9 de janeiro de 2013

vício retórico


Zé Carlos,

seja bem-ido da minha vida. Gostaria de dizer “obrigada por tudo”, mas não fui obrigada a nada, então, muito consentida. Por favor, poupe-me do teu orgulhoso “de nada”, ou “imagina”. Primeiro porque não foi de nada, as cicatrizes estão aí pra atestar; depois, chega dos teus imperativos.

Tenho vontade de perguntar como você vai, mas acho que sei. Você vai a pé, seu meio de transporte predileto. É o que lhe resta dessa tentativa tão inócua quanto afetada de contato com a natureza.

Leve a nossa retórica, que funcionou de embalagem nada hermética para este casamento. De mim, o que você mais gostou foram as palavras. Você me amou quase exclusivamente por elas. Nada mais vantajoso – não havia grandes perdas em jogo para você neste divórcio.

Se me permite uma sugestão, não deixe que ela descubra quão íntimos nos tornamos através das palavras. Ela vai se sentir enciumada cada vez que você abra o jornal de quarta, mesmo que não seja na página da minha coluna. Zé Carlos, como mulher eu fui difícil, mas como ex-mulher, mesmo a toda distância, provavelmente serei um tormento. Tenha piedade. Ela chegou muito recentemente à sua vida – até onde sei - e não tem obrigação de compreender, de saída, que as razões do tempo que você leva com o jornal de quarta m mais a ver com teus rituais de prisão de ventre que com teus resquícios de amor por mim.

Quanto a este tom agressivo que você sempre desprezou, pode invejá-lo à vontade. Ambos sabemos o que motivou tua aversão pelo meu jeito desaforado de amor: foi tua incapacidade de sustentar tuas palavras. Apesar de tantas vezes tê-la classificado como o que eu tenho de mais vulgar, minha autenticidade deve ter te ensinado algumas coisas das quais tua atual mulher vai poder desfrutar.

Em tua homenagem, já que sempre fomos dados a estas solenidades, largo o cigarro e minha mania de comprar macarrão sem checar se está faltando, entupindo a despensa de Renata. Aliás, nunca foi mais propício: mande um abraço pra ela! E desculpas por minha participação em tua pior escolha que já testemunhei.

Entre todas as conclusões usuais de uma carta, penso que a seguinte é a que mais se aplica a nós. Isso devido ao teu vício retórico, do que de uma vez por todas me despeço com a ironia na qual teu ódio me educou. 

Cordialmente,
Sonia

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