12 de abril de 2013

Next.

Venta sobre duas moças perfeitas. Elas estão na capota de uma caminhonete. Vestem jeans. São muito brancas. Fazem curtas estátuas. Os flashes disparam. Flashes brancos. Uma apoia-se sobre os joelhos. A outra olha o infinito dentro da sala branca. Semicerra os olhos. Um homem grita palavras aleatórias. Awesome. Turn around. Show me your neck. Há outras trinta delas tagarelando nos arredores. Todas têm o porte das éguas. Todas caminham como os insetos. Todas são jovens. Algumas gargalham. Outras estão sentadas. Maquiagem. Boca entreaberta. Olhos frenéticos contra o pincel nos cílios. Um minutinho pro rapé do maquiador. Esconde o rapé. É pó de arroz. Next.

Duas moças perfeitas na penumbra. De camisola. Luz indireta. Cabelos alvoroçados. Um recamier. Almofadas de veludo. Uma toca o pequenino seio da outra com o ombro. Esta olha pra frente. A boca reluz um bordô molhado. O homem sussurra palavras aleatórias. Together. More lips. Again. Outro homem se aproxima com a câmera na mão. Fotografa um pé sobre o tapete felpudo. Se afasta sorrindo. O homem das palavras aleatórias diz. Bring me Claire. Desliza uma moça perfeita pela sala branca. Cabelo chanel. Negro. Pele muito branca. Corpete negro. Claire se esgueira entre as duas moças perfeitas. Muitos flashes. Elas improvisam. Sorriem. Tocam no cabelo de Claire. Next.

Duas moças perfeitas. Moças venezuelanas. Elas acolhem o roçar de uma serpente mansa. A serpente dança sobre os ombros de uma. A outra lhe sorri. Elas são morenas. Seminuas. Seus cabelos são crespos. Elas são gêmeas. Elas chegaram juntas. Elas não falam inglês. Elas simbolizam o estrangeiro. E o são. Estão ganhando em dólar. O homem das palavras aleatórias faz caras para que elas imitem. Sussurra palavras por automatismo. Depois se dá conta de que fala sozinho. Elas são tão belas. Ele quer aprumar o queixo de uma delas. Mas há a serpente. Ele não vai. Aquelas fotos são reais. Não é mais foto, é a selva. A sala branca. Não é mais arte, é a vida. Ele olha em volta. Descobre o tema da nova coleção. Ele vai dar lugar ao exótico. Dar voz ao selvagem. Viva a globalização. Ele bate palma duas vezes e grita para as outras trinta. I stand for Africa.

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