8 de março de 2013

8 de março

Quando você fecundou aquele ovo com alguns de seus excrementos (lembro bem que também urinou), iniciou-se a gestação desta fábula macabra. Tudo cinza, como um punhado de carvão usado dentro de mim. Como ao carvão, às vezes à vida é preciso dizer que não arda mais. Nem sempre o carvão sabe que já é cinzas, e fica ali, filete de fogo precário, a insistir num último direito de combustão.

Foi estranho no início não poder dizer de maneira acurada onde estava o tal ovo. Olhava pra minha barriga de maneira desconfiada, interrogando pra onde eu deveria apontar ao me referir ao que você tinha feito. Precisava de um mapa que me levasse ao infortúnio. Nem sua cara eu conhecia, já que você me ameaçou que se eu abrisse os olhos...

então sequer poderia plasmar na minha imaginação onde estaria sua parte debaixo da pele. Eu imaginava um feto cinza, pulsando como uma única veia inchada, um feto de um réptil qualquer, com a futura cara de um homem qualquer, a cara de nenhum.

Não cheguei a me sentir suja. Ou menor. Nada disso. Suja não, me sentia antiga. Ultrapassada.  Sentia que toda a idade tinha passado pela minha pele enquanto em contato contigo. Sentia apenas que o pior, este Deus que nos brinda com a sua presença homeopática ao longo da vida, para que aprendamos devagar seus desígnios e leis, apenas senti que o pior já me havia acontecido todo. Eu estava grávida de um homem a quem sequer posso dedicar meu ódio, pois não o conheço. Eu era uma cova, uma cova ambulante – como se fossem feitos de pele humana, pele humana viva, pele minha, cada um dos túmulos do cemitério.

Chamar àquilo de filho seria uma contradição. Chamar aquilo de gravidez seria um equívoco. Chamar o evento anterior de estupro seria um eufemismo, que no entanto tinha sua utilidade para os fins da lei. Chamar você de suspeito, uma espécie de cumplicidade.

Sei que quando estiver de novo em sua presença vou saber que é você. Seu filho também. Ele precisou nascer, mas seus genes parecem ter entendido minha rejeição, talvez tenham sido os únicos que a acolheram de fato: não se parece nada comigo.

Eu o amo, hoje. Mas não é nada. Tenho palavra.

Toda noite, às sete, logo antes do culto, seu filho e eu vamos àquele beco. Quem sabe alguma vez te encontramos no mesmo espremido por trás do lixo. Ele anseia menos que eu, mas também quer. Não queremos nos separar, talvez nunca tenhamos querido, desde que ele era um corpo estranho.

Mas já o ensinei. Quando você aparecer, e eu saberei pelo cheiro; ele, por amor, quando você aparecer ele vai embora contigo. Vem buscar o que é seu, de novo. Foi minha promessa ao juiz. E ao menos sobre essa decisão ele não terá nada a dizer.

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