10 de abril de 2013

toda ferrugem


Tudo o que fiz pra você (não que tenha sido muito), cai, calado, sobre as coisas que eu já tinha. A lingerie nova ainda na embalagem. As frutas e queijos na geladeira querendo apodrecer. Os lençois brancos, ainda – ainda – firmemente esticados sobre a cama. Ninguém vai dormir lá. Ninguém vai comer.

O calendário está atrasado: passaram-se anos.

O relógio, por sua vez, vai muito mais depressa que o tempo. No espaço de um segundo cabe toda a escavação. Minúcia, culpa, arqueologia, gruas. Em cada segundo se forma uma enorme rocha sedimentar dentro do meu apartamento. Sobra pouco espaço para a correria dos meus bichos de estimação.

Certa vez você disse que, comigo, teus dias de treva haviam acabado. Até te perguntei, leviana: treva, meu amor? E você repetiu: treva.

Eu não conhecia a treva.

Sobre a escada que prefiro não subir, dormem mendigos imaginários. Leprosos, magros. Pela manhã parece que eles somem, se desmaterializando através das paredes.

À noite, na insônia, uma minhoca minúscula, de infinitas patas, percorre todo o perímetro da minha imaginação. Estou diante de um Aleph seletivo que condensa apenas o mal: vejo os dutos do que resta de petróleo sobre a Terra, aquela aranha no centro da negra pirâmide que Borges também viu – ela permanece lá -, vejo os pés de um veterano de guerra que acaba de se enforcar, vejo a inveja no olhar de uma mãe, a miséria de um alce perdido na savana, toda ferrugem, vejo o quarto escuro onde uma criança dorme de cansaço depois de muito gritar, vejo as chaves da porta deste quarto correndo com a água suja do esgoto, vejo uma bicheira no dorso de uma mulher pobre, as entranhas de uma ave que comeu uma lata de alumínio lançada ao mar, um navio gigantesco no fundo dele, vejo a cegueira, e ela me vê.

Na mesa há uma flor amarela que uma amiga trouxe. Morta. A faxina que te esperava começa a dar sinais de cansaço e acolhe a dócil poeira dos dias. Aquele sabonete de leite de cabra caiu no chão e escorreu com a água de um dos poucos, longos banhos que tomei. Tem um resquício dele no rejunte do ralo.

Teu silêncio é impressionante, meu amor. Rege tudo. Tudo cala... menos os bichos. A alegria deles tem a mesma obstinação.

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