2 de janeiro de 2013

diafragma


O silêncio pesava sobre cada um dos objetos do apartamento, e tanto que um deles caiu: a tampa duma panela deixada sem zelo sobre o resto do almoço. Depois do barulho espatifado, mais silêncio, que esperava por alguém interrompê-lo. Enquanto isso, se contorcia, se agoniava, prendendo a própria respiração. Cabe imaginar se não seria silenciosa a respiração do silêncio, mas ele não queria pagar pra ver. Bastava a tampa da panela.

E então uma palavra se ensaiou. Foi da boca dela, que se entreabriu e o ar entrou numa corrente leve que raspou nos dentes. Ali ele se deteve por um momento, até que foi solto sem palavra.

Diga, disse ele, que é uma maneira de não dizer nada.

Mais por amor que resignação, ela respondeu, eu estive pensando.

Ele sentiu alívio ao observar que ela havia começado a dizer, que ela resolvera começar a dizer, que ela resolvera ser a pessoa a começar a dizer. Ele tinha dificuldade em avaliar por si mesmo se estava certo a cada vez. Por isso se fiava na ponderação de que quem pede desculpas primeiro é que as deve. Ali acabara de descobrir ser, além de inocente, franco merecedor de uma boa explicação.

Ela tinha uma maneira secreta de ponderar nestes momentos de silêncio. Achava que o amor repousava nestas pequeniníssimas concessões, nesta coleção de minúsculas generosidades que alguém oferece a alguém. E assim ela se esforçava em domar sua ganância pelo brilho que emana de quem tem razão.

Eu estive pensando, exagerei contigo. Me desculpa.

Desde que começara a frase, ele havia esperado mais dela. Então a olhou nos olhos com reivindicação, cuidando para que seu semblante não denotasse o alívio que ela proporcionara ao abrir a porta da palavra. Queria se parecer a um homem que antes e depois da fala dela tivesse exatamente as mesmas ideias sobre si mesmo. Dedicado a estes cálculos, ele ficou em silêncio, os olhos esvaziaram e se perderam dos dela, e quando notou a digressão, fingiu que era uma digressão atinente ao tal pedido de desculpas. Este merecia mesmo uma análise detida. Uma vez que concluiu este poderoso aspecto, ainda demorou um pouco mais em silêncio – desta vez era intencional - o que conferiu a tudo uma carga de mistério.

E então foi sua a boca que se entreabriu, foram seus os dentes que rasparam no ar que entrou, e foram seus os músculos abdominais que se preparam para a soltura das seguintes palavras: não sei. Não sei.

Ela se arrepiou. Pareceu-lhe então muito grave o efeito que causara nele, e o amor esforçado que usara para motivar a humildade agora era pouco frente a tudo que precisaria fazer para recuperar o bem estar entre os dois. E se sentia confusa, porque, por outro lado, não estava dramatizando a frustração que causara seu exagero, que por sua vez causara o primeiro silêncio. Ela quis se apressar, ser romântica, mas algo em si de que precisava para se entregar já não funcionava tão bem como no início da conversa.

Quanto a ele, manteve o olhar solene, assim ganhava tempo para uma negociação interna entre cada detalhe que sua memória era capaz de recolher sobre todos os conflitos que tivera com ela e os planos valorosos de futuro que se estendiam diante da necessidade de reconciliação. Ele precisava ser estratégico aqui; esta era sua forma de administrar o romance, e não se pode dizer que não fosse de todo amorosa. Era assim que ele cuidava de tudo na vida, e o restante ia bem.

O silêncio, de seu lado, se preparava para nova batalha contra os próprios pulmões.

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