29 de novembro de 2012

talha

Talha-me delicado, a faquinha em riste
Os olhos pregados nos meus
Mais a me precaver da dor que a me ameaçar

Talha-me com os olhos, que me esculpem
Dão-me as tuas margens
E me abençoam como, na verdade
São os fiéis que abençoam os santos

Talha-me ao averiguar quem sou
Nos cantos do que pareço:
Meus ângulos
Mas, por amor a Deus!
Avalia-me, com tuas mãos
Diz-me: sou boa ou não para teu toque

Detalha-me
E me destaca de toda visão

23 de novembro de 2012

fé verdadeira

Tudo posso naquele que me fortalece:
Naquele travesseiro que me descansa
Naquele cobertor que me aquece

O senhor é meu pastor e nada me faltará
(Obrigada, velho garçom
Que desce a próxima sem eu chamar)

Creio em deus pai todo poderoso
Meu pai nunca mentiu pra mim
Apesar de ser mafioso

Enfim, Jesus, escutai a nossa prece
Mas podeis seguir abençoando
Só quem vós acheis que merece

Além.

21 de novembro de 2012

he cannot refuse

Te mostra, poeta, percebe
Que aquilo que tens de direito é meu
Te desenha, te canta, aquarela -
Te vira, quero teu poema que sou eu!

Poeta é coisa dos outros,
Entendes? És nosso, todo do mundo
Deves o prazer de te ler aos que
Dão-te um canto, apesar de imundo

Assume, assume tua sina
Tu és um servente desde nascido
Serves aos outros para dar-lhes
Tudo que não tens: verdade e sentido

Tua eternidade é involuntária
Por mais que a autoria te coce...
Não te enganes a ponto de crer
Que talento é coisa de tua posse!

Tu tens nada! És servo que furta
Do cofre de aço do patrão
Tu descobriste o código da roldana
Roubaste o inefável da língua padrão

Tu que psicografas o que não morreu
Tu que acordas sonho e horror
Alto-falante de cartas imaginadas
Trancadas a chaves no aparador

Tu que escancaras o ponto
Onde a linguagem evita chegar
Poeta, tu és o furtivo gatuno que
Convences deixar-te invadir o lar

Tu exploras! Exploras a todos
Que esperam, respiram por teu olhar
Espalhado com toda destreza
Nas coisas que vês e nas que não há

No entanto, este chefe te cobra
Este já não dobras, vê-se subtraído
Nos encantastes? Agora escreve
poemas até teres caído!

Pudores, tu dizes, pudores - não sou 

um bom servo, não posso escrever
Como pode o insubordinado
Natimorto se recusar a nascer?

Poeta, por bem ou por mal
Escravo e gatuno, és nossa Geni
Alforria? Diabo, hoje tu escolhes:
Escreve - ou deixas de existir

14 de novembro de 2012

pra língua

Há livros que livram,
palavras que lavram,
silêncios que sulcam,
santos que não salvam.

Há gente que guente
e nós desatamos;
há mundos imundos
e outros tratando.

Há peles que apelam
e rezas roçando.
Há tal luz invisível
que vejo ventando.

Há verdade bem vesga
E mentira a sermos.
Há bagos de bagagem
em loucos que lemos!

Há mulher sem orifício
prum Chico sem choque.
Há tudo, nem tanto -
Exceção a reboque.

Mas para cada, a sacada
do sentido sem tino:
na língua nada míngua,
correm dez mil destinos...

13 de novembro de 2012

passo atrás

A clínca psicanalítica não está isenta de prescrições. Por ser solicitada também como tratamento, e por felizmente não ter cedido de todo à sedutora recusa a tal demanda, a psicanálise também prescreve. No seu caso, diferente de outras profilaxias, uma prescrição basta: a de que se suspendam as outras.

declaração

Ah, minha amiga, não conte
Ca sorte que nós pode não tê
Não conte cus fi aos monte
E os livro tudo por iscrevê
Não conte comigo, não conte
Pro caso possível deu morrer
Antes

Ah, minha amiga, não diga
Que tua admiração é maió
Meu amor por ocê dá fadiga
Sem ocê, creia, eu era uó
Desespero na chance que ocê siga
Choro cacomigo e dou até dó
Agora

Minha amiga, não suma
Minhalma não é confiante:
Ao contrário da tua, uma pluma
É planeta pesado, já errô bastante
Perambulou muito sem otra alguma
Na órbita do teu giro constante
Depois

da minha amiga, sem ela
Não sei nem pra onde eu vô
Ela mais eu é tanta querela
Que nós aprende a vivê; eu já tô
Esperano: espantaio sentinela
Nas portera que abri pra tantamor

utilitário

temer de co-piloto
barriga de aluguel
morte de parente
pai besta e mãe cruel
pranto sob o rímel
férias no arranha-céu

dois pássaros voando
extintor na enchente
nó de marinheiro
no embrulho do presente
réu querido nosso e

testemunha inconsistente

asa delta na nimbus
e bússola no espaço
colírio no escuro
magreza no regaço
ironia da Alanis
e alegria de palhaço

fruta podre por dentro
areia no calção de banho
faltou papel higiênico
meu bordão arrebentando
ipva iptu - sinto ter
começado o ano

12 de novembro de 2012

distância

Ocê ocê ocê
Contospecado sem confessá
Falasverdade de mentira:
Só conversa pra boi acordá
Enquanto ocê finge de carpira
Seus nó na goteira vão desatá!

Ocê ocê ocê
Mipõe uzói tudim pra trás
Mipõe de novo toda pequena
Me faz sorri. Tu tá dimais
Mipõe aqui a escrevê puema
Me faz pedi pra me pedi prupai

Ocê ocê ocê
Comigo tu inda há de tê
Eu espero que Jesuis dexe
Quinda faço essisseuzói vê
Eu vendo eles oiá prus feixe
Dessizói quiaterra há de comê

7 de novembro de 2012

arremates

A campainha da família dera lugar a um molho de chaves -
De casa, da firma, da casa da mãe onde cuidar de cães alheios

A sobrancelha tinha outro formato, que não o do genótipo
Posto ser a forma da sobrancelha um dos raros atributos femininos a se curvar à vontade da dona

Acordava sempre à mesma hora, fosse qual fosse a hora de deitar
Antes, procedera e procedia exatamente ao contrário

E comprava alimentos perecíveis
E abria as janelas para o sol entrar no apartamento
E pagava suas contas quase todas
Mas tinha uma cara, um jeito, um charme de menina!

No resto, era uma mulher
Feita de véspera
Pela mão dum deus apressado

6 de novembro de 2012

chuva

A mim a chuva se parece em tudo ao amor
:
Não gosto dela, senão de seus rastros
senão depois de ter acabado
De nada dela, senão do que fica - a temperatura amena
O cheiro de nada ao qual atribuímos ser de chuva
A sensação involuntária de paz

Que vem mesmo que não queiramos
E não é raro não querermos
Além do que toda poeira se assenta
Ao menos por alguns dias
E tudo, uma vez molhado
Pela chuva ou pelo amor

Pode vir a nascer
Não sendo interrompido
Por jardineiros ou abortos

4 de novembro de 2012

domingo

aos domingos a morte é como eles
como a tarde e como a missa
monótona e previsível
óbvia e submissa
estamos todos a saber que ela vem
e sem negar que ela exista

aos domingos ela não é livre
como um vírus que passou despercebido
pelo câncer
não é como a cabeça no meio fio
de que Raul deveria ter morrido
antes
não é como em Don Quixote sua sina
Nem o mergulho de Karenina

aos domingos estamos a postos:
um parente vem de lado
dar mais um nome à lista dos homenageados
ao padre
as funerárias abrem as portas
com o acolhimento das conveniências
e nenhum corpo fica sem visita
porque o cemitério está lotado
e sempre sobra alguma flor
à indigência

morrem mais idosos sem socorro
porque a família está a beber
e a ambulância demorou
morre-se mais nas filas
morre-se mais voluntariamente,
pelas sacadas, pontes, nas beiras
e morre a esperança dela
que havia nascido sexta-feira

receita para a felicidade


Cachorro acordando pra sair na chuva
Bons amigos de longe e de perto
Nem chance de namorado novo
E a certeza de estar no caminho errado