26 de janeiro de 2013

réptil


Escrever para comunicar as paisagens que minha alma sobrevoa, pra tentar expressar aquelas em que mergulha. Sou descendente de pássaros que sabiam nadar. Escrever pedindo colo à espécie humana, minha verdadeira mãe. Escrever para honrar minhas asas atrofiadas. Pra secar o excesso de vida que vai na alma, que me encharcou quando voei entre as nuvens. Escrever pra aterrissar no planalto dos outros. Escrever pra colher o que a vida plantou em mim. Pra amputar membros que não uso mais. Pra mergulhar onde se respira. Pra continuar. Escrever pra fazer barco na terra úmida. Pra apontar o bico pra fora do ninho, não pra respirar – isso independe – mas pra conter a respiração no segundo em que já não é instintivamente possível. Escrever pra poder escolher de qual réptil vim. Escrever pra cavar a vala de onde vou nascer.

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