por isso
Fazer disso ofício
Escutar por ser
Difícil dizer
Escutar
É como falar: minha vida

É escutar a dos outros
Escutar a dos loucos
Que não pode ser dita
E escutar a dos sãos
Que não pode ser calada
Escutar
A calada
Da vida
E cobrar tão caro
Pra ser catadora de lixo
Por ser gari de silêncios
Por ser o esgoto dos mundos
A que empresto ouvidos

Trabalhar de escutar
É ser, muito raramente,
Mas sempre, a puta
Dos sentidos

sardenta

Primeira noite que vi teu fundo
Perguntei-me quantos mundos
Havia em quantos sistemas
solares - eras um céu divertido
Teu corpo nem de todo despido
Era quase recoberto de estrelas

Ai, pintas escuras aos centos
Ai, noite clara, corpo sardento
Tu és a dublê da Via Láctea,
Mulher! Então eu não pude
Recolher do vasto nude
Tanta melanina homeopática

Prometo-te: essa noite te conto
Uma a uma, ponto por ponto
Número exato dos teus astros negros
A menos que, do eclipse invertido
Surja lua avessa por onde um gemido
Vai me pedir que mantenha segredo

22 de outubro de 2012

poema amargo

Então era verdade
A tua idade, tua dentadura
Que beijei como se não fosse
Osso e tártaro e matéria dura

Então era lição
Quando enfim te aprendi a cura
Do que restou, podre ou não
Na pele, nos furos, dentes e cintura



Então tinhas razão
A gente vira mulher onde se fura
Meus vãos repletos de nãos
Te louvam por teres me deixado crua

Então era gratidão

A última nota da poção escura
Que traguei até saciar
Minha vontade da desgraça tua

20 de outubro de 2012

Querido

Querido,
briga comigo
Me põe de castigo
Me impede que eu sigo


Querido,
me deixa que eu nego
Senão eu sossego
Querido, eu preciso


Que você me incomode
Não pergunta se pode
Me bate e não fode
Senão eu desisto


Querido,
pensa comigo:
Eu tô de vestido
Não é por acaso

Querido,
vem logo e vem raso
Canalha que eu caso
Querido, eu preciso 

Que você me incomode
Não pergunta se pode
Me bate e não fode
Senão eu desisto


Querido

joão g.

Que no peito dos desaforados também bate um coração
Que no peito dos desesperados também bate um coração
Que no peito dos desavisados também bate um coração
Que no peito dos desencarnados também, opa, aí não

buraquinho

Deus é o maior voyeurista jamais visto.

recursos

Torcia pra tropeçar na rua
Adorava turbulência no vôo
Certa vez um moleque lhe assaltou, faca na garganta:
Passa tudo! Gozou

Precisava de surpresas
Na vida e na comida
Gargalhava ao encontrar um fio de cabelo
No almoço e no suor do marido
Por isso comia em botecos
E contratava belas empregadas
Seus únicos hábitos, além de

estender a mão
Por entre grades na calçada
Sempre que um cão latia
Já foi mordida três vezes
E para estas ocasiões
Leva a máquina fotográfica

Sua mais secreta fantasia
Era o rato de Clarice
Pelo qual rezava a Deus
Que lhe respondia sempre:
Minha filha, esgotaram-se
meus recursos!

11 de outubro de 2012

Oedipus indulgence

May you be mine as I
Be totally hers for she
Is mainly me and you
Are our rival prize

Because, father, we
Know love is deep
And still we can hate
Whomever of us is free

From the triple romance
That relies in her hands -
Our private paradise
Is the hell we bring inside

9 de outubro de 2012

centro do mundo

Estou seca por um homem
Que me gasta em segredo
Se eu deixo, até sangrar
E silencioso me acorda cedo

Me queima só de encostar
A milhões de milhas de mim
Homem que não sabe abraçar
E me aquece mesmo assim
Ama todas como a mim

E ainda todos, pra m'aflição
Poligâmico, cruel e vital
Deus onipotente e pontual

Pai, pão, dono e freguês
Vai se esgueirar quarto adentro
Lembrando que é o centro do mundo - por volta das seis

Como todo homem
Toda vez

5 de outubro de 2012

astral

Entrando no céu astral
Um mês antes do primeiro quarto
de século
A data insiste em ecoar aquela
Mais concreta
Quando o quarto não era de século
Mas de dormir, entre outros

Inferno astral, dizem
E a vida neste ano anda tão boa
E noutros foi tão má comigo
E noutros esteve tão besta
Que em meu ceticismo me resigno

pensando que vocês, estrelas, estão aí
a boiar em paz no universo
E intuo que seu silêncio é prova
de que nunca quiseram ter nada a ver com isso.

Embora reconheça, minhas amigas
que nossa cafetina, Dona Lua
estivesse linda na minha primeira noite

E tenha me introduzido muito gentilmente
na celestial arte
dos quartos

4 de outubro de 2012

Confesso:

Confesso: parecer-me a ti é mais
Honroso que parecer-me ao meu favorito pai
Somos mulheres e disso decorre
Uma obrigação corporativista de presteza

Menos por ela, mais pela admiração
velada entre espasmos de raiva
de tamanha identificação, ai, mãe
Como é toda tua minha beleza!