14 de agosto de 2013

como faço

Quando vou te ver, te olhar, não sei. Quem sabe? A dúvida é também o que me apega. A possibilidade, sempre ainda viva, sempre ainda aqui, de que a gente nunca mais se veja. E a contrapartida: a de que nos vejamos ainda esse mês.


A imensidão do futuro me acossa, eu me encolho. Minha vida vasta, talvez, tantos anos à frente, talvez, e sua participação incerta. Sua presença numa esquina involuntária apenas, um aceno simples, alguma surpresa, de um lado. De outro, sua participação todos os dias, na paternidade dos filhos eventuais, nos acordos tácitos do casamento, na redistribuição mais íntima de todos os meus investimentos.


Não saber de você. Não ter notícias suas. Ser possível que elas sejam as melhores, ser possível que haja uma nova mulher, ser possível que você esteja sofrendo, na nossa distância, mais que eu. A infinitude de versões da sua vida me esmaga. É como se eu tivesse sido jogada em qualquer ponto do universo com uma parafernália de astronauta que não me permite morrer logo. Um ponto sem gravidade a partir de onde eu veja, se procurar um pouco, e sem realce, a Terra. E pense, no desespero mais privado, em como faço pra voltar.

5 de junho de 2013

tríade essencial

Enquanto a Terra conta vantagem
das garantias longevas da órbita
meus pés estão presos
aos azulejos da cozinha

Até mesmo os destroços cósmicos
têm nome científico

Se eu explodir
aqui, na solidão universal do pensamento
Teus fragmentos centrípetos
ficam sem história
Aguardemos quatro milhões de anos
até uma vida inteligente
Nomear o que vivemos

23 de maio de 2013

som algum

Calada da noite
Grita dentro da mente do poeta
Uma criança de cuja boca
Não sai som algum

No burburinho do dia ele
molha o rosto, parte os cabelos
Lembra-se do sonho
Quer dizer 'ai' mas a voz ainda dorme e ele é permissivo com o sono da língua
Não se sabe se por sensibilidade ou mau humor

Decide escrever (era mau humor)
Lembra da bocarra
Da criança
Do silêncio
Vai pro analista e
acredita agora ter entendido o que o silêncio gritava

Paga caro pela palavra que ele repete no elevador
'mãe'
'pai'
Sabe-se lá,
cada um que segure na boca sem som sua própria palavra

Assistamos a imagem do preciso momento em que o júbilo interpretativo assassina o poema:

eles não vivem

Toda dramaticidade é um pouco inoportuna
Que a deste poema seja perdoada

licença:
Por um feliz arranjo de acidentes
a vida orquestrou em silêncio
que hoje eu me sentasse à janela oeste
de um avião
às cinco da tarde

Voava de Minas

Além das belezas de sempre, incólumes de repetição, que testemunhamos
às janelas avaras de aviões

Assisti ao sol se pondo
sobre Brasília
Desde uma perspectiva acima do horizonte
Eu voltava pra casa
O céu mudava de cor, embaixo de mim

O sol foi redondo até se esparramar em cores sobre a linha côncava que supomos ser a pele da Terra
Ele acaba à revelia do que acontece na superfície do mundo,
independente das luzes, das horas
Autônomo, meio lírico
Me fez lembrar alguns poetas que conheço

Eles não vivem (suponho)
Derramam-se

10 de maio de 2013

gratidão


Santa, Santinha, fostes irreparável em me prometer: a vida vai ensiná-lo. Ela foi duramente pedagógica com ele, deu-lhe dissabor no negócio, pôs-lhe doenças, em si e na família. Ele foi traído pela mulher, trocado, traído e trocado também pelos próprios filhos – um horror! –, não recebeu herança, que o pai quebrou antes. Herdou foi dívida, calvície, problema cardíaco, a baixa estatura física e moral. Perdeu o pouco restante onde, Santa? No jogo. Pras cartas. Vendeu a casa, as vestes, o relógio do avô, a alma, dizem que até o corpo acabou vendendo quando o vício se apossou de seu último sopro de dignidade, de cuja existência eu nunca soube. Conheceu muita desgraça, não digo todas, porque não teve filha mulher pra fazerem com ela o que ele fez com a minha. De resto, toda santa miséria pediu abrigo dentro de sua casa, entre seus lençois, entre suas lembranças e até em sua morte a miséria se aninhou, levando-o pelos inúmeros braços quentes do botijão que explodiu bem em sua cara.

Eu não tinha nada que me queixar de vós, Santinha, vós fizestes como se faz ao melhor filho. Vós me destes a graça da vingança, vingança legítima, Santinha, porque Deus esteve ao meu lado, Santa, cada vez que esse homem amargou. Deus e vós, as duas únicas fontes de bênçãos que o mundo há de conhecer, Santa, vós me destes toda glória, toda glória. Eu agradeci a cada nova chamuscada na vida dele. Eu rezei, Santa. Eu agradeço ainda agora.

A vida lhe ensinou, por certo. Mas, não sei. De tombo em tombo ele se erguia como um corvo. Cada vez mais cansado, é verdade, mas sempre voltava, sempre largava o mal e partia pro próximo. Desculpai, Santinha, mas ainda invejo o boçal. Apesar de tudo, parece que o homem partiu leve. E eu fico, Santa; perdoai, mas eu fico pesado. Será, Santinha? Por Deus, um homem mau não pode levantar tantas vezes. Será que ela me mentiu?

Se mentia, Santa, vós sois a melhor de todas as santas, pois me concedestes a vingança de qualquer maneira, com ou sem merecimento, apenas para que minha fé fosse louvada. Os fatos lá importam face à fé, Santíssima? Debaixo da terra agora desfolha a carne queimada. Minha filha é bela. E por vós eu sigo. Amém.

24 de abril de 2013

interpretose

- Admita, ele foi babaca.
- Será? Não é pra tanto.
- Foi um babaca mau caráter.
- Que exagero!
- Te seduziu, te conquistou, te comeu e te deixou pelo prazer mórbido de deixar.
- Eis a pior versão da história.
- É a mais provável. Conheço esse tipo de homem.
- Ah, você pensa assim porque odeia seu pai.
- E você diz isso porque idolatra o seu.

17 de abril de 2013

arribamento de saia

Diz que o amor invade tudo
Feito água pela fresta
No botequim do Zé
É a tal mulher imodesta
E na casa da gente
Aquela visita indigesta

Diz que do nada ele dá
Que nasce feito fruta
Acidente inescrutável
Destino, karma e luta
Tipo relâmpago na árvore
Brusquidão absoluta

Diz que amor caipira
É de todos o mais real
Diz que dispensa tudo
É simpleza sem igual
É arribamento de saia
Até a morte natural

Diz que amor jovem
É o mais incompetente
A vida tem de parar
Pra paixão adolescente
Em três meses ele finda
E deixa a moça doente

Diz que amor velho
É pacato e agoureiro
Ninguém ama, ninguém xinga
Vivem um feliz atoleiro
Cada um apenas torce
Pro outro morrer primeiro

Diz que amor entre mulher
É coisa bem complicada
Muita história com amiga
E calcinha pendurada
Diz que beija e no outro dia
As menina já tão casada

Diz que amor entre homem
É prático e nada avaro
Que dão muito e comem bem
E dizem sempre que amaram
Que é mais difícil ter neném
Mas tão lutando contra Bolsonaro

Diz que amor homem-mulher
É de todos o mais pior
Por lei pode e até deve
Mas na prática é o ó
Diz que filho é que segura
Mas depois que dorme é melhor

Diz que amor divorciado
É faca de dois gumes
É guerra fria, ninguém admite
Até que uma gravidez assume
Aí vem a escalada final:
Foda de despedida é o cume

Tem também amor arranjado
Até hoje diz que tem
Acontece entre os milionários
E desabrigados do Xerém
É o amor das circunstâncias
Que é ruim com e pior sem

Do amor não sei contar
Só sei do que dele se diz
Não sei se sobrevive a tudo
Ou se vive por um triz
Minha ignorância te suplica:
Vem me educar nesse infeliz

perdulário

Gostava de esgotar todas as possibilidades de palavra, falar até compreender o impossível. Esgotar: tornar esgoto, fazer tudo escorrer, espremer a vida como uma toalha molhada até secá-la de todo mistério. Ser preciso por exaustão. Envolver todos os acontecimentos de sentido. Fazer outra exibição da vida com os comentários do diretor. Explicar a si mesmo como quem o faz a uma criança. Não poupar qualquer suspiro.

Ela não perguntava nada.

Ele se contorcia entre as frases, esgueirava-se pelos labirintos de silêncio, encontrava saídas nas interpretações menos cabíveis. Alimentava suas versões paranoicas com a generosidade assídua da memória. Ambicionava uma razão para cada gesto. Riscava com giz o assoalho onde jazia o corpo indiscernível do fim. Estabelecia os contornos das suas intenções, das dela, dos seus erros, dos dela, como se cada uma dessas manchas fosse um continente absoluto a derivar na superfície do amor.

Ela ia embora.

Ele reivindicava respostas. Supunha que uma delas, qualquer delas, mesmo a pior delas o sacaria do imenso desamparo. O infinito do silêncio era pior que a pequenez das alternativas. Outro homem? Uma palavra mal dita? O tédio dos dias? O trabalho doméstico? A falta de sentido dos projetos de longo prazo? A mediocridade eventual das crianças? Uma depressão, talvez? A monotonia do sexo? A decadência hormonal? Aquele aborto? O cigarro? A falta de luxo do apartamento? A amiga tendenciosa? O álbum de fotografias de Noronha que não revelei? O pó acumulado nas prateleiras mais altas do armário do sótão?

Os anos apenas se passaram.

Ela não voltou.

12 de abril de 2013

Next.

Venta sobre duas moças perfeitas. Elas estão na capota de uma caminhonete. Vestem jeans. São muito brancas. Fazem curtas estátuas. Os flashes disparam. Flashes brancos. Uma apoia-se sobre os joelhos. A outra olha o infinito dentro da sala branca. Semicerra os olhos. Um homem grita palavras aleatórias. Awesome. Turn around. Show me your neck. Há outras trinta delas tagarelando nos arredores. Todas têm o porte das éguas. Todas caminham como os insetos. Todas são jovens. Algumas gargalham. Outras estão sentadas. Maquiagem. Boca entreaberta. Olhos frenéticos contra o pincel nos cílios. Um minutinho pro rapé do maquiador. Esconde o rapé. É pó de arroz. Next.

Duas moças perfeitas na penumbra. De camisola. Luz indireta. Cabelos alvoroçados. Um recamier. Almofadas de veludo. Uma toca o pequenino seio da outra com o ombro. Esta olha pra frente. A boca reluz um bordô molhado. O homem sussurra palavras aleatórias. Together. More lips. Again. Outro homem se aproxima com a câmera na mão. Fotografa um pé sobre o tapete felpudo. Se afasta sorrindo. O homem das palavras aleatórias diz. Bring me Claire. Desliza uma moça perfeita pela sala branca. Cabelo chanel. Negro. Pele muito branca. Corpete negro. Claire se esgueira entre as duas moças perfeitas. Muitos flashes. Elas improvisam. Sorriem. Tocam no cabelo de Claire. Next.

Duas moças perfeitas. Moças venezuelanas. Elas acolhem o roçar de uma serpente mansa. A serpente dança sobre os ombros de uma. A outra lhe sorri. Elas são morenas. Seminuas. Seus cabelos são crespos. Elas são gêmeas. Elas chegaram juntas. Elas não falam inglês. Elas simbolizam o estrangeiro. E o são. Estão ganhando em dólar. O homem das palavras aleatórias faz caras para que elas imitem. Sussurra palavras por automatismo. Depois se dá conta de que fala sozinho. Elas são tão belas. Ele quer aprumar o queixo de uma delas. Mas há a serpente. Ele não vai. Aquelas fotos são reais. Não é mais foto, é a selva. A sala branca. Não é mais arte, é a vida. Ele olha em volta. Descobre o tema da nova coleção. Ele vai dar lugar ao exótico. Dar voz ao selvagem. Viva a globalização. Ele bate palma duas vezes e grita para as outras trinta. I stand for Africa.

10 de abril de 2013

toda ferrugem


Tudo o que fiz pra você (não que tenha sido muito), cai, calado, sobre as coisas que eu já tinha. A lingerie nova ainda na embalagem. As frutas e queijos na geladeira querendo apodrecer. Os lençois brancos, ainda – ainda – firmemente esticados sobre a cama. Ninguém vai dormir lá. Ninguém vai comer.

O calendário está atrasado: passaram-se anos.

O relógio, por sua vez, vai muito mais depressa que o tempo. No espaço de um segundo cabe toda a escavação. Minúcia, culpa, arqueologia, gruas. Em cada segundo se forma uma enorme rocha sedimentar dentro do meu apartamento. Sobra pouco espaço para a correria dos meus bichos de estimação.

Certa vez você disse que, comigo, teus dias de treva haviam acabado. Até te perguntei, leviana: treva, meu amor? E você repetiu: treva.

Eu não conhecia a treva.

Sobre a escada que prefiro não subir, dormem mendigos imaginários. Leprosos, magros. Pela manhã parece que eles somem, se desmaterializando através das paredes.

À noite, na insônia, uma minhoca minúscula, de infinitas patas, percorre todo o perímetro da minha imaginação. Estou diante de um Aleph seletivo que condensa apenas o mal: vejo os dutos do que resta de petróleo sobre a Terra, aquela aranha no centro da negra pirâmide que Borges também viu – ela permanece lá -, vejo os pés de um veterano de guerra que acaba de se enforcar, vejo a inveja no olhar de uma mãe, a miséria de um alce perdido na savana, toda ferrugem, vejo o quarto escuro onde uma criança dorme de cansaço depois de muito gritar, vejo as chaves da porta deste quarto correndo com a água suja do esgoto, vejo uma bicheira no dorso de uma mulher pobre, as entranhas de uma ave que comeu uma lata de alumínio lançada ao mar, um navio gigantesco no fundo dele, vejo a cegueira, e ela me vê.

Na mesa há uma flor amarela que uma amiga trouxe. Morta. A faxina que te esperava começa a dar sinais de cansaço e acolhe a dócil poeira dos dias. Aquele sabonete de leite de cabra caiu no chão e escorreu com a água de um dos poucos, longos banhos que tomei. Tem um resquício dele no rejunte do ralo.

Teu silêncio é impressionante, meu amor. Rege tudo. Tudo cala... menos os bichos. A alegria deles tem a mesma obstinação.

7 de abril de 2013

vício retórico IX

Prólogo. 

Querido Zé Carlos, 

desculpe-me a demora. Acho que fiquei demasiadamente inibida frente à comunicação do teu conhecimento da minha traição. Todo o tempo transcorrido desde então e a irrelevância emocional deste envolvimento não conseguem invalidar o caráter de flagra que me invade ao ler, e reler, e cada vez novamente a tua última correspondência.

Eu não devo mais te escrever. Estas clarezas súbitas que me acometem nem sempre culminam em coerência, mas desta vez é sinceramente o que você pode esperar de mim. 

Não devo mais te escrever, Zé, porque você deu teu jeito, saiu da minha vida por necessidade, que é, ao contrário do que quase sempre parece, consequência do desejo. Respeito muito isto. Flagrada, então, te respeito. Talvez sempre soubera que você sabia. Mas eu precisava que você me dissesse que foi por ódio a mim, e não por amor à Renata, que você decidiu ter a vida que tem. Talvez eu precisasse que você se desprezasse menos para que eu pudesse te entender. Quero dizer, para te aceitar.

Eu fico cada vez mais entediada com o discurso corrente entre minhas amigas, colegas, primas, de que quando um homem deixa uma mulher é porque ele não deu conta dela. Zé, atualmente, você já deve ter notado, se é que não foi você quem me mostrou, atualmente todas as mulheres se acham a melhor mulher do mundo. Acho até que existe uma sensibilidade quanto ao momento histórico que atravessa a política dos direitos fem... Aaaai, enfim. Todas somos bonitas, sexualmente disponíveis, algumas somos sensuais, bem-sucedidas, financeiramente independentes. É uma lista de atributos que gozamos ao perceber aqui, do lado feminino da equação. Não sei se por narcisismo, se por preguiça, aliás, uma coisa nunca está disjunta da outra - não sei exatamente por quê, as mulheres gostam de dar essa resposta única ao adeus de seus homens: ele era pouco pra mim.

Por muito tempo essa ideia me consolou. 

Não é isso, né,? E antes que você pense que estou me penitenciando, o que seria novamente uma maneira narcísica - ainda que invertida - de enfrentar a questão, tampouco acho que você era muito. Na verdade já não acho que essas medidas sirvam para nos comparar, nos apoiar, principalmente nos justificar.

De tudo que ainda se poderia dizer, se fosse o caso, se estivéssemos um na presença do outro, e se fôssemos mais imaturos, e se tivéssemos alguma esperança no nosso amor, e se você quisesse, mas no presente do indicativo, escolho apenas esta consideração, já agradecida dela concisão que tua masculinidade acaba contaminando em meu texto, se a deixo entrar. Sinto muito por nunca ter aceitado teu sobrenome. Este foi um erro verdadeiro, do qual (adeus, concisão) deveria ter me desculpado na primeira carta. Talvez esta humildade pudesse ter evitado todas as correspondências seguintes. Mas minha humildade você conhece bem: está sempre atrasada. Eu pensava que meu sobrenome de solteira caía melhor na assinatura dos textos. Babaquice - os mais importantes textos assino apenas como Sonia: são estes, para você.

Escrevo, finalmente, porque as palavras são uma exigência. São elas que determinam todo fim, todo começo. Ninguém existe sem um nome, Zé. Ninguém se casa antes do amém. Ninguém se joga de um prédio sem um bilhete - os que assim fazem parece não ter morrido. Um corpo só é dado como morto quando alguém o encontra, mesmo aos pedaços, e repousa sobre ele - ou sobre seus pedaços - o lençol das palavras: é ele. É ela. Sim, este é meu filho. É preciso comunicar à morte sua própria presença, o que se faz na enunciação da hora exata do óbito. Antes disso ela permanece esperando, apoiada em seu cajado e sua paciência, o decreto irrevogável das palavras.

Nosso fim tem muitas explicações, muitas traições, muitas verdades. Mas apenas uma palavra. Agora me parece pertinente que nunca tenhamos dividido seu nome. Talvez nossa precária família pudesse ter tido entre todos apenas este sobrenome, um que não se herda, mas se constata. Que não se transmite, mas se cria. Que não é nem meu, nem seu. Desilusão, Zé Carlos. Desilusão.

Sonia

1 de abril de 2013

duas frases


Enquanto você apoiava o peso do seu corpo sobre sua mão esquerda que por sua vez se apoiava sobre o canto esquerdo do colchão, me envolvendo com o braço direito e me puxando para o centro da cama de forma a evitar que eu continuasse roçando as costas na parte áspera desde a qual o lençol de elástico já havia se retraído, você sorriu como um ator que é flagrado por seu colega de cena ao improvisar após esquecer o texto, de forma a deixar relativamente evidente para o público mais atento que ali acaba de acontecer algo inesperado, algo que no entanto não se configura como um erro, uma vez que a espontaneidade do ator diante de uma tal confusão é, como disse alguém, onde verdadeiramente começa a interpretação. E nessa sua naturalidade de performer grosseiro, sem ensaio e pouco romantismo, isto é, nesse seu romantismo grosso, nessa sua rude maneira de pegar no pau como quem oferece um doce a uma criança, sim, é mesmo essa a imagem adequada, essa sua inocência capaz de sintonizar com qualquer mulher, imagino, me deixe imaginar, eu preciso me defender da sua sedução com uma expectativa de dor, deixe eu pensar que sou mais uma, não me ofereça a saborosa crueldade do engano, desse seu profissionalismo tosco, essa sua doce barbaridade, não, acho que agora exagerei, sua impaciência progressiva até a penetração e essa certa negligência, cuja evolução pela noite culmina num cuidado selvagem, e portanto honesto, e portanto fiável, e portanto perigosíssimo, essa sua coisa que também posso chamar de entrega, essa sua insegurança tênue que ora se apresenta como esperança de um amor enfim, ora como um comportamento sofisticado de um Don Juan maduro e despido de canastrices, esse seu sexo sem preparos, esse seu gosto quase confesso pelo sujo, pelo asqueroso, pelo real, pelo sabor amanhecido, pelas manchas de sangue, pelos pelos, por tudo que pode vir a simbolizar, na sua complexa teia de signos do amor, o mais distante das considerações abstratas sobre a beleza e sobre a adequação, essa sua rebeldia franzida no cenho, esse seu corpo revoltado, toda essa sua ideologia concentrada debaixo das unhas dos pés, esse medo todo com o qual você se oferece, medo que no entanto você está sempre disposto a capar, esse medo que então capado você joga diante de mim para que eu aprecie como sangra, portanto, essa coragem toda com a qual você se oferece, essa sua brutalidade calculada, de quem, apesar de todo apreço pelo fortuito, lembra-se vez ou outra estar diante de um ser-humano, seu leve machismo, seu zelo de homem que não pretende morrer logo, seu gozo farto, sua delicada masculinidade, os pequenos segredos que você não percebe que confessa, os que você percebe e faz questão de confessar, seu evidente susto face a um corpo de um sexo diferente do seu, o modo sempre inédito pelo qual você se assusta com isso, seu mistério sobre as outras mulheres, mas sua disposição em responder às perguntas, sua insistência em construir diante dos olhos uma mulher única que calha de ser eu, enquanto estou diante deles, pelo menos, sua língua incondicional, sua atenção detida aos frêmitos, a proximidade do seu rosto aos meus poros mais escuros, os adjetivos estranhos que saem da sua boca, e me adornam, e me transformam, e me humilham, e me endeusam, e me saúdam, e me comparam, e me estendem, e me conjugam, e me consertam, seus pedidos de que eu lhe peça as coisas que você quer que eu queria de você, seu pedido de que eu os repita várias vezes, preferencialmente seguindo o ritmo frenético dos nossos quadris, seu jeito, sua voz que entra como qualquer outro membro pelos meus furos, seu corpo horizontal, nessa sua vontade de se levantar e se limpar brigando com a vontade de me esperar querer levantar, na sua gentileza destreinada, na sua abertura ao novo que eclode do encontro dos corpos, das mentes, dos discursos, nisso tudo e no seu sorriso sem-jeito ao arrumar um corpo de mulher enquanto ele é conduzido, jogado, penetrado, usado, manipulado sobre uma cama de casal, nisso tudo se revela o furo vertiginoso, o mais profundo, mais obsceno e mais delicado buraco de uma mulher.

8 de março de 2013

8 de março

Quando você fecundou aquele ovo com alguns de seus excrementos (lembro bem que também urinou), iniciou-se a gestação desta fábula macabra. Tudo cinza, como um punhado de carvão usado dentro de mim. Como ao carvão, às vezes à vida é preciso dizer que não arda mais. Nem sempre o carvão sabe que já é cinzas, e fica ali, filete de fogo precário, a insistir num último direito de combustão.

Foi estranho no início não poder dizer de maneira acurada onde estava o tal ovo. Olhava pra minha barriga de maneira desconfiada, interrogando pra onde eu deveria apontar ao me referir ao que você tinha feito. Precisava de um mapa que me levasse ao infortúnio. Nem sua cara eu conhecia, já que você me ameaçou que se eu abrisse os olhos...

então sequer poderia plasmar na minha imaginação onde estaria sua parte debaixo da pele. Eu imaginava um feto cinza, pulsando como uma única veia inchada, um feto de um réptil qualquer, com a futura cara de um homem qualquer, a cara de nenhum.

Não cheguei a me sentir suja. Ou menor. Nada disso. Suja não, me sentia antiga. Ultrapassada.  Sentia que toda a idade tinha passado pela minha pele enquanto em contato contigo. Sentia apenas que o pior, este Deus que nos brinda com a sua presença homeopática ao longo da vida, para que aprendamos devagar seus desígnios e leis, apenas senti que o pior já me havia acontecido todo. Eu estava grávida de um homem a quem sequer posso dedicar meu ódio, pois não o conheço. Eu era uma cova, uma cova ambulante – como se fossem feitos de pele humana, pele humana viva, pele minha, cada um dos túmulos do cemitério.

Chamar àquilo de filho seria uma contradição. Chamar aquilo de gravidez seria um equívoco. Chamar o evento anterior de estupro seria um eufemismo, que no entanto tinha sua utilidade para os fins da lei. Chamar você de suspeito, uma espécie de cumplicidade.

Sei que quando estiver de novo em sua presença vou saber que é você. Seu filho também. Ele precisou nascer, mas seus genes parecem ter entendido minha rejeição, talvez tenham sido os únicos que a acolheram de fato: não se parece nada comigo.

Eu o amo, hoje. Mas não é nada. Tenho palavra.

Toda noite, às sete, logo antes do culto, seu filho e eu vamos àquele beco. Quem sabe alguma vez te encontramos no mesmo espremido por trás do lixo. Ele anseia menos que eu, mas também quer. Não queremos nos separar, talvez nunca tenhamos querido, desde que ele era um corpo estranho.

Mas já o ensinei. Quando você aparecer, e eu saberei pelo cheiro; ele, por amor, quando você aparecer ele vai embora contigo. Vem buscar o que é seu, de novo. Foi minha promessa ao juiz. E ao menos sobre essa decisão ele não terá nada a dizer.

2 de março de 2013

poeta privado

Poeta privado, me escreve errado
Pro narcicismo parco
Se agradar

Poeta malandro, me chega de bando
Só pro medo de santo
Se aplacar

Poeta restrito, me chega aflito
Só pro meu umbigo
Se contrair

Poeta gostoso, me chega famoso
Só pro meu esposo
Se decidir

Poeta de armário, me entrega seus vários
Poemas de otário
Só se quiser

Poeta, amante, me mas me beija antes
Depois e durante
Se der. Se der

little secret

You could have told me
hate was what you had for me,
as you handed me that little basket of yours
full of fruits
an old fashioned seduction
and exagerated stories on how well your life goes
with her
without her

(Have you become rich? Have you become poor?)

whatever
the details are gone
with those heavy apples that took
the worst of winds
to be thrown out of your little basket


If I had known
Hate was what you offered
I would not have opened my schedule
Nor my brand new
cousine little secrets
Nor the small revenges I want to take on people
Nor my minor health problems
Nor my bet on my new little love

I see now -
You wanted me, but spread and fearless as an old friend
You wanted to see my beauty from a close distance
You wanted my trust
So you could show me your anger
Afterwards
And only then
Your hate would make sense

Because before then, boy
It would be just more hate over hate
Indistinct hate doesn't do,

right?
You needed love
To make it shine
Just like that witch from the fairy stories
Could have never poisoned that girl
If it were not for her kindness

Good move,
I will give you that one
But let me tell you this little secret
Your disguised hate has taught me:
I have not swallowed a bite

escamas pares


Me cobre de veneno
Me cobre de preguiça
Me enfia já tua presa
nessa areia movediça -
meu corpo, cobra rija,
Me sufoca, tua roliça!

Me cobre de torpor
teu bote vagabundo
Teu cheiro de lagoa
Teu corpo todo imundo
Teu pouco, teu bocado
Teu muito, teu profundo

Tu me cobre de sangue
de couro verde, de vício
de mármore nos olhos
de medo do hospício
de fim e de inchaço
e de dor, meu estrupício...

Tu me cobre de lado
Tu me escala rente
Tu me cobre pelado
Tu me esmaga e prende
Tu me cobre gelado
Tu me cobra carente

Tu, cobra; eu, cobre
Te envolvo de colares
do teu corpo onduloso
adorno escamas pares
As ímpares eu arranco
e as lanço pelos ares

Eu cobro tua cobra
envolta na minha carne
Cobro que me solte
Cobro que desarme
Me cobre de cobranças
até que toca o alarme

É dia, cascavel 
meu cadáver inicia
a putrefação primeira
bendita, doce e fria 
vem pegar na minha morte
o que ainda se arrepia   

comadres

hoje tava lá com a comadre
tarde de quitutes, barrigas
nomes de menina e de menino
lições sobre ecografia
e parto natural

pus a mesa pra ela
arrumei a cama pra ela
dei sonho pra ela
li um poema pra ela

(manoel de barros)

e lembrei de você
lembrei não, que 
lembrar exige esquecer
pensei mais forte

24 de fevereiro de 2013

- Sim.


- Seu maior rancor é correlato ao amor que não passa.
- Não, acho que é por causa das brigas, da agressividade dela.
- Seu tom geral de ressentimento não se dirije a tudo que deu errado, mas à dor por não possuir mais tudo que deu certo.
- É, alguma perda tem sim.
- Confesse, pelo menos entre nós. Seu ódio é sua admiração.
- Ela vai longe.
- Pois é.
- Mas tão longe, tão longe, que não vou conseguir mais enxergar.
- Melhor assim. Não?
- É um atestado de fracasso. Quando acompanhamos com a vista um pássaro até entender que já não o acompanhamos mais, e que estamos mirando um ponto qualquer no fundo azul como que enganando a nós mesmos de que ainda o possuímos contra os olhos.
- Sim.
- Penso que neste momento o que acontece é que o pássaro interrompe seu vôo. Morre. Vira nada. Ele não prossegue até um ponto onde não mais conseguimos ver. Ele simplesmente desaparece.
- É o que acontece, na realidade.
- Mas não se pode odiá-lo por isso?

vício retórico VIII

Prólogo. 

Sonia, 

preciso assumir, do contrário estaria insistindo numa canalhice a esta altura consciente, que precisei lhe deixar em função do meu ódio. Não este ódio quiçá divertido, às vezes cretino, mas sempre civilizado que dirijo a você. Talvez pelo medo de perder completamente o acesso à sua vida de que surpreendentemente ainda gozo, meço minhas palavras. Mesmo quando não as meço, como fiz na última correspondência, há uma intuição de que aquele determinado ódio você conseguirá conter, elaborar, revidar e esquecer, se necessário. 

Admiro as pessoas que calculam menos suas dosagens de agressividade. Não chego a enaltecer o extremo oposto de mim, que é você, nisso que às vezes se mostra como perda completa de controle. Mas admiro quando você esculpe essa tendência sádica numa honestidade que está disposta a pagar seu preço. 

A ponderação à agressividade que dedico à sua pessoa me faltou entre meus familiares, meus amigos, e até com a Renata. Destilei tanto ódio por você, Sonia, quando soube da sua traição (quantos nomes!), e manifestei tanta tristeza entre meus pares, que selei com eles um acordo tácito. Consistia em lhe deixar.
Talvez seja excessivamente casual essa maneira de lhe contar que soube da sua história com o tal Felipe. Ou melhor, que sei de algo disso. Um segredo que você me revelou com a mesma generosidade inconsciente com que me mostrou os defeitos do seu corpo. Sem tirar nem pôr, Soninha, você sabe tanto amar quanto desprezar. Sabe se entregar tanto quanto se recusar. Soube me comunicar sua paixão por ele tanto quanto sua paixão por mim. Não sei exatamente o que vocês viveram. Sei que o que aconteceu mudou sua vida – palavras suas; mudou a maneira como passamos a trepar – precisei concluir isto apenas retroativamente; e mudou minha auto-imagem. Assumir o conhecimento do chifre seria contrair com você esta dívida: a da coerência com pressa. Eu não queria lhe deixar. Não queria. Precisei arranjar um bom motivo pra isso, outro que não o fracasso de homem.

Meses depois apareceu a Renata. 

Ao ler minhas palavras, hoje, imagino que você nem sente o calafrio do flagrante. Você soube que eu sabia. Mas o silêncio é o guarda-costas da ignorância... e serviu bem a nós dois. Serviu para que você não arruinasse seu casamento depois de um affair cuja concretude valeu principalmente como laboratório de imaturidade emocional. Serviu pra mim ao ganhar tempo, recuperar a aposta na minha masculinidade e encontrar alguém que funcionasse como razão pública da vingança. 
Meus amigos, meus familiares, eu mesmo, mas especialmente minha irmã – todos esperávamos de mim que lhe cobrasse cada choro de desespero. Cada cápsula de ansiolítico. Cada noite em claro ao telefone. Não tenho parente cuja madrugada saia de graça.
Mas esta lembrança dos seus dedos queimados me toca, Soninha. Sua capacidade de amor, que eu sempre procuro esquecer, e sua irreverência, e sua passionalidade, sua auto-penitência, seu rigor, sua coragem, sua entrega. Nada destoa nessa orquestra de sedução. O que, é impressionante isso, me ajuda a começar a lhe perdoar por ter se entregado a outro homem enquanto ainda éramos casados. Este cara, estes caras, se for o caso. Enfim! Somos/fomos todos agraciados.

José

22 de fevereiro de 2013

Não me obedeça

Tola, não acredite em mim 
Vou te trair 
Vou te humilhar 
Pior 
Vou me casar contigo 

Não me obedeça 
Escute: 
Não me obedeça 
Sequer esta advertência 
Não a cumpra 
Não me obedeça 

As crianças não vão ser tão belas 
Quanto você supõe 
Não vão ter a sorte 
Da loteria cromossômica 

Nada vai ser tão interessante 
Quanto parece hoje: 
Os cômodos da casa 
Não terão identidade entre si 
Conviveremos mais com seus primos 
Que com os amigos artistas 

Vamos tomar o rumo imperativo 
das conveniências 
do conforto 
da santa hipocrisia da felicidade 
E você será feliz, sim 

Tola, não venha comigo 
Ou sua vida vai diminuir 
E aumentar 
Como o fazem as raras 
Raríssimas 
Vidas comuns

7 de fevereiro de 2013

vício retórico VII

 Prólogo.

Zé Carlos, à merda?

Lembra daquela noite na concha acústica em que você me beijava dentro do carro do seu pai, todo entregue, jovem, sôfrego, aflito, ainda namorávamos, lembra? E você me beijava e me puxava pra si, e tinha o freio de mão, e a gente todo estabanado, e você me fez aquela pergunta. Se meu corpo era todo seu. Eu disse que sim. Você me beijou mais. Me segurou. Aí você perguntou se você era o único que podia me tocar. Eu respondi que não, lembra? E toda a sua sofreguidão, sua pressa, seu tesão, tudo se esvaiu quase que instantaneamente, primeiro do seu olhar, depois do seu rosto, depois dos seus braços. Não houve tempo pra mais nada. Tentei explicar que era uma brincadeira, mas você achou de um mau gosto total, concordei, fomos embora.

Lembra no dia seguinte? Eu te liguei pra te ver, você não quis me ver, estava me achando um mau gosto puro, como deve estar achando agora. Mas aí fui até você, no seu estágio, lembra? Te esperei no pátio do hospital, você nem havia me deixado perguntar por você na recepção. Marcou uma hora, eu estava lá, você demorou uns vinte minutos.

Eu te mostrei as pontas dos meus dedos direitos, três deles envoltos em band-aid. Lembra? Você perguntou o que era aquilo. Comecei a abrir um deles, era o dedo do meio, você olhava a cena com um pouco de desprezo e de curiosidade. Você já era o Zé Carlos.

Lembra? Eu havia queimado as pontas dos meus dedos cuidadosamente com uma vela. Eu te disse: agora sim, você é a única pessoa que pode me tocar.

Antes de me mandar de novo à merda, Zé Carlos, lembre-se de que a delicadeza foi por muito tempo nosso terceiro na cama. Tua amante e meu amor platônico. Foi ela que testemunhou nosso amor, nossa ira, toda a poesia das correspondências de quando você viajava. Foi a delicadeza que cumpria o papel da Renata. Então, por favor, sem pieguismo. Mude o tom e me escreva novamente.

Sonia

ilha de edição

Na ilha de edição
Tudo é muito delicado
Os cortes amenos
Os fades da trilha
Fade in
Fade out
Fade in
Fade out


Tudo é doce
Ninguém especula nada
Todo mundo respeita
Como, imagino, numa sala de cirurgia
Aqui
Todo mundo respeita
O que eu faço, o que sinto
Observam apenas
De vez em quando me ajudam


Tudo silencia
Ao mesmo tempo em que tudo pode
À mão estão todas as músicas do mundo
Trinta e duas horas de vídeo
Todas as referências que o amor me deu


Tudo é pequeno
Brando
Exceto seu rosto em close
No meio do escuro
Tua voz enorme
No meio do silêncio
E o teu olhar pra câmera
Teu olhar deliberado
Agora eterno


E minha pergunta: