20 de janeiro de 2013

vício retórico III

Prólogo. 

Zé Carlos, 

disse que me despedia do teu vício retórico de uma vez por todas. Mas estas linhas atestam o sucesso estratégico das duas ou três contradições em que você incorreu (com humildade conveniente), visando favorecer as chances para que eu incorresse nesta. Tua lábia está mais afiada que nunca; e meu orgulho, sedentário. Além disso, mais uma vez teu diagnóstico acerta: o vício é meu. Tenho vontade de te escrever. Para barrá-la, a única coisa que vinha servindo era teu silêncio, proveito do qual você finalmente me priva e dor da qual você finalmente me poupa. 

Finalmente. Finalmente. Como sou repetitiva em minhas tentativas de fechar nossas pernas. É como se elas insistissem escancaradas sobre a cama, indolentes, pernas inertes ao final do amor mais exausto do mundo. Veja: de novo vou assinalando nossa exclusividade, nosso ineditismo. Que bobagem! De uns meses para cá, memórias de minhas outras histórias têm retornado, e até onde me lembro cada amor é sem precedentes.

Parabéns pela eficácia em me abrir de novo. Ou melhor, parabéns para nós, que, a despeito do cansaço, ainda permitimos um ao outro ativar antigos botões que o rancor teria todo o direito de já ter enferrujado. Esta abertura é quase tão transparente quanto aquela das primeiras correspondências, exceto porque é maculada por minha inquietude decorrente do contexto dessas citações: Santa Monica, tua glande, Caetano e o nome de uma mulher no diminutivo pelo que não responde a suposta contingência que ora se deita ao teu lado. 

Achei que sofreria mais ao te ver - te vejo em sonho - com ela. Temia aquele instante que já quase aniversariou, em que eu precisei dispor da minha esperança em continuar te respeitando. Tem razão, resta pouco respeito, esse é outro músculo involuntário que tomamos por adestrável. Queria te respeitar o quanto te amo. 

Agora. Mesmo este vago vestígio de deferência – talvez seja mais adequado nomeá-lo assim – bastaria para me impedir de entrar na tua residência sem teu convite. Essa é uma fronteira que a demagogia das tuas instruções sobre discrição me impediria de ultrapassar. Veja, Zé, uma esposa sempre teme mais que uma... que serei eu? que uma simples correspondente. Você não me conhece ainda como simples correspondente, há onze meses não nos falávamos, então te peço com mais convicção que antes que poupe tuas previsões interpretativas para teus pacientes. 

Vou tentar me defender com prudência da provocação sobre a saia. Se eu disser que eu me vestia para você, estarei usufruindo daquela covarde conveniência da qual muitas vezes dispus. Confesso que eu me vitimizava para que você escutasse. Sempre exagerei, esgarcei todos os limites entre nós para que você notasse o mínimo. Espero ter abandonado o hábito, mas preciso te contextualizar sobre a saia: eu a usava para o olhar de outros homens mesmo. Assim, pelo menos por procuração eu capturava o teu. 

Tua calculada displicência com os temas mais relevantes da minha primeira carta não passou despercebida. Ainda quero que ela saiba que eu sei. Ainda quero saber há quanto tempo vocês estão juntos. Ainda quero saber como você vai. Sim, era uma pergunta. 

Sonia

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