31 de dezembro de 2012

versos nus

Queria que você chegasse manso
Tipo enquanto eu danço
O novo do Bon Iver

Planejado e louco como o tiro
Que ensaiou De Niro
No Taxi Driver

Queria você afiado no Borges
Sua estante não foge
Desse meu exame

E te queria abrir à nova MPB:
Ana Cañar você
Ao fatiar salame

Queria um amor meio Brás Cubas
Uma acidez que aduba
Esse over lirismo

Arrumasse hora prum Noel
Mas nada de chapéu
Que afetação eu cismo

Queria um orgulho não tacanho
Tipo aquele do Caetano
Enfrentando Hermeto

Que topasse se hospedar no Harlem
Perdoasse a fase do Woody Allen
E fosse meio incorreto

Te queria forte e cabeludo
Mas se não for, eu pulo
E a gente lê Mafalda

Queria que você gostasse de tango
E também de Fandangos
E de não fazer nada

Te queria bem assim, disposto
Meio brega, meio bom gosto
Fumasse vez em quando

Te queria leve e engraçado
Nalgum lugar entre o Wado
E o Marlon Brando

De preferência ex-comunista
E bom neologista
Como meu Guimarães

Melhor se fosse dado
Tanto ao labor quanto ao fado
Tanto a mim quanto à mãe

E ainda assim, bom de olhar
Filho novo do Godard
E da Nouvelle Vague

Pra gente ser bem natural
E brincar de prever o final
Antes que o filme acabe

Eu queria um homem de macramê
Cujo arremate fizesse encolher
O resto do universo

Que tirasse uma foto proibida
Em cada museu da vida;
Que coubesse nesses versos

E a pergunta que os deixa nus
É se eu faço jus
A tamanha exigência

A resposta cabe numa palavra:
Não. Mas sou eu quem o lavra 
Portanto, a experiência

30 de dezembro de 2012

me gira

Me gira, meu caro
Que é raro tanta leveza
Na hora do sono

Me joga pra cima
Me mima, me chama de deusa
Ou de demônio

Me erra, meu bem
Que é zen, a gente disrfaça
Eu mesma me engomo

Me chama do que quiser
Que eu te chamo de zé,
De alaor, de antônio

Me come, me bebe
Digere: me faz seu nada
Me reduz ao hidrônio

Me puxa o cabelo,
Um apelo! Me faz de medusa
Em cada gorgônio

E lá pro fim, por amor
faz assim: me larga e
Me deixa sem dono

Que eu fico daquele jeito
No meu peito: sem rima
sem rima sem rima

25 de dezembro de 2012

em boa companhia

Cai tanto de teu
Nesse breu
Caem torres, tijolos
Em meu colo
Cai tônus, cai tez
Da fronte
Cá e tão longe
Cai tanto de teu

Cantando
O ouvido tocando o chão
Qual capitão adivinhando o passo do inimigo
Prossigo

te caetando
Grão em grão

20 de dezembro de 2012

método

Saiu de cena como se fosse mero coadjuvante. Curvou-se para a plateia à esquerda, depois à direita. Não se enlevava com a euforia do público. Não era arrogância ou frieza decorrente do costume. Apenas não se enlevava. O público, estas centenas de gentes, bem como sua admiração explícita no derradeiro minuto de espetáculo, eram peças do jogo de sua profissão. Como o é o abraço que recebe o médico ao salvar uma vida. Não faz sentido o abraço: é seu ofício.

Encaminhou-se para a segunda coxia, recebeu com afeto os cumprimentos dos colegas - mais por delicadeza e algum talento para a paciência do que por vaidade. Enfim, pelos colegas mais que por si. Entrou em seu camarim, ajustou o pé da arara dos figurinos, que estava torta. Sentou-se diante do espelho, e não se emocionou, não se orgulhou. Notou que uma das lâmpadas da barra lateral do espelho tinha uma frequência intermitente, e a desatarrachou, por precaução.

O método, quando um homem o tem, não filtra ofício, disposição ou apetite. Se o tem, o tem; e este homem o tinha. Poderia ter sido a bolsa de valores. Poderia ter sido medicina, por pouco não foi. Poderia ter sido uma família. Apenas calhara de ser o balé.

mineira

Nada há de mais sagrado
Que o padecer resignado
Seguinte ao fim do amor

Nada mais puro e sublime
Que deixar que a tristeza se anime
Ao natural, desde o torpor

O coração é uma carne mansa
E na dor, ele descansa
Feito filé salgando ao sol

E de sofrer fica curtido
Bem temperado e distendido
Qual o mineiro e seu paiol

17 de dezembro de 2012

teu museu

Quanto mais há pensamento, e em proporção a sua vastidão, mais cresce a distância entre duas pessoas. Um pensante, ao se deparar com esta coisa estranha que se autoentitula pessoa, em geral se perde em considerações racionalistas, resultado mais ou menos certo da tentativa de compreender o fenômeno do encontro. 

Quanto mais se pensa, mais se desencontra: mais se desloca do espáço etéreo onde se passou o encontro, um lugar virgem da interpretação, ainda poupado das palavras e dos malabarismos da consciência. Este lugar, onde duas pessoas efetivamente se encontram, onde elas não são mais que corpos encostados e disparadores mútuos das mais diversas sensações, é o oposto do pensamento. Este só vem, e com ele sua necessidade, logo depois que os corpos desencostaram. O pensamento aí quer produzir de novo o encontro, mas não consegue - porque sua precária reconstrução imagética não chega à beira da perfeição sensorial do encontro. O pensamento é uma alucinação fracassada. 

Assim, todo encontro de pessoas pensantes redunda num desencontro proporcional à sua afinidade de pensamento. Filósofos, poetas, artistas são em geral destinadamente solitários. Quanto mais pensam, mais se afastam de cada instante de despedida dérmica - e isto, desde a mãe! Afastam-se aí da dor respectiva da despedida. E então pensam mais, para se despedirem mais da despedida. Um dos efeitos da incongruência absoluta entre o pensamento e o encontro é a amarga frustração em que se lança aquele, uma vez que se percebe a si mesmo em ação. Então, o pensamento leva o solitário pensante a desejar, mesmo que por um instante romântico, antes ter nascido louco e capaz de alucinar. 

E o que me interessa desta digressão em si mesma racionalista é notar a seguinte obviedade: quando o encontro é entre dois pensantes, o processo é disparado de cada lado, gerando um abismo alquímico de solidão super povoado de palavras. Enquanto as peles esperam...

11 de dezembro de 2012

marchinha

Quando soro, choro
Quando sorvo, esquenta
Quando sobro, danço
quando sou imensa

Quando sonho, quase
Quando Soho, massa
Quando sofro, escrevo
Quando assopro passa

Quando sou-te sua
Quanto salto em mim
Quando o sulcro senta
Quando sombro; fim

brasilinha

Brasília, meu amor...
Beijo-te com minhas rodas
Uma semana sem te ver
E tu já tanto me esnobas

Matas Oscar, fazes teu luto
Desfazes do corpo enquanto não estou
Tu és mais cruel que o setor hoteleiro e
mais displicente que a rodô

Fazes frio, obras na W3
Choves sobre minhas rotas mundanas
Ó, Brasília, não me punas
Com tamanha vingança urbana!

Prometo-te, não volto mais
A outro lugar, nunca me mudo
Não brigues comigo, Candanga
Sou tua, tu és minha; é tudo!

Faz um sol cinza, dá sorriso breve
Te amo no minhocão e seus cartazes
Brasilinha? Um abraço de tesourinha
E vamos fazer as pazes

biblioteca

Não sou mais que uma bibliotecária
Trato com os arquivos empoeirados
Eu e minha lista precária
De dados

Catálogo frio de grandes obras
Apenas títulos, apenas sobras
Apenas restos que autores entregam
Para que os achemos nas estantes

Memória morta, aprendi a me precaver
De toda a beleza, de todo o amor, de todo ódio, e minha apatia
Me permite cumprir com eficiência
As demandas duras da arquivologia

Quando, no entanto, uma página insiste
Em ser lida, e até um capítulo todo
Quando, então, uma lágrima torta
Se recusa a concordar que eu esteja morta

Abrem-se todos os livros
Levantam-se todas as poeiras
Dobram-se estantes

e minhas páginas
Tornam aos troncos que foram
Que tornam às àrvores
Que por sua vez votam a ser sementes
Que numa noite escura lançaram
E que continuam crispando
Na minha fogueira

E então minha biblioteca
Vira abismo
E meu leitor
Vira beira

6 de dezembro de 2012

molhados

Ele vem e pronto prende
pára peito parede esmaga
ventre coice coito escuro
Ele me cava come estraga

Ele escorrega mela esfrega
dobra puxa encaixa cai
Ele gargalha cotovelo pelo
boca urro e ai

Ele desliga o chuveiro
sério sôfrego cenho unha
Ele me entalha suor toalha
Ele me esculpe e me rascunha

Ele sossega venta fecha
seu corpo treme surra e mói
Ele se nega flor sucumbe
Ele ama me derrama e dói

Oscar

Aqui tudo é estrangeiro
Da melhor qualidade:
Dono que se sabe hóspede
É que mora de verdade

Estranhamos todo o resto
Os nascidos destas curvas
Cada um dos rostos aqui é céu
Olho candango não se perturba

As formas que nos fizeram
Incomodar noventa graus
Se expandem por entre as vidas
Do nosso sereno caos

E somos todos marcados
Pelas assíndotas recortadas
Rumamos olhos ao infinito
No sinal verde de entrequadra

Doce Lúcio, doce utopia
De cobaia de cidade!
Doces palácios transversais
Insubordinados à gravidade

E fino Oscar, que ao partir
Como ninguém, deixa impresso
O traço que desafia o peso
E a teimosia do concreto:

traço que literalmente
Carregamos entre as luas
E que impede que as fechemos
Enquanto Oscar descansa as suas