6 de janeiro de 2013

Adora


A Dona foi num samba no Plano
E pra seu ledo engano
Lá dava muito preto

Prostituta que ela reconhecesse
Tinha nenhuma nesse
E se tinha, não viu

Era rico se agarrando com pobre
Novo e velho de porre
E fazendo dueto

Por essa mistureba feliz
Que o samba de raiz
Calha bem ao Brasil

A Dona se espantou na entrada
"Dez reais não são nada,
isso é preço de gueto."

É que Dona só mora na Asa
“Tô a um pulo de casa!”
Ela concluiu

Tinha chopp gelado e uísque
“Mas se Dona arrisque
a bulir os graveto,

Nego paga trocentos barris.
No samba de raiz
Dona habita o Brasil!”

Eis que Dona duvidava do gesto
Do neguinho modesto
E cheio de amuleto

Mas tudo indica que na fila da prece
O passarinho conhece
O cu que adquiriu

E ele paga o camarão e o Campari
Pra Dona da Ferrari
Que bole o esqueleto

O do mês vai ficar por um triz:
A secreta raiz
Do que move o Brasil 

O samba tá gastando o surdo
O olhar já tá turvo
"Não vomito, prometo!”

Dona deu palavra pro neguinho
Que com seu carinho
Apenas consentiu

Enquanto ela vai pro banheiro
Seu pé já brejeiro
Desliza no panfleto

Que caçoa da Weslian Roriz
No samba de raiz
Tá escrito o Brasil!

A Dona se estribucha no chão
Outro bebum negão
Já bagunça o coreto

“O neguinho pode deixar
É pro Paranoá
Que ela vai!”, se exibiu

Outro ainda vem a socorro
Retira seu gorro
E recita um soneto

Pra desabada imperatriz
Que hoje beija a raiz
Do solo do Brasil

Semana seguinte de novo
A elite e o povo -
Todo mundo jeito

Claro que a Dona do chão
Não se conteve, não,
E reincidiu

Nessa terça foi outro mulato
A pagar o seu trato
E aquecer seu leito

E é por essa e outras civis
Que o samba de raiz
Faz tão bem ao Brasil

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