25 de outubro de 2012

rejunte

Ele deslizou a porta de vidro
E pisou no tapete já molhado
Dos pingos que, ao contrário do cheiro
Orientaram-se obedientemente
Na direção certa
Seu cheiro, no entanto
Subiu à revelia das regras
E apegou-se às coisas que encontrou
O vitrô fica assim embaçado
Não de vapor, mas de cheiro
Os azulejos aveludados
Não de vapor, mas de cheiro
E o rejunte especialmente
Desde sempre esquecido
Quase inútil
Foi onde o cheiro dele enfim
Ao contrário das expectativas
Resolveu se assentar
Na porosidade convidativa do gesso

Aqui o rapaz já se envolvera
Numa toalha velha
Mas ainda felpuda e vermelha
Corpo limpo
É mais magro e pálido
Perde pele, pêlos, até ossos
E tudo o mais que, reunido 

No canto mais teimoso
Chamamos: poeira

Uma menina, suja da vida
Desliza para dentro do box
Sem a cautela comum
dos que tomam banho primeiro
Abre o registro com os olhos fechados
Resignada com a certeza
De que contra a força com que a água
vai cair sobre sua cabeça
Nunca é demais se precaver

Seu banho não é tão lânguido
Quanto imaginamos na adolescência
Tampouco é grosseiro
Pois esta moça, em particular
Não usa buchas naturais.
Resumo da ópera: ela sai
Puxa uma toalha laranja
Seca as pernas e o rosto, basicamente
E estende a toalha ao lado da dele
Deixa o banheiro com as costas molhadas
E alcança uma calcinha seca
Que repousava sob o sol
Econômico que o vitrô permite entrar
Único visitante do casal
Além de um eventual pernilongo
Mas este não é convidado

Ao subir aos limites do teto
E depois derreter com o vapor
Dos projetos de nuvem que
Viriam a ser nuvem
Não fosse o teto
O cheiro dela aconchega-se
No rejunte, junto ao dele
Emaranhados se inscrevem
No banheiro para sempre
(Até pros futuros inquilinos
Que dali a dez anos
Vão escolher a casa porque
Gostaram de uma energia, sabe)

Ao contrário do casal
Que se deita esparramado
Um de cada lado, ele seco
Ela, molhada e sutilmente
Peidando

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