17 de abril de 2013

perdulário

Gostava de esgotar todas as possibilidades de palavra, falar até compreender o impossível. Esgotar: tornar esgoto, fazer tudo escorrer, espremer a vida como uma toalha molhada até secá-la de todo mistério. Ser preciso por exaustão. Envolver todos os acontecimentos de sentido. Fazer outra exibição da vida com os comentários do diretor. Explicar a si mesmo como quem o faz a uma criança. Não poupar qualquer suspiro.

Ela não perguntava nada.

Ele se contorcia entre as frases, esgueirava-se pelos labirintos de silêncio, encontrava saídas nas interpretações menos cabíveis. Alimentava suas versões paranoicas com a generosidade assídua da memória. Ambicionava uma razão para cada gesto. Riscava com giz o assoalho onde jazia o corpo indiscernível do fim. Estabelecia os contornos das suas intenções, das dela, dos seus erros, dos dela, como se cada uma dessas manchas fosse um continente absoluto a derivar na superfície do amor.

Ela ia embora.

Ele reivindicava respostas. Supunha que uma delas, qualquer delas, mesmo a pior delas o sacaria do imenso desamparo. O infinito do silêncio era pior que a pequenez das alternativas. Outro homem? Uma palavra mal dita? O tédio dos dias? O trabalho doméstico? A falta de sentido dos projetos de longo prazo? A mediocridade eventual das crianças? Uma depressão, talvez? A monotonia do sexo? A decadência hormonal? Aquele aborto? O cigarro? A falta de luxo do apartamento? A amiga tendenciosa? O álbum de fotografias de Noronha que não revelei? O pó acumulado nas prateleiras mais altas do armário do sótão?

Os anos apenas se passaram.

Ela não voltou.

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