14 de janeiro de 2013

vício retórico II

Prólogo. 

Sonia, Sonia. 

Você e suas pontas de faca. Não é preciso ter vivido doze anos contigo para identificar sua ambivalência infantil – o próximo otário vai sacar logo. Mas eu, eu ainda tenho duas correções a lhe fazer, duas ratificações, uma recusa e um elogio. 

Primeira correção: nunca julguei o que você tem de mais vulgar como isso que nem no melhor dos eufemismos concordaria em chamar de autenticidade. Ela perde pra minissaia de lantejoula que você repetiu no último réveillon. 

Segunda correção. Prometo que vou me esforçar para que seja a última que lhe faço, apesar da sua insistência em me oferecer oportunidades pro contrário. Ora, ora, talvez por isso mesmo prometa. À correção: como mulher você foi um tormento. Como ex, está se saindo uma gostosa. Sua vingança é um agente infiltrado do desejo. Sua língua ferina (me refiro ao Português) me cobre de uma baba da qual vou sentir saudade. Sabe? Aquela antiga delicadeza do seu dente contra minha glande. Sua demanda de amor velada por essa frágil camada de raiva me faz me sentir o Super Homem, Sonia. Mas acho que já não sou mais refém das suas palavras. É triste, porém verdadeiro, que nalgum momento impreciso os fatos adquiriram mais poder do que elas. 

Embora não tire sua razão (primeira ratificação): o que mais gostei em você foram as palavras. E, verdade, eu não as perco (segunda). Aliás, não perco uma! Continue escrevendo, a coluna de quarta está cada vez melhor – menos a penúltima, sobre o Chávez. Soninha, pega leve nessa nostalgia comunista, estamos em 2013 e às vezes você soa como quem tá tramando raptar o embaixador dos Estados Unidos. 

Quanto à recusa, não mando seu abraço à Renata. Não que ele seja irônico, pelo contrário. É porque na veia dessa aparente falsidade pulsa uma boa intenção. Qualquer cumplicidade que venha a nascer entre vocês já vai passar necessariamente por mim. Sei que o resto do seu respeito não será suficiente pra te dissuadir de uma amizade com ela. Se eu passo seu recado, serei uma ponte redundante entre vocês, e numa tarde qualquer vou chegar cansado no meu novo lar e você vai estar ali, bebendo do meu Disaronno, sinistramente combinando com meus móveis, vai ter trazido um dos vinis que lhe deixei e que estará rodando na vitrola, provavelmente Caetano; haverá todo um clima de ironia do destino, e você no centro de tudo, de braços abertos, gargalhando com minha mulher, vai me receber com um sorriso vermelho e olhos obscuros, e vai me chamar, falando alto, por seu implacável vício retórico vai me chamar de Sr. Pleonasmo. Todos vamos nos divertir e eu não quero isso.

Eu faltaria com a verdade – a omissão não deixa de ser seu exemplo mais covarde – se não confessasse que, enquanto escrevo, me esforçando em vão pra expressar a segurança dos curados, me acomete a lembrança daquela tarde em Santa Monica... de repente caiu um toró pesado que se uniu à ventania. Eu te envolvi. Você olhou pro céu, e de um jeito todo inédito, vi a insubordinação se esvair do seu semblante. Parecia que no centro do seu ateísmo feroz tinha nascido um temor. Ah, Sonia. Nós, homens, vivemos espremidos entre essas duas assombrações: o passado, o futuro. 

Acabo de notar que tenho outra correção a fazer. A minha escolha não foi entre você e Renata. Se fosse o caso, concordo – teria sido péssima. Renata é uma contingência; te deixar foi uma necessidade.

Com o amor de sempre, com o cansaço resoluto, com o tesão aflito, 
José

P.S.: Ia me esquecendo do elogio, parabéns pelo cigarro.

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