26 de janeiro de 2013

vício retórico V

Prólogo.

Deixemos minha saia, meus dentes, minha mãe e teu carro novo pro primeiro boteco em que nos encontraremos mais cedo ou mais tarde. Enquanto nas cartas, precisamos menos de alegorias. Venho tentando falar sobre a enzima que abreviou nossa digestão. Começa a me enojar tua esquiva em tocar no nome da Renata disfarçada pelo machismo promíscuo de tuas investidas. Já que sou eu quem vai ter de começar, te convido a usar toda a tua capacidade interpretativa de psicanalista para o que segue.

Zé,

apesar da ilusão que o hábito costuma imprimir às coisas, não se leva nada de uma casa alugada além do que se trouxe pra dentro dela. Pelo contrário, perdemos: devemos trocar maçanetas, pintar paredes, restituir qualquer dano que nossa mera presença causou. Uma casa é como um relacionamento. Só de estar dentro deles se produzem muitos estragos.

Usando a mesma lógica, só que invertida, e o mesmo tom professoral, só que comigo mesma, acabei concluindo que tua ausência era uma dádiva. Explico em etapas.

Quando um homem troca uma mulher por outra, a anterior perde o estatuto ilusório de dona da vida dele. Ao contrário do que o senso comum pode imaginar, no entanto, a mulher seguinte não o adquire. Ele se perde no ar, e o penduramos na conta dos infortúnios. Eis o milagre da tua multiplicação: com uma dona você produziu duas inquilinas.

Para mim a perda parece óbvia, não? Por mais jovem, até bonita, até desejada por ele, a ex adquire uma aura de inquilina velha e solitária, pontual em seus acertos, fiel a seu endereço e vagarosa em seus cuidados com o imóvel. Um dia, na frieza de uma correspondência formal, é apenas lembrada, pois fora advertida desde o início, de que a casa não é sua e de que deve sair. De preferência sem deixar vestígios de sua passagem, e menos ainda de sua sensação de propriedade.

Curiosamente, Zé Carlos, para a nova mulher a sensação é quase a mesma. A única distinção é que a largada é o inquilino despejado, a nova é o atual. Embora uma procuração invisível autorizando a posseira a estar contigo em público tenha passado da minha mão para a dela, ambas nos surpreendemos com tua frágil capacidade de vínculo. Taí uma mancha que contamina todos os teus talentos. Se for tão esperta quanto parece, ela deve inferir uma proporção direta entre quão nova é para você e quão desavisada está a respeito de detalhes difíceis da convivência contigo. Enfim, nada garante à Renata que a estadia dela será tão perene e tão barata quanto as tuas promessas de landlord tentam convencer.

Agora te conto um segredo de mulheres: a anterior não costuma se sentir menor que a nova por ter sido preterida. Somos iguais: o que se deu a uma passará à outra. A única vantagem da atual sobre à anterior é que seu tempo de traída ainda não chegou. O que, ao pensar bem, avalio como benefício meu: a mim o drama já se deu. Sou como o gado recém abatido em vantagem com relação ao próximo que ainda urra na fila do matadouro.

Último aspecto pseudo-filosófico: ao se passarem os anos, a atual vai se glorificando frente à ex. Como que lhe esfregando na cara a sua condição de exceção: comigo ele não vai fazer o que fez contigo. Ainda não fez. Ainda não fez. A nova está sempre com satisfações a dar à antiga. Além, é claro, das satisfações advindas da culpa por ter infringido um código corporativo de gênero e que as frustrações acumuladas do relacionamento vão permitindo surgir. São dois tipos de dívida impagável que a atual contrai com a ex.

Por isso, Zé, hoje estou tranquila. Nos primeiros contatos que você se permite ter comigo, minha rejeição às tuas provocações sexuais já te causa essa agressividade defensiva. Algo me diz que, mesmo em nível fantasístico e portanto masturbatório – te conheço – o contrato de aluguel com a Renata já foi violado. Eu já entrei em tua residência, já estou gargalhando de boca vermelha. Apenas duvido que esteja combinando com os móveis de vocês.

Sonia

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