10 de maio de 2013

gratidão


Santa, Santinha, fostes irreparável em me prometer: a vida vai ensiná-lo. Ela foi duramente pedagógica com ele, deu-lhe dissabor no negócio, pôs-lhe doenças, em si e na família. Ele foi traído pela mulher, trocado, traído e trocado também pelos próprios filhos – um horror! –, não recebeu herança, que o pai quebrou antes. Herdou foi dívida, calvície, problema cardíaco, a baixa estatura física e moral. Perdeu o pouco restante onde, Santa? No jogo. Pras cartas. Vendeu a casa, as vestes, o relógio do avô, a alma, dizem que até o corpo acabou vendendo quando o vício se apossou de seu último sopro de dignidade, de cuja existência eu nunca soube. Conheceu muita desgraça, não digo todas, porque não teve filha mulher pra fazerem com ela o que ele fez com a minha. De resto, toda santa miséria pediu abrigo dentro de sua casa, entre seus lençois, entre suas lembranças e até em sua morte a miséria se aninhou, levando-o pelos inúmeros braços quentes do botijão que explodiu bem em sua cara.

Eu não tinha nada que me queixar de vós, Santinha, vós fizestes como se faz ao melhor filho. Vós me destes a graça da vingança, vingança legítima, Santinha, porque Deus esteve ao meu lado, Santa, cada vez que esse homem amargou. Deus e vós, as duas únicas fontes de bênçãos que o mundo há de conhecer, Santa, vós me destes toda glória, toda glória. Eu agradeci a cada nova chamuscada na vida dele. Eu rezei, Santa. Eu agradeço ainda agora.

A vida lhe ensinou, por certo. Mas, não sei. De tombo em tombo ele se erguia como um corvo. Cada vez mais cansado, é verdade, mas sempre voltava, sempre largava o mal e partia pro próximo. Desculpai, Santinha, mas ainda invejo o boçal. Apesar de tudo, parece que o homem partiu leve. E eu fico, Santa; perdoai, mas eu fico pesado. Será, Santinha? Por Deus, um homem mau não pode levantar tantas vezes. Será que ela me mentiu?

Se mentia, Santa, vós sois a melhor de todas as santas, pois me concedestes a vingança de qualquer maneira, com ou sem merecimento, apenas para que minha fé fosse louvada. Os fatos lá importam face à fé, Santíssima? Debaixo da terra agora desfolha a carne queimada. Minha filha é bela. E por vós eu sigo. Amém.

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