24 de fevereiro de 2013

vício retórico VIII

Prólogo. 

Sonia, 

preciso assumir, do contrário estaria insistindo numa canalhice a esta altura consciente, que precisei lhe deixar em função do meu ódio. Não este ódio quiçá divertido, às vezes cretino, mas sempre civilizado que dirijo a você. Talvez pelo medo de perder completamente o acesso à sua vida de que surpreendentemente ainda gozo, meço minhas palavras. Mesmo quando não as meço, como fiz na última correspondência, há uma intuição de que aquele determinado ódio você conseguirá conter, elaborar, revidar e esquecer, se necessário. 

Admiro as pessoas que calculam menos suas dosagens de agressividade. Não chego a enaltecer o extremo oposto de mim, que é você, nisso que às vezes se mostra como perda completa de controle. Mas admiro quando você esculpe essa tendência sádica numa honestidade que está disposta a pagar seu preço. 

A ponderação à agressividade que dedico à sua pessoa me faltou entre meus familiares, meus amigos, e até com a Renata. Destilei tanto ódio por você, Sonia, quando soube da sua traição (quantos nomes!), e manifestei tanta tristeza entre meus pares, que selei com eles um acordo tácito. Consistia em lhe deixar.
Talvez seja excessivamente casual essa maneira de lhe contar que soube da sua história com o tal Felipe. Ou melhor, que sei de algo disso. Um segredo que você me revelou com a mesma generosidade inconsciente com que me mostrou os defeitos do seu corpo. Sem tirar nem pôr, Soninha, você sabe tanto amar quanto desprezar. Sabe se entregar tanto quanto se recusar. Soube me comunicar sua paixão por ele tanto quanto sua paixão por mim. Não sei exatamente o que vocês viveram. Sei que o que aconteceu mudou sua vida – palavras suas; mudou a maneira como passamos a trepar – precisei concluir isto apenas retroativamente; e mudou minha auto-imagem. Assumir o conhecimento do chifre seria contrair com você esta dívida: a da coerência com pressa. Eu não queria lhe deixar. Não queria. Precisei arranjar um bom motivo pra isso, outro que não o fracasso de homem.

Meses depois apareceu a Renata. 

Ao ler minhas palavras, hoje, imagino que você nem sente o calafrio do flagrante. Você soube que eu sabia. Mas o silêncio é o guarda-costas da ignorância... e serviu bem a nós dois. Serviu para que você não arruinasse seu casamento depois de um affair cuja concretude valeu principalmente como laboratório de imaturidade emocional. Serviu pra mim ao ganhar tempo, recuperar a aposta na minha masculinidade e encontrar alguém que funcionasse como razão pública da vingança. 
Meus amigos, meus familiares, eu mesmo, mas especialmente minha irmã – todos esperávamos de mim que lhe cobrasse cada choro de desespero. Cada cápsula de ansiolítico. Cada noite em claro ao telefone. Não tenho parente cuja madrugada saia de graça.
Mas esta lembrança dos seus dedos queimados me toca, Soninha. Sua capacidade de amor, que eu sempre procuro esquecer, e sua irreverência, e sua passionalidade, sua auto-penitência, seu rigor, sua coragem, sua entrega. Nada destoa nessa orquestra de sedução. O que, é impressionante isso, me ajuda a começar a lhe perdoar por ter se entregado a outro homem enquanto ainda éramos casados. Este cara, estes caras, se for o caso. Enfim! Somos/fomos todos agraciados.

José

2 comentários:

  1. Ah, esqueci. Detesto não saber o remetente do comentário. Não gostaria de lhe causar esse desconforto.

    G.F

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