7 de fevereiro de 2013

vício retórico VII

 Prólogo.

Zé Carlos, à merda?

Lembra daquela noite na concha acústica em que você me beijava dentro do carro do seu pai, todo entregue, jovem, sôfrego, aflito, ainda namorávamos, lembra? E você me beijava e me puxava pra si, e tinha o freio de mão, e a gente todo estabanado, e você me fez aquela pergunta. Se meu corpo era todo seu. Eu disse que sim. Você me beijou mais. Me segurou. Aí você perguntou se você era o único que podia me tocar. Eu respondi que não, lembra? E toda a sua sofreguidão, sua pressa, seu tesão, tudo se esvaiu quase que instantaneamente, primeiro do seu olhar, depois do seu rosto, depois dos seus braços. Não houve tempo pra mais nada. Tentei explicar que era uma brincadeira, mas você achou de um mau gosto total, concordei, fomos embora.

Lembra no dia seguinte? Eu te liguei pra te ver, você não quis me ver, estava me achando um mau gosto puro, como deve estar achando agora. Mas aí fui até você, no seu estágio, lembra? Te esperei no pátio do hospital, você nem havia me deixado perguntar por você na recepção. Marcou uma hora, eu estava lá, você demorou uns vinte minutos.

Eu te mostrei as pontas dos meus dedos direitos, três deles envoltos em band-aid. Lembra? Você perguntou o que era aquilo. Comecei a abrir um deles, era o dedo do meio, você olhava a cena com um pouco de desprezo e de curiosidade. Você já era o Zé Carlos.

Lembra? Eu havia queimado as pontas dos meus dedos cuidadosamente com uma vela. Eu te disse: agora sim, você é a única pessoa que pode me tocar.

Antes de me mandar de novo à merda, Zé Carlos, lembre-se de que a delicadeza foi por muito tempo nosso terceiro na cama. Tua amante e meu amor platônico. Foi ela que testemunhou nosso amor, nossa ira, toda a poesia das correspondências de quando você viajava. Foi a delicadeza que cumpria o papel da Renata. Então, por favor, sem pieguismo. Mude o tom e me escreva novamente.

Sonia

2 comentários:

  1. Estes dois vão acabar numa pegação antológica. E eu estarei aqui pra ler, em tempo real!

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  2. Escreva-me novamente, por favor.


    Eu que serei também teu inquilino para sempre.
    G.F.

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