7 de fevereiro de 2013

imaginem o mar


Imaginem o mar. O mar; façam caber sua vastidão no limite – neste raro caso – estreito da imaginação. Finjam estar diante daquela fatia de horizonte que oprime a retina e que convoca o movimento de torção do pescoço para que se possa acolher mais mar na visão. Imaginem o mar no enquadre da vista, quando ele é o repouso da retina, ela que, como ele, se vê constrangida entre as claridades do céu e da areia. Imaginem o mar que boqueabre. Ou quando o sobrevoamos, quem já o sobrevoou; aquele manto escuro e brilhante sobre o qual o sol vem correndo, sobre o qual a luz se esparrama de maneira áspera, tratando as ondas, para nós imensas, como nanicos acidentes de relevo da Terra. Imaginem o mar no que ele nos emociona, advertindo esta sensação de pequenez em cada pessoa que tenta descrevê-lo, contorná-lo mesmo que seja para si mesma, e que procura, às vezes desesperadamente, entendê-lo. Há poucas coisas que não conseguimos entender entre as coisas olháveis. Costumamos acreditar que todas as coisas discerníveis pela visão, o mais honesto dos sentidos, também podem ser compreendidas pelas faculdades da razão. O olho: porta principal dos salões da inteligência. Mas o mar, que podemos ver, que temos mania caipira de fotografar; o mar, pelo menos durante o dia, podemos vê-lo com distinção do céu, podemos ver a cores boa parte de seu interior – e mesmo assim parece não ser possível atingi-lo com o pensamento. Da maneira que puderem, que conseguirem, imaginem o mar. Ou melhor, imaginem a porção de mar que couber nesta pressa que dá ao se passar da metade de um texto cansativo. O que der, me imaginem o mar. Agora, desfaçam-se da combinação de azuis, verdes, marrons e negros de que se compõe o mar. Se puderem, por gentileza, tirem toda a cor. Tornem o mar absolutamente transparente, como, amanhã de manhã, não haverá um pingo de cor na água translúcida dentro do copo que fora de requeijão. Façam do mar mais transparente que o vidro. E vejam este mar sem cor, esta água totalmente cristalina. Pra mim, pra mim, esta é a imagem do desejo quando se sabe correspondido.

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