7 de abril de 2013

vício retórico IX

Prólogo. 

Querido Zé Carlos, 

desculpe-me a demora. Acho que fiquei demasiadamente inibida frente à comunicação do teu conhecimento da minha traição. Todo o tempo transcorrido desde então e a irrelevância emocional deste envolvimento não conseguem invalidar o caráter de flagra que me invade ao ler, e reler, e cada vez novamente a tua última correspondência.

Eu não devo mais te escrever. Estas clarezas súbitas que me acometem nem sempre culminam em coerência, mas desta vez é sinceramente o que você pode esperar de mim. 

Não devo mais te escrever, Zé, porque você deu teu jeito, saiu da minha vida por necessidade, que é, ao contrário do que quase sempre parece, consequência do desejo. Respeito muito isto. Flagrada, então, te respeito. Talvez sempre soubera que você sabia. Mas eu precisava que você me dissesse que foi por ódio a mim, e não por amor à Renata, que você decidiu ter a vida que tem. Talvez eu precisasse que você se desprezasse menos para que eu pudesse te entender. Quero dizer, para te aceitar.

Eu fico cada vez mais entediada com o discurso corrente entre minhas amigas, colegas, primas, de que quando um homem deixa uma mulher é porque ele não deu conta dela. Zé, atualmente, você já deve ter notado, se é que não foi você quem me mostrou, atualmente todas as mulheres se acham a melhor mulher do mundo. Acho até que existe uma sensibilidade quanto ao momento histórico que atravessa a política dos direitos fem... Aaaai, enfim. Todas somos bonitas, sexualmente disponíveis, algumas somos sensuais, bem-sucedidas, financeiramente independentes. É uma lista de atributos que gozamos ao perceber aqui, do lado feminino da equação. Não sei se por narcisismo, se por preguiça, aliás, uma coisa nunca está disjunta da outra - não sei exatamente por quê, as mulheres gostam de dar essa resposta única ao adeus de seus homens: ele era pouco pra mim.

Por muito tempo essa ideia me consolou. 

Não é isso, né,? E antes que você pense que estou me penitenciando, o que seria novamente uma maneira narcísica - ainda que invertida - de enfrentar a questão, tampouco acho que você era muito. Na verdade já não acho que essas medidas sirvam para nos comparar, nos apoiar, principalmente nos justificar.

De tudo que ainda se poderia dizer, se fosse o caso, se estivéssemos um na presença do outro, e se fôssemos mais imaturos, e se tivéssemos alguma esperança no nosso amor, e se você quisesse, mas no presente do indicativo, escolho apenas esta consideração, já agradecida dela concisão que tua masculinidade acaba contaminando em meu texto, se a deixo entrar. Sinto muito por nunca ter aceitado teu sobrenome. Este foi um erro verdadeiro, do qual (adeus, concisão) deveria ter me desculpado na primeira carta. Talvez esta humildade pudesse ter evitado todas as correspondências seguintes. Mas minha humildade você conhece bem: está sempre atrasada. Eu pensava que meu sobrenome de solteira caía melhor na assinatura dos textos. Babaquice - os mais importantes textos assino apenas como Sonia: são estes, para você.

Escrevo, finalmente, porque as palavras são uma exigência. São elas que determinam todo fim, todo começo. Ninguém existe sem um nome, Zé. Ninguém se casa antes do amém. Ninguém se joga de um prédio sem um bilhete - os que assim fazem parece não ter morrido. Um corpo só é dado como morto quando alguém o encontra, mesmo aos pedaços, e repousa sobre ele - ou sobre seus pedaços - o lençol das palavras: é ele. É ela. Sim, este é meu filho. É preciso comunicar à morte sua própria presença, o que se faz na enunciação da hora exata do óbito. Antes disso ela permanece esperando, apoiada em seu cajado e sua paciência, o decreto irrevogável das palavras.

Nosso fim tem muitas explicações, muitas traições, muitas verdades. Mas apenas uma palavra. Agora me parece pertinente que nunca tenhamos dividido seu nome. Talvez nossa precária família pudesse ter tido entre todos apenas este sobrenome, um que não se herda, mas se constata. Que não se transmite, mas se cria. Que não é nem meu, nem seu. Desilusão, Zé Carlos. Desilusão.

Sonia

Um comentário:

  1. Encanta-me a clareza narrativa e o caminho trilhado por você. Suas histórias reverberam quase que uma obrigatoriedade orgânica. Como se, a medida que eu fosse lendo, fosse ficando óbvio que eu precisasse apressadamente ir fazendo espaço para os seus sentidos antes que eu leia mais do que possa absorver e as palavras se engarrafem nos meus olhos...
    Carinhosamente,
    Mateus.

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