6 de janeiro de 2013

desconfiado

Ele sempre amanhecera acordado: chats, pornografia, video-game. No começo era surpreendido pela manhã, que se anunciava sorrateira sobre as cores das coisas. Depois foi conhecendo as horas da noite com a familiaridade das diurnas. Bastava olhar para o céu que se situava com peculiar precisão a respeito de quanto tempo lhe sobrava entre o seu instante e aquele onde a mágica arrefeceria e a vigília não se devesse a uma escolha, mas à necessidade. Neste momento, que nunca falhava, sempre sentia que desperdiçara muitas oportunidades de sono. Ao longo da noite se lembrava repetidas vezes de que experimentaria tal sensação pela manhã. Mas, com a teimosia implacável dos procrastinadores, conseguia convencer a si mesmo de que aquela era uma noite especial entre as outras, e merecia vivê-la privilegiando a apreensão consciente das horas ao torpor que não as reconhece.

Mas uma noite mostrou-se inédita. Enquanto seus primeiros minutos passavam, notava-se um ambiente de outra densidade se impondo a tudo. Ele ficou um pouco desconfiado. Justo o tempo, que nos habitua a sua obsessiva constância, à exceção de quando transcorre em dias de angústia ou luto, quando prefere se arrastar – justo o tempo, sem angústia ou luto para justificá-lo, resolvera sair da rotina. Nosso personagem não está entendendo nada que se passa consigo nesta noite rápida. Olha em volta mais uma vez e se agita. Suas retinas vão perscrutar o canto de seus olhos; primeiro o esquerdo, direção que o pescoço também segue, e quase os ombros vão atrás neste exército de pedaços atentos do corpo, mas a consciência vigente os interrompe, julgando aquilo meio paranoico. A mesma consciência permite no entanto que o pescoço gire para a direita, uma vez que este movimento, de pescoço apenas, não chega a conferir à cena qualquer elemento disparador de dúvida quanto à sanidade deste notívago num espectador imaginário. Na contramão deste cálculo, tais movimentos se repetem por horas, até perderem noção de si.

Mas a noite continua estranha. Negra, é verdade. Negra como deveria, ele vai à janela verificar. Os barulhos da noite correspondem ao que se espera da hora que ele supõe ser. Bem como o volume do tráfego nas ruas. A respiração de tudo quase se pode ouvir – a noite deve estar na metade. Mas está me enganando.

A decisão por não olhar o relógio lhe acomete, e é definitiva. Se forem horas absurdas, impertinentes à intuição treinada dos anos, ele não suportará a dúvida que então vai se impor: estou louco ou esta noite é diferente das demais? Ambas opções soam implausíveis.

Talvez toda a confusão se deva a um investimento excessivo em epistemologia kantiana. Sim, deve ser isso: algumas prioridades tomaram o lugar da pornografia e do video-game. É natural que o tempo venha a me tratar diferente, e com ele a noite, que não é mais que uma de suas fenomênicas expressões.

Ele volta à janela. A noite ainda é escura. Antes das cores das coisas mudarem dentro do apartamento, é ele quem flagra o ensaio do dia na casca esquerda do horizonte. Aquela camada irrisória de azul apaga todas as suas considerações sobre o tempo para fazer sua atenção derivar para um fato; virou homem. O próprio passar do tempo acaba de se transformar.

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