1 de abril de 2013

duas frases


Enquanto você apoiava o peso do seu corpo sobre sua mão esquerda que por sua vez se apoiava sobre o canto esquerdo do colchão, me envolvendo com o braço direito e me puxando para o centro da cama de forma a evitar que eu continuasse roçando as costas na parte áspera desde a qual o lençol de elástico já havia se retraído, você sorriu como um ator que é flagrado por seu colega de cena ao improvisar após esquecer o texto, de forma a deixar relativamente evidente para o público mais atento que ali acaba de acontecer algo inesperado, algo que no entanto não se configura como um erro, uma vez que a espontaneidade do ator diante de uma tal confusão é, como disse alguém, onde verdadeiramente começa a interpretação. E nessa sua naturalidade de performer grosseiro, sem ensaio e pouco romantismo, isto é, nesse seu romantismo grosso, nessa sua rude maneira de pegar no pau como quem oferece um doce a uma criança, sim, é mesmo essa a imagem adequada, essa sua inocência capaz de sintonizar com qualquer mulher, imagino, me deixe imaginar, eu preciso me defender da sua sedução com uma expectativa de dor, deixe eu pensar que sou mais uma, não me ofereça a saborosa crueldade do engano, desse seu profissionalismo tosco, essa sua doce barbaridade, não, acho que agora exagerei, sua impaciência progressiva até a penetração e essa certa negligência, cuja evolução pela noite culmina num cuidado selvagem, e portanto honesto, e portanto fiável, e portanto perigosíssimo, essa sua coisa que também posso chamar de entrega, essa sua insegurança tênue que ora se apresenta como esperança de um amor enfim, ora como um comportamento sofisticado de um Don Juan maduro e despido de canastrices, esse seu sexo sem preparos, esse seu gosto quase confesso pelo sujo, pelo asqueroso, pelo real, pelo sabor amanhecido, pelas manchas de sangue, pelos pelos, por tudo que pode vir a simbolizar, na sua complexa teia de signos do amor, o mais distante das considerações abstratas sobre a beleza e sobre a adequação, essa sua rebeldia franzida no cenho, esse seu corpo revoltado, toda essa sua ideologia concentrada debaixo das unhas dos pés, esse medo todo com o qual você se oferece, medo que no entanto você está sempre disposto a capar, esse medo que então capado você joga diante de mim para que eu aprecie como sangra, portanto, essa coragem toda com a qual você se oferece, essa sua brutalidade calculada, de quem, apesar de todo apreço pelo fortuito, lembra-se vez ou outra estar diante de um ser-humano, seu leve machismo, seu zelo de homem que não pretende morrer logo, seu gozo farto, sua delicada masculinidade, os pequenos segredos que você não percebe que confessa, os que você percebe e faz questão de confessar, seu evidente susto face a um corpo de um sexo diferente do seu, o modo sempre inédito pelo qual você se assusta com isso, seu mistério sobre as outras mulheres, mas sua disposição em responder às perguntas, sua insistência em construir diante dos olhos uma mulher única que calha de ser eu, enquanto estou diante deles, pelo menos, sua língua incondicional, sua atenção detida aos frêmitos, a proximidade do seu rosto aos meus poros mais escuros, os adjetivos estranhos que saem da sua boca, e me adornam, e me transformam, e me humilham, e me endeusam, e me saúdam, e me comparam, e me estendem, e me conjugam, e me consertam, seus pedidos de que eu lhe peça as coisas que você quer que eu queria de você, seu pedido de que eu os repita várias vezes, preferencialmente seguindo o ritmo frenético dos nossos quadris, seu jeito, sua voz que entra como qualquer outro membro pelos meus furos, seu corpo horizontal, nessa sua vontade de se levantar e se limpar brigando com a vontade de me esperar querer levantar, na sua gentileza destreinada, na sua abertura ao novo que eclode do encontro dos corpos, das mentes, dos discursos, nisso tudo e no seu sorriso sem-jeito ao arrumar um corpo de mulher enquanto ele é conduzido, jogado, penetrado, usado, manipulado sobre uma cama de casal, nisso tudo se revela o furo vertiginoso, o mais profundo, mais obsceno e mais delicado buraco de uma mulher.

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