22 de janeiro de 2013

vício retórico IV

Prólogo.

Soninha,

convenhamos: você não me perguntava como eu ia, você afirmava, ainda que numa ironia bem pouco elaborada. Não fosse a recorrência do tema “meu automóvel” em nossas madrugadas, ia tomá-la como um uso infeliz da plasticidade da saudação, nada mais. Novamente você não pergunta, e no entanto quer saber. Não posso deixar de observar que, apesar de sedentário, seu orgulho é forte, e mesmo em completo desuso deve levar anos para atrofiar. Mas faço aqui um esforço interpretativo - recurso que vocês, mulheres de psicanalistas, declaradamente gostariam de ativar e desativar neles a seu bel-prazer - e intuo que você não esteja perguntando sobre minha modalidade de locomoção apenas, mas sobre minha vida.

É clara, porém, a sutileza do seu vício retórico: debaixo da linguagem capciosa vem uma intenção de assuntar sobre ambas as questões. O seu amor por mim não conseguiu lhe dissuadir da inclinação ao materialismo que corre em toda a linhagem da sua mãe como um câncer. Digo isso com todo respeito aos membros mais honrados e com sincera consideração aos mais queridos, ela inclusive, enquanto a piedade me acode à lembrança de que nem as crianças foram salvas do mal.

Sim, minha vida vai bem, quanto a isso serei mais detalhista numa ocasião menos inquisidora. E sim, resolvi comprar um carro. Sim, depois do divórcio. Sim, é importado. Sim, zero. Completo; flex. Eu continuo gostando do meio ambiente, Sonia. Mesmo depois de morta você quer assombrar minhas tradições? Quer saber o modelo, Sonia? O preço? A cor? É prata, Sonia, mais fácil de vender.

Você não perguntou como eu ia, mas nem voltaria a isso não fosse a sua insistência ardilosa. Amo suas palavras, admiro seus recursos de linguagem. Mas calma lá. O poeta pode tudo, menos reivindicar inocência. Especialmente se é do seu tipo, que cospe interpretoses. Se você cobrasse por elas ganhava mais dinheiro que eu. Não, não me contradigo para assistir a você se contradizendo. Aliás, taí um aprendizado que eu deveria ter deixado anotado na geladeira como uma prestação de serviço à comunidade masculina que se seguirá a mim: qualquer que seja a finalidade, nada é menos eficiente do que se vulnerabilizar diante de você.

Mais uma correção. (Se estiver incomodada, junta esta coleção à dos dvds que outro dia eu passo aí.) Ao contrário do que, agora percebo, você sempre achou, meu problema com a saia de lantejoula não era o comprimento. Nem os homens te olhando. Mas os homens que te olhavam. Honestamente, espero que você tome esta lisura como um gesto amoroso: você só atraía babacas com aquela saia. Olhares cretinos. Homens que não valeriam uma única trepa. Aquela saia me fazia me sentir menor. É uma das raríssimas variáveis que lhe faz parecer menos inteligente do que é.

A propósito. Você sonha comigo ou este foi o golpe mais baixo que a sua sedução póstuma já me desferiu? Se for a segunda opção, não seja sincera, sob risco de assistir à minha inofensiva raiva de macho rejeitado virar nova consideração sobre a delicadeza dos seus dentes. Ah, se eu soubesse que seu rancor ia dar lugar a esse tipo de coisa tinha atendido seus telefonemas meses.

José
 

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