11 de dezembro de 2012

biblioteca

Não sou mais que uma bibliotecária
Trato com os arquivos empoeirados
Eu e minha lista precária
De dados

Catálogo frio de grandes obras
Apenas títulos, apenas sobras
Apenas restos que autores entregam
Para que os achemos nas estantes

Memória morta, aprendi a me precaver
De toda a beleza, de todo o amor, de todo ódio, e minha apatia
Me permite cumprir com eficiência
As demandas duras da arquivologia

Quando, no entanto, uma página insiste
Em ser lida, e até um capítulo todo
Quando, então, uma lágrima torta
Se recusa a concordar que eu esteja morta

Abrem-se todos os livros
Levantam-se todas as poeiras
Dobram-se estantes

e minhas páginas
Tornam aos troncos que foram
Que tornam às àrvores
Que por sua vez votam a ser sementes
Que numa noite escura lançaram
E que continuam crispando
Na minha fogueira

E então minha biblioteca
Vira abismo
E meu leitor
Vira beira

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