2 de março de 2013

escamas pares


Me cobre de veneno
Me cobre de preguiça
Me enfia já tua presa
nessa areia movediça -
meu corpo, cobra rija,
Me sufoca, tua roliça!

Me cobre de torpor
teu bote vagabundo
Teu cheiro de lagoa
Teu corpo todo imundo
Teu pouco, teu bocado
Teu muito, teu profundo

Tu me cobre de sangue
de couro verde, de vício
de mármore nos olhos
de medo do hospício
de fim e de inchaço
e de dor, meu estrupício...

Tu me cobre de lado
Tu me escala rente
Tu me cobre pelado
Tu me esmaga e prende
Tu me cobre gelado
Tu me cobra carente

Tu, cobra; eu, cobre
Te envolvo de colares
do teu corpo onduloso
adorno escamas pares
As ímpares eu arranco
e as lanço pelos ares

Eu cobro tua cobra
envolta na minha carne
Cobro que me solte
Cobro que desarme
Me cobre de cobranças
até que toca o alarme

É dia, cascavel 
meu cadáver inicia
a putrefação primeira
bendita, doce e fria 
vem pegar na minha morte
o que ainda se arrepia   

Um comentário: