7 de janeiro de 2013

discrição


Morava há vinte e seis anos – oito dos quais, sozinha – no segundo andar de um sobrado bastante amplo, arejado, com corredores de bom fluxo e pé direito generoso. Cada aposento da edificação setentista reservava pelo menos um vaso de flores de diferentes espécies e aromas. A residência era muito distinta; possuía a modesta elegância dos que vivem na fronteira entre o conforto e a moderação. A casa era muito limpa, as prateleiras muito organizadas, principalmente as do toilette. Quanto ao lar, a este não caberiam descrições tão elogiosas. A qualidade de um lar se define por fatores tão abstratos que todas as variáveis constitutivas de uma boa casa podem não conseguir rematá-los. Inclusive porque a filigrana que torna um lugar um lar não respeita os limites da residência, mas costuma vazar para o espaço público e levar em consideração toda uma aura imprecisa que aumenta e diminui de tamanho de acordo com os costumes e aspecto dos habitantes da casa. Esta já fora um lar, não mais.


A viúva vivia sozinha ali, não tivera filhos, e se deicava a assistir à gentalha da varanda. A ordem e o asseio da casa contrastavam com uma vizinhança que exalava a vida mansa dos que não se levantam para as tarefas domésticas. No andar de baixo funcionava um boteco sujo onde todos – até os funcionários - pareciam estar gozando permanentemente do ócio. Falavam alto, às vezes gargalhavam, e pareciam preferir fazê-lo de madrugada. Como esta senhora jamais fora afeita à vida malandra ou a seu principal apanágio, o álcool e seus efeitos no corpo e no espírito, não tinha como extrair a explicação óbvia para o aumento gradativo do barulho ao longo da noite. Segundo sua idiossincrasia, os assíduos frequentadores do bar (há anos praticamente os mesmos) aumentavam o volume de suas vozes, sua música e suas eventuais brigas de rua por serem mesmo espíritos de porco cujo divertimento era impedir o resto do bairro de dormir.



Mas o barulho não era o principal incômodo. O fato asqueroso era que aquele bar, por infeliz coincidência, tornara-se ao longo dos anos uma sede tradicional de sodomitas. Sodomitas. Este era o mais baixo termo que a senhora se permitia gritar à janela.



Melhor dizendo: se permitira. A última vez que ela havia gritado foi numa noite de final do campeonato brasileiro no fim dos anos 90. Dado o duradouro convívio apesar da nula convivência, esta senhora descobrira que sodomitas gostam de futebol e gritam, esperneiam, choram quase como os homens em fim de campeonato. Já fazia quinze anos que ela não gritava, porque da última vez as consequências foram desastrosas: alguém lhe arremeçou, numa serenata às avessas, títulos que não convém repetir. Um deles se afirmou como seu verdadeiro nome pelo bairro, a ponto de hoje as crianças chamarem-na por ele com a naturalidade dos bem-intencionados.



Dada a crescente libertinagem a que estes seres se entregavam, ano após ano, em suas explicitações de vergonhas; e dado principalmente à estupefante licença que a opinião pública concedia a isto, esta senhora foi se recolhendo em sua casa. Foi fincando-se mais e mais ao limpo encontro das tábuas de madeira do assoalho, e aos cantos impecáveis dos fundos das gavetas. Passou a pedir com mais frequência que o rapaz da venda viesse lhe trazer as compras. Os poucos vizinhos, e cada vez mais ralos, com quem travava algum diálogo, foram obedecendo a uma advertência tácita e compartilhada por visitá-la. A discrição, seu mais forte traço, se acentuou até alterar-se em isolamento. Atualmente, o máximo que ela se aproximava da vida era desde sua varanda. Para se ter uma ideia, no ano passado ela saiu de casa apenas uma vez: no aniversário de morte de sua falecida companheira. Mas foi da casa para o cemitério sem dar confiança a ninguém, e nem satisfações sobre as rosas vermelhas na ausência das quais tornou silenciosa ao sobrado.

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