3 de fevereiro de 2013

vício retórico VI

Prólogo. 

Sonia, 

já falei da sua tendência à vingança. Saiba que meu medo dela foi o maior responsável pelo adiamento da minha decisão. Conheci Renata naquele simpósio em Paris. Eu a vi na plateia, ela mexia nos cabelos e pouco se importava com a minha fala. Uma culpa irradiante pelo que eu ainda não havia feito me invadiu ao descobrir que ela era brasileira. Posso te contar a história de nosso reencontro em São Paulo, da idade dela, da história do ofurô, das nossas aventuras, mas não é isso que você quer. Você quer ler sua história a partir desta. Faça as contas. Ligue os pontos. Compreenda cada uma das minhas indiferenças subsequentes e as atribua, retroativamente, ao cabelo da Renata. Vai apaziguar sua já preguiçosa responsabilidade, e talvez, por extensão, apazigue também a mim.   

O que faz da Renata uma escolha é justamente ser uma contingência, Sonia. Poderia ser ela. Poderia ser outra. É bom decidir viver com alguém apenas porque esta é uma das possibilidades que, como tal, se encarrega de várias renúncias. É leve. É o que tem pra hoje, com a chance da eternidade. Se ela teme minha infidelidade, é bem possível. E é bom que seja assim, Sonia. Eu também temo pela dela. Não colocamos nossa mão no fogo um pelo outro, apenas vivemos juntos, uma singeleza que eu particularmente desconhecia.  

Se ela se sente em dívida contigo, não sei. Mas sua filosofice – bem colocado – torna imperativa uma observação. Se alguém sai do nosso (deveria ser o que lhe interessa) relacionamento em dívida, certamente não sou eu. Prova disso é a divisão de bens muito mais conivente a seus caprichos do que justa aos meus recursos. Tampouco quero fazer parecer que seria você. Mas sabe-se lá. Muitas vezes as mais valiosas dívidas passam ao largo do conhecimento dos credores. 

Meu tesão por você não quer dizer nada, mulher. Machista ou não, institucionalizada ou não, errada ou não, essa relativa disjunção entre amor e sexo é um traço comum aos homens em geral. Inclua este dado nos seus gender studies.

Agora talvez você se orgulhe de uma das suas notas mais acuradas: minha mulher desfruta mesmo da autenticidade que você me ensinou, bem como de outras competências que adquiri no convívio com sua catequese sexual. Ou deveria chamá-la simplesmente vulgaridade? Não, não a chamarei de vulgaridade por condescendência à sua boa vontade em me ensinar, e principalmente por indisposição em retomar a querela da saia. (Agora que o propósito dela ficou claro, com ele se esclareceu também a eficácia do seu método.) Compreendi que um homem dedicado às letras provavelmente se atrasa no treinamento das irreverências da cama. É sempre preciso, nesses casos, uma mulher como você, destemida porque carente, para nos instruir como transar. Agradeço a generosidade com que você se entregou, até invejo outros homens que venham a tomar suas lições, mas confesso que às vezes me envergonhava por falhar em lhe indicar alguns dos seus exageros performáticos. 

A ironia tem sido um aliado covarde e promíscuo neste combate. Respectivamente, porque fere sem se comprometer, e porque ora está contigo, ora comigo. Mas hoje minha temperança se curva de bom grado. A cordialidade nunca teve o mérito de ser honesta; mas mesmo ela se cansa da sua falsidade, Sonia. Vá à merda. 

José 

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