20 de dezembro de 2012

método

Saiu de cena como se fosse mero coadjuvante. Curvou-se para a plateia à esquerda, depois à direita. Não se enlevava com a euforia do público. Não era arrogância ou frieza decorrente do costume. Apenas não se enlevava. O público, estas centenas de gentes, bem como sua admiração explícita no derradeiro minuto de espetáculo, eram peças do jogo de sua profissão. Como o é o abraço que recebe o médico ao salvar uma vida. Não faz sentido o abraço: é seu ofício.

Encaminhou-se para a segunda coxia, recebeu com afeto os cumprimentos dos colegas - mais por delicadeza e algum talento para a paciência do que por vaidade. Enfim, pelos colegas mais que por si. Entrou em seu camarim, ajustou o pé da arara dos figurinos, que estava torta. Sentou-se diante do espelho, e não se emocionou, não se orgulhou. Notou que uma das lâmpadas da barra lateral do espelho tinha uma frequência intermitente, e a desatarrachou, por precaução.

O método, quando um homem o tem, não filtra ofício, disposição ou apetite. Se o tem, o tem; e este homem o tinha. Poderia ter sido a bolsa de valores. Poderia ter sido medicina, por pouco não foi. Poderia ter sido uma família. Apenas calhara de ser o balé.

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