17 de dezembro de 2012

teu museu

Quanto mais há pensamento, e em proporção a sua vastidão, mais cresce a distância entre duas pessoas. Um pensante, ao se deparar com esta coisa estranha que se autoentitula pessoa, em geral se perde em considerações racionalistas, resultado mais ou menos certo da tentativa de compreender o fenômeno do encontro. 

Quanto mais se pensa, mais se desencontra: mais se desloca do espáço etéreo onde se passou o encontro, um lugar virgem da interpretação, ainda poupado das palavras e dos malabarismos da consciência. Este lugar, onde duas pessoas efetivamente se encontram, onde elas não são mais que corpos encostados e disparadores mútuos das mais diversas sensações, é o oposto do pensamento. Este só vem, e com ele sua necessidade, logo depois que os corpos desencostaram. O pensamento aí quer produzir de novo o encontro, mas não consegue - porque sua precária reconstrução imagética não chega à beira da perfeição sensorial do encontro. O pensamento é uma alucinação fracassada. 

Assim, todo encontro de pessoas pensantes redunda num desencontro proporcional à sua afinidade de pensamento. Filósofos, poetas, artistas são em geral destinadamente solitários. Quanto mais pensam, mais se afastam de cada instante de despedida dérmica - e isto, desde a mãe! Afastam-se aí da dor respectiva da despedida. E então pensam mais, para se despedirem mais da despedida. Um dos efeitos da incongruência absoluta entre o pensamento e o encontro é a amarga frustração em que se lança aquele, uma vez que se percebe a si mesmo em ação. Então, o pensamento leva o solitário pensante a desejar, mesmo que por um instante romântico, antes ter nascido louco e capaz de alucinar. 

E o que me interessa desta digressão em si mesma racionalista é notar a seguinte obviedade: quando o encontro é entre dois pensantes, o processo é disparado de cada lado, gerando um abismo alquímico de solidão super povoado de palavras. Enquanto as peles esperam...

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