26 de janeiro de 2013

vício retórico V

Prólogo.

Deixemos minha saia, meus dentes, minha mãe e teu carro novo pro primeiro boteco em que nos encontraremos mais cedo ou mais tarde. Enquanto nas cartas, precisamos menos de alegorias. Venho tentando falar sobre a enzima que abreviou nossa digestão. Começa a me enojar tua esquiva em tocar no nome da Renata disfarçada pelo machismo promíscuo de tuas investidas. Já que sou eu quem vai ter de começar, te convido a usar toda a tua capacidade interpretativa de psicanalista para o que segue.

Zé,

apesar da ilusão que o hábito costuma imprimir às coisas, não se leva nada de uma casa alugada além do que se trouxe pra dentro dela. Pelo contrário, perdemos: devemos trocar maçanetas, pintar paredes, restituir qualquer dano que nossa mera presença causou. Uma casa é como um relacionamento. Só de estar dentro deles se produzem muitos estragos.

Usando a mesma lógica, só que invertida, e o mesmo tom professoral, só que comigo mesma, acabei concluindo que tua ausência era uma dádiva. Explico em etapas.

Quando um homem troca uma mulher por outra, a anterior perde o estatuto ilusório de dona da vida dele. Ao contrário do que o senso comum pode imaginar, no entanto, a mulher seguinte não o adquire. Ele se perde no ar, e o penduramos na conta dos infortúnios. Eis o milagre da tua multiplicação: com uma dona você produziu duas inquilinas.

Para mim a perda parece óbvia, não? Por mais jovem, até bonita, até desejada por ele, a ex adquire uma aura de inquilina velha e solitária, pontual em seus acertos, fiel a seu endereço e vagarosa em seus cuidados com o imóvel. Um dia, na frieza de uma correspondência formal, é apenas lembrada, pois fora advertida desde o início, de que a casa não é sua e de que deve sair. De preferência sem deixar vestígios de sua passagem, e menos ainda de sua sensação de propriedade.

Curiosamente, Zé Carlos, para a nova mulher a sensação é quase a mesma. A única distinção é que a largada é o inquilino despejado, a nova é o atual. Embora uma procuração invisível autorizando a posseira a estar contigo em público tenha passado da minha mão para a dela, ambas nos surpreendemos com tua frágil capacidade de vínculo. Taí uma mancha que contamina todos os teus talentos. Se for tão esperta quanto parece, ela deve inferir uma proporção direta entre quão nova é para você e quão desavisada está a respeito de detalhes difíceis da convivência contigo. Enfim, nada garante à Renata que a estadia dela será tão perene e tão barata quanto as tuas promessas de landlord tentam convencer.

Agora te conto um segredo de mulheres: a anterior não costuma se sentir menor que a nova por ter sido preterida. Somos iguais: o que se deu a uma passará à outra. A única vantagem da atual sobre à anterior é que seu tempo de traída ainda não chegou. O que, ao pensar bem, avalio como benefício meu: a mim o drama já se deu. Sou como o gado recém abatido em vantagem com relação ao próximo que ainda urra na fila do matadouro.

Último aspecto pseudo-filosófico: ao se passarem os anos, a atual vai se glorificando frente à ex. Como que lhe esfregando na cara a sua condição de exceção: comigo ele não vai fazer o que fez contigo. Ainda não fez. Ainda não fez. A nova está sempre com satisfações a dar à antiga. Além, é claro, das satisfações advindas da culpa por ter infringido um código corporativo de gênero e que as frustrações acumuladas do relacionamento vão permitindo surgir. São dois tipos de dívida impagável que a atual contrai com a ex.

Por isso, Zé, hoje estou tranquila. Nos primeiros contatos que você se permite ter comigo, minha rejeição às tuas provocações sexuais já te causa essa agressividade defensiva. Algo me diz que, mesmo em nível fantasístico e portanto masturbatório – te conheço – o contrato de aluguel com a Renata já foi violado. Eu já entrei em tua residência, já estou gargalhando de boca vermelha. Apenas duvido que esteja combinando com os móveis de vocês.

Sonia

réptil


Escrever para comunicar as paisagens que minha alma sobrevoa, pra tentar expressar aquelas em que mergulha. Sou descendente de pássaros que sabiam nadar. Escrever pedindo colo à espécie humana, minha verdadeira mãe. Escrever para honrar minhas asas atrofiadas. Pra secar o excesso de vida que vai na alma, que me encharcou quando voei entre as nuvens. Escrever pra aterrissar no planalto dos outros. Escrever pra colher o que a vida plantou em mim. Pra amputar membros que não uso mais. Pra mergulhar onde se respira. Pra continuar. Escrever pra fazer barco na terra úmida. Pra apontar o bico pra fora do ninho, não pra respirar – isso independe – mas pra conter a respiração no segundo em que já não é instintivamente possível. Escrever pra poder escolher de qual réptil vim. Escrever pra cavar a vala de onde vou nascer.

23 de janeiro de 2013

diligência

De todo desprezo, homem, que já ensaiei pra te dar
Este é o no qual me saio melhor:
o desprezo elogioso

Veja o que acha das seguintes ideias.

1. Lembre-se de quanto falei
que te desejava o melhor
2. Lembre-se das fotos que pedi
pra que você tirasse
Eu, sua mãe, seu pai, nosso cão
3. Lembre-se que foi você que tirou cada uma delas e eu não te chamei para participar de nenhuma

Era minha maneira
de tentar te horrorizar

4. Lembre-se que li seus livros
5. Ouvi suas músicas
autorais e 6. recomendadas
7. Lembre-se de que emagreci
aquela porção que você quis e mais outra
Como quem obedece

Foi uma obediência sincera
(sete)
não ao que, nos seus mandos
era da sua vontade
Mas ao que, neles
era seu desejo de que eu não cumprisse

Que eu não emagrecesse
Que eu não amasse sua família
Que eu não amasse você
Você quis um bom motivo pra me detestar
Eu não dei
Esse eu não dei

Antes de te confessar
que toda a minha diligência vem dessa parte
Que gargalha das suas boas intenções de amizade

22 de janeiro de 2013

vício retórico IV

Prólogo.

Soninha,

convenhamos: você não me perguntava como eu ia, você afirmava, ainda que numa ironia bem pouco elaborada. Não fosse a recorrência do tema “meu automóvel” em nossas madrugadas, ia tomá-la como um uso infeliz da plasticidade da saudação, nada mais. Novamente você não pergunta, e no entanto quer saber. Não posso deixar de observar que, apesar de sedentário, seu orgulho é forte, e mesmo em completo desuso deve levar anos para atrofiar. Mas faço aqui um esforço interpretativo - recurso que vocês, mulheres de psicanalistas, declaradamente gostariam de ativar e desativar neles a seu bel-prazer - e intuo que você não esteja perguntando sobre minha modalidade de locomoção apenas, mas sobre minha vida.

É clara, porém, a sutileza do seu vício retórico: debaixo da linguagem capciosa vem uma intenção de assuntar sobre ambas as questões. O seu amor por mim não conseguiu lhe dissuadir da inclinação ao materialismo que corre em toda a linhagem da sua mãe como um câncer. Digo isso com todo respeito aos membros mais honrados e com sincera consideração aos mais queridos, ela inclusive, enquanto a piedade me acode à lembrança de que nem as crianças foram salvas do mal.

Sim, minha vida vai bem, quanto a isso serei mais detalhista numa ocasião menos inquisidora. E sim, resolvi comprar um carro. Sim, depois do divórcio. Sim, é importado. Sim, zero. Completo; flex. Eu continuo gostando do meio ambiente, Sonia. Mesmo depois de morta você quer assombrar minhas tradições? Quer saber o modelo, Sonia? O preço? A cor? É prata, Sonia, mais fácil de vender.

Você não perguntou como eu ia, mas nem voltaria a isso não fosse a sua insistência ardilosa. Amo suas palavras, admiro seus recursos de linguagem. Mas calma lá. O poeta pode tudo, menos reivindicar inocência. Especialmente se é do seu tipo, que cospe interpretoses. Se você cobrasse por elas ganhava mais dinheiro que eu. Não, não me contradigo para assistir a você se contradizendo. Aliás, taí um aprendizado que eu deveria ter deixado anotado na geladeira como uma prestação de serviço à comunidade masculina que se seguirá a mim: qualquer que seja a finalidade, nada é menos eficiente do que se vulnerabilizar diante de você.

Mais uma correção. (Se estiver incomodada, junta esta coleção à dos dvds que outro dia eu passo aí.) Ao contrário do que, agora percebo, você sempre achou, meu problema com a saia de lantejoula não era o comprimento. Nem os homens te olhando. Mas os homens que te olhavam. Honestamente, espero que você tome esta lisura como um gesto amoroso: você só atraía babacas com aquela saia. Olhares cretinos. Homens que não valeriam uma única trepa. Aquela saia me fazia me sentir menor. É uma das raríssimas variáveis que lhe faz parecer menos inteligente do que é.

A propósito. Você sonha comigo ou este foi o golpe mais baixo que a sua sedução póstuma já me desferiu? Se for a segunda opção, não seja sincera, sob risco de assistir à minha inofensiva raiva de macho rejeitado virar nova consideração sobre a delicadeza dos seus dentes. Ah, se eu soubesse que seu rancor ia dar lugar a esse tipo de coisa tinha atendido seus telefonemas meses.

José
 

20 de janeiro de 2013

vício retórico III

Prólogo. 

Zé Carlos, 

disse que me despedia do teu vício retórico de uma vez por todas. Mas estas linhas atestam o sucesso estratégico das duas ou três contradições em que você incorreu (com humildade conveniente), visando favorecer as chances para que eu incorresse nesta. Tua lábia está mais afiada que nunca; e meu orgulho, sedentário. Além disso, mais uma vez teu diagnóstico acerta: o vício é meu. Tenho vontade de te escrever. Para barrá-la, a única coisa que vinha servindo era teu silêncio, proveito do qual você finalmente me priva e dor da qual você finalmente me poupa. 

Finalmente. Finalmente. Como sou repetitiva em minhas tentativas de fechar nossas pernas. É como se elas insistissem escancaradas sobre a cama, indolentes, pernas inertes ao final do amor mais exausto do mundo. Veja: de novo vou assinalando nossa exclusividade, nosso ineditismo. Que bobagem! De uns meses para cá, memórias de minhas outras histórias têm retornado, e até onde me lembro cada amor é sem precedentes.

Parabéns pela eficácia em me abrir de novo. Ou melhor, parabéns para nós, que, a despeito do cansaço, ainda permitimos um ao outro ativar antigos botões que o rancor teria todo o direito de já ter enferrujado. Esta abertura é quase tão transparente quanto aquela das primeiras correspondências, exceto porque é maculada por minha inquietude decorrente do contexto dessas citações: Santa Monica, tua glande, Caetano e o nome de uma mulher no diminutivo pelo que não responde a suposta contingência que ora se deita ao teu lado. 

Achei que sofreria mais ao te ver - te vejo em sonho - com ela. Temia aquele instante que já quase aniversariou, em que eu precisei dispor da minha esperança em continuar te respeitando. Tem razão, resta pouco respeito, esse é outro músculo involuntário que tomamos por adestrável. Queria te respeitar o quanto te amo. 

Agora. Mesmo este vago vestígio de deferência – talvez seja mais adequado nomeá-lo assim – bastaria para me impedir de entrar na tua residência sem teu convite. Essa é uma fronteira que a demagogia das tuas instruções sobre discrição me impediria de ultrapassar. Veja, Zé, uma esposa sempre teme mais que uma... que serei eu? que uma simples correspondente. Você não me conhece ainda como simples correspondente, há onze meses não nos falávamos, então te peço com mais convicção que antes que poupe tuas previsões interpretativas para teus pacientes. 

Vou tentar me defender com prudência da provocação sobre a saia. Se eu disser que eu me vestia para você, estarei usufruindo daquela covarde conveniência da qual muitas vezes dispus. Confesso que eu me vitimizava para que você escutasse. Sempre exagerei, esgarcei todos os limites entre nós para que você notasse o mínimo. Espero ter abandonado o hábito, mas preciso te contextualizar sobre a saia: eu a usava para o olhar de outros homens mesmo. Assim, pelo menos por procuração eu capturava o teu. 

Tua calculada displicência com os temas mais relevantes da minha primeira carta não passou despercebida. Ainda quero que ela saiba que eu sei. Ainda quero saber há quanto tempo vocês estão juntos. Ainda quero saber como você vai. Sim, era uma pergunta. 

Sonia

14 de janeiro de 2013

vício retórico II

Prólogo. 

Sonia, Sonia. 

Você e suas pontas de faca. Não é preciso ter vivido doze anos contigo para identificar sua ambivalência infantil – o próximo otário vai sacar logo. Mas eu, eu ainda tenho duas correções a lhe fazer, duas ratificações, uma recusa e um elogio. 

Primeira correção: nunca julguei o que você tem de mais vulgar como isso que nem no melhor dos eufemismos concordaria em chamar de autenticidade. Ela perde pra minissaia de lantejoula que você repetiu no último réveillon. 

Segunda correção. Prometo que vou me esforçar para que seja a última que lhe faço, apesar da sua insistência em me oferecer oportunidades pro contrário. Ora, ora, talvez por isso mesmo prometa. À correção: como mulher você foi um tormento. Como ex, está se saindo uma gostosa. Sua vingança é um agente infiltrado do desejo. Sua língua ferina (me refiro ao Português) me cobre de uma baba da qual vou sentir saudade. Sabe? Aquela antiga delicadeza do seu dente contra minha glande. Sua demanda de amor velada por essa frágil camada de raiva me faz me sentir o Super Homem, Sonia. Mas acho que já não sou mais refém das suas palavras. É triste, porém verdadeiro, que nalgum momento impreciso os fatos adquiriram mais poder do que elas. 

Embora não tire sua razão (primeira ratificação): o que mais gostei em você foram as palavras. E, verdade, eu não as perco (segunda). Aliás, não perco uma! Continue escrevendo, a coluna de quarta está cada vez melhor – menos a penúltima, sobre o Chávez. Soninha, pega leve nessa nostalgia comunista, estamos em 2013 e às vezes você soa como quem tá tramando raptar o embaixador dos Estados Unidos. 

Quanto à recusa, não mando seu abraço à Renata. Não que ele seja irônico, pelo contrário. É porque na veia dessa aparente falsidade pulsa uma boa intenção. Qualquer cumplicidade que venha a nascer entre vocês já vai passar necessariamente por mim. Sei que o resto do seu respeito não será suficiente pra te dissuadir de uma amizade com ela. Se eu passo seu recado, serei uma ponte redundante entre vocês, e numa tarde qualquer vou chegar cansado no meu novo lar e você vai estar ali, bebendo do meu Disaronno, sinistramente combinando com meus móveis, vai ter trazido um dos vinis que lhe deixei e que estará rodando na vitrola, provavelmente Caetano; haverá todo um clima de ironia do destino, e você no centro de tudo, de braços abertos, gargalhando com minha mulher, vai me receber com um sorriso vermelho e olhos obscuros, e vai me chamar, falando alto, por seu implacável vício retórico vai me chamar de Sr. Pleonasmo. Todos vamos nos divertir e eu não quero isso.

Eu faltaria com a verdade – a omissão não deixa de ser seu exemplo mais covarde – se não confessasse que, enquanto escrevo, me esforçando em vão pra expressar a segurança dos curados, me acomete a lembrança daquela tarde em Santa Monica... de repente caiu um toró pesado que se uniu à ventania. Eu te envolvi. Você olhou pro céu, e de um jeito todo inédito, vi a insubordinação se esvair do seu semblante. Parecia que no centro do seu ateísmo feroz tinha nascido um temor. Ah, Sonia. Nós, homens, vivemos espremidos entre essas duas assombrações: o passado, o futuro. 

Acabo de notar que tenho outra correção a fazer. A minha escolha não foi entre você e Renata. Se fosse o caso, concordo – teria sido péssima. Renata é uma contingência; te deixar foi uma necessidade.

Com o amor de sempre, com o cansaço resoluto, com o tesão aflito, 
José

P.S.: Ia me esquecendo do elogio, parabéns pelo cigarro.

9 de janeiro de 2013

vício retórico


Zé Carlos,

seja bem-ido da minha vida. Gostaria de dizer “obrigada por tudo”, mas não fui obrigada a nada, então, muito consentida. Por favor, poupe-me do teu orgulhoso “de nada”, ou “imagina”. Primeiro porque não foi de nada, as cicatrizes estão aí pra atestar; depois, chega dos teus imperativos.

Tenho vontade de perguntar como você vai, mas acho que sei. Você vai a pé, seu meio de transporte predileto. É o que lhe resta dessa tentativa tão inócua quanto afetada de contato com a natureza.

Leve a nossa retórica, que funcionou de embalagem nada hermética para este casamento. De mim, o que você mais gostou foram as palavras. Você me amou quase exclusivamente por elas. Nada mais vantajoso – não havia grandes perdas em jogo para você neste divórcio.

Se me permite uma sugestão, não deixe que ela descubra quão íntimos nos tornamos através das palavras. Ela vai se sentir enciumada cada vez que você abra o jornal de quarta, mesmo que não seja na página da minha coluna. Zé Carlos, como mulher eu fui difícil, mas como ex-mulher, mesmo a toda distância, provavelmente serei um tormento. Tenha piedade. Ela chegou muito recentemente à sua vida – até onde sei - e não tem obrigação de compreender, de saída, que as razões do tempo que você leva com o jornal de quarta m mais a ver com teus rituais de prisão de ventre que com teus resquícios de amor por mim.

Quanto a este tom agressivo que você sempre desprezou, pode invejá-lo à vontade. Ambos sabemos o que motivou tua aversão pelo meu jeito desaforado de amor: foi tua incapacidade de sustentar tuas palavras. Apesar de tantas vezes tê-la classificado como o que eu tenho de mais vulgar, minha autenticidade deve ter te ensinado algumas coisas das quais tua atual mulher vai poder desfrutar.

Em tua homenagem, já que sempre fomos dados a estas solenidades, largo o cigarro e minha mania de comprar macarrão sem checar se está faltando, entupindo a despensa de Renata. Aliás, nunca foi mais propício: mande um abraço pra ela! E desculpas por minha participação em tua pior escolha que já testemunhei.

Entre todas as conclusões usuais de uma carta, penso que a seguinte é a que mais se aplica a nós. Isso devido ao teu vício retórico, do que de uma vez por todas me despeço com a ironia na qual teu ódio me educou. 

Cordialmente,
Sonia

ferpuda frô


teu cabelo, mia f, cum certeza,
foi feito todo preu arrancar. 
tua pele, essa delicadeza:
tudo mi dexa a findi pegar.
teu último cílio esquerdo
mi põe tão lerdo quieu durmo aí. 
minero não vê só cusói,
então já mi dói um palmo di ti.

carecesse menos coragi,
fazia uma aragi nesses pêlo teu. 
arrancava tudo nu dente
pressa pele rente carinhar us meu.
sieu tivesse issaqui di malícia;
ai qui delícia encostar nocê! 
meus poro tudo abria
us teu todo dia até tu morrer.

minero, num sei siocê sabe,
nem quiu mundacabe eli fica quetim. 
num parto nunca pra cima
si ocê num si aproxima di mim. 
nóis é tudo acustumado
no jeito do gado i cobediência. 
já muié é um bicho arredi
i eu num tenho esse ri di paciência.

enquanteu escrevesses verso
contigo eu cunverso na mia cabeça. 
fecho usói i ocê tá molinha,
já já vai ser minha, se-caso mereça. 
devanei: foi tu quem chegou,
tu qui encurtou essa nossa fatia. 
ferpuda frô, pra ficar nu bem-bom
só ti falta o dom da telepatia!

7 de janeiro de 2013

discrição


Morava há vinte e seis anos – oito dos quais, sozinha – no segundo andar de um sobrado bastante amplo, arejado, com corredores de bom fluxo e pé direito generoso. Cada aposento da edificação setentista reservava pelo menos um vaso de flores de diferentes espécies e aromas. A residência era muito distinta; possuía a modesta elegância dos que vivem na fronteira entre o conforto e a moderação. A casa era muito limpa, as prateleiras muito organizadas, principalmente as do toilette. Quanto ao lar, a este não caberiam descrições tão elogiosas. A qualidade de um lar se define por fatores tão abstratos que todas as variáveis constitutivas de uma boa casa podem não conseguir rematá-los. Inclusive porque a filigrana que torna um lugar um lar não respeita os limites da residência, mas costuma vazar para o espaço público e levar em consideração toda uma aura imprecisa que aumenta e diminui de tamanho de acordo com os costumes e aspecto dos habitantes da casa. Esta já fora um lar, não mais.


A viúva vivia sozinha ali, não tivera filhos, e se deicava a assistir à gentalha da varanda. A ordem e o asseio da casa contrastavam com uma vizinhança que exalava a vida mansa dos que não se levantam para as tarefas domésticas. No andar de baixo funcionava um boteco sujo onde todos – até os funcionários - pareciam estar gozando permanentemente do ócio. Falavam alto, às vezes gargalhavam, e pareciam preferir fazê-lo de madrugada. Como esta senhora jamais fora afeita à vida malandra ou a seu principal apanágio, o álcool e seus efeitos no corpo e no espírito, não tinha como extrair a explicação óbvia para o aumento gradativo do barulho ao longo da noite. Segundo sua idiossincrasia, os assíduos frequentadores do bar (há anos praticamente os mesmos) aumentavam o volume de suas vozes, sua música e suas eventuais brigas de rua por serem mesmo espíritos de porco cujo divertimento era impedir o resto do bairro de dormir.



Mas o barulho não era o principal incômodo. O fato asqueroso era que aquele bar, por infeliz coincidência, tornara-se ao longo dos anos uma sede tradicional de sodomitas. Sodomitas. Este era o mais baixo termo que a senhora se permitia gritar à janela.



Melhor dizendo: se permitira. A última vez que ela havia gritado foi numa noite de final do campeonato brasileiro no fim dos anos 90. Dado o duradouro convívio apesar da nula convivência, esta senhora descobrira que sodomitas gostam de futebol e gritam, esperneiam, choram quase como os homens em fim de campeonato. Já fazia quinze anos que ela não gritava, porque da última vez as consequências foram desastrosas: alguém lhe arremeçou, numa serenata às avessas, títulos que não convém repetir. Um deles se afirmou como seu verdadeiro nome pelo bairro, a ponto de hoje as crianças chamarem-na por ele com a naturalidade dos bem-intencionados.



Dada a crescente libertinagem a que estes seres se entregavam, ano após ano, em suas explicitações de vergonhas; e dado principalmente à estupefante licença que a opinião pública concedia a isto, esta senhora foi se recolhendo em sua casa. Foi fincando-se mais e mais ao limpo encontro das tábuas de madeira do assoalho, e aos cantos impecáveis dos fundos das gavetas. Passou a pedir com mais frequência que o rapaz da venda viesse lhe trazer as compras. Os poucos vizinhos, e cada vez mais ralos, com quem travava algum diálogo, foram obedecendo a uma advertência tácita e compartilhada por visitá-la. A discrição, seu mais forte traço, se acentuou até alterar-se em isolamento. Atualmente, o máximo que ela se aproximava da vida era desde sua varanda. Para se ter uma ideia, no ano passado ela saiu de casa apenas uma vez: no aniversário de morte de sua falecida companheira. Mas foi da casa para o cemitério sem dar confiança a ninguém, e nem satisfações sobre as rosas vermelhas na ausência das quais tornou silenciosa ao sobrado.

6 de janeiro de 2013

Adora


A Dona foi num samba no Plano
E pra seu ledo engano
Lá dava muito preto

Prostituta que ela reconhecesse
Tinha nenhuma nesse
E se tinha, não viu

Era rico se agarrando com pobre
Novo e velho de porre
E fazendo dueto

Por essa mistureba feliz
Que o samba de raiz
Calha bem ao Brasil

A Dona se espantou na entrada
"Dez reais não são nada,
isso é preço de gueto."

É que Dona só mora na Asa
“Tô a um pulo de casa!”
Ela concluiu

Tinha chopp gelado e uísque
“Mas se Dona arrisque
a bulir os graveto,

Nego paga trocentos barris.
No samba de raiz
Dona habita o Brasil!”

Eis que Dona duvidava do gesto
Do neguinho modesto
E cheio de amuleto

Mas tudo indica que na fila da prece
O passarinho conhece
O cu que adquiriu

E ele paga o camarão e o Campari
Pra Dona da Ferrari
Que bole o esqueleto

O do mês vai ficar por um triz:
A secreta raiz
Do que move o Brasil 

O samba tá gastando o surdo
O olhar já tá turvo
"Não vomito, prometo!”

Dona deu palavra pro neguinho
Que com seu carinho
Apenas consentiu

Enquanto ela vai pro banheiro
Seu pé já brejeiro
Desliza no panfleto

Que caçoa da Weslian Roriz
No samba de raiz
Tá escrito o Brasil!

A Dona se estribucha no chão
Outro bebum negão
Já bagunça o coreto

“O neguinho pode deixar
É pro Paranoá
Que ela vai!”, se exibiu

Outro ainda vem a socorro
Retira seu gorro
E recita um soneto

Pra desabada imperatriz
Que hoje beija a raiz
Do solo do Brasil

Semana seguinte de novo
A elite e o povo -
Todo mundo jeito

Claro que a Dona do chão
Não se conteve, não,
E reincidiu

Nessa terça foi outro mulato
A pagar o seu trato
E aquecer seu leito

E é por essa e outras civis
Que o samba de raiz
Faz tão bem ao Brasil

desconfiado

Ele sempre amanhecera acordado: chats, pornografia, video-game. No começo era surpreendido pela manhã, que se anunciava sorrateira sobre as cores das coisas. Depois foi conhecendo as horas da noite com a familiaridade das diurnas. Bastava olhar para o céu que se situava com peculiar precisão a respeito de quanto tempo lhe sobrava entre o seu instante e aquele onde a mágica arrefeceria e a vigília não se devesse a uma escolha, mas à necessidade. Neste momento, que nunca falhava, sempre sentia que desperdiçara muitas oportunidades de sono. Ao longo da noite se lembrava repetidas vezes de que experimentaria tal sensação pela manhã. Mas, com a teimosia implacável dos procrastinadores, conseguia convencer a si mesmo de que aquela era uma noite especial entre as outras, e merecia vivê-la privilegiando a apreensão consciente das horas ao torpor que não as reconhece.

Mas uma noite mostrou-se inédita. Enquanto seus primeiros minutos passavam, notava-se um ambiente de outra densidade se impondo a tudo. Ele ficou um pouco desconfiado. Justo o tempo, que nos habitua a sua obsessiva constância, à exceção de quando transcorre em dias de angústia ou luto, quando prefere se arrastar – justo o tempo, sem angústia ou luto para justificá-lo, resolvera sair da rotina. Nosso personagem não está entendendo nada que se passa consigo nesta noite rápida. Olha em volta mais uma vez e se agita. Suas retinas vão perscrutar o canto de seus olhos; primeiro o esquerdo, direção que o pescoço também segue, e quase os ombros vão atrás neste exército de pedaços atentos do corpo, mas a consciência vigente os interrompe, julgando aquilo meio paranoico. A mesma consciência permite no entanto que o pescoço gire para a direita, uma vez que este movimento, de pescoço apenas, não chega a conferir à cena qualquer elemento disparador de dúvida quanto à sanidade deste notívago num espectador imaginário. Na contramão deste cálculo, tais movimentos se repetem por horas, até perderem noção de si.

Mas a noite continua estranha. Negra, é verdade. Negra como deveria, ele vai à janela verificar. Os barulhos da noite correspondem ao que se espera da hora que ele supõe ser. Bem como o volume do tráfego nas ruas. A respiração de tudo quase se pode ouvir – a noite deve estar na metade. Mas está me enganando.

A decisão por não olhar o relógio lhe acomete, e é definitiva. Se forem horas absurdas, impertinentes à intuição treinada dos anos, ele não suportará a dúvida que então vai se impor: estou louco ou esta noite é diferente das demais? Ambas opções soam implausíveis.

Talvez toda a confusão se deva a um investimento excessivo em epistemologia kantiana. Sim, deve ser isso: algumas prioridades tomaram o lugar da pornografia e do video-game. É natural que o tempo venha a me tratar diferente, e com ele a noite, que não é mais que uma de suas fenomênicas expressões.

Ele volta à janela. A noite ainda é escura. Antes das cores das coisas mudarem dentro do apartamento, é ele quem flagra o ensaio do dia na casca esquerda do horizonte. Aquela camada irrisória de azul apaga todas as suas considerações sobre o tempo para fazer sua atenção derivar para um fato; virou homem. O próprio passar do tempo acaba de se transformar.

5 de janeiro de 2013

Querido II

Prólogo.

Querido,
volto ao início
Nada era difícil
Cê cantava, eu abria

Querido,
eu tava encantada
Mas fui abortada
Querido, eu queria

Viver no seu acorde
Mas você me sacode
Diz que a gente não pode
Senão se aniquila

Querido
volto à origem
Aquela vertigem
Que eu te dei um dia

Querido,
hoje ela me empurra
Rumo a outra surra
Querido, eu queria

Viver no seu acorde
Ou sob o seu bigode
Nossa história implode:
Ou se ama ou vacila,

Querido

2 de janeiro de 2013

diafragma


O silêncio pesava sobre cada um dos objetos do apartamento, e tanto que um deles caiu: a tampa duma panela deixada sem zelo sobre o resto do almoço. Depois do barulho espatifado, mais silêncio, que esperava por alguém interrompê-lo. Enquanto isso, se contorcia, se agoniava, prendendo a própria respiração. Cabe imaginar se não seria silenciosa a respiração do silêncio, mas ele não queria pagar pra ver. Bastava a tampa da panela.

E então uma palavra se ensaiou. Foi da boca dela, que se entreabriu e o ar entrou numa corrente leve que raspou nos dentes. Ali ele se deteve por um momento, até que foi solto sem palavra.

Diga, disse ele, que é uma maneira de não dizer nada.

Mais por amor que resignação, ela respondeu, eu estive pensando.

Ele sentiu alívio ao observar que ela havia começado a dizer, que ela resolvera começar a dizer, que ela resolvera ser a pessoa a começar a dizer. Ele tinha dificuldade em avaliar por si mesmo se estava certo a cada vez. Por isso se fiava na ponderação de que quem pede desculpas primeiro é que as deve. Ali acabara de descobrir ser, além de inocente, franco merecedor de uma boa explicação.

Ela tinha uma maneira secreta de ponderar nestes momentos de silêncio. Achava que o amor repousava nestas pequeniníssimas concessões, nesta coleção de minúsculas generosidades que alguém oferece a alguém. E assim ela se esforçava em domar sua ganância pelo brilho que emana de quem tem razão.

Eu estive pensando, exagerei contigo. Me desculpa.

Desde que começara a frase, ele havia esperado mais dela. Então a olhou nos olhos com reivindicação, cuidando para que seu semblante não denotasse o alívio que ela proporcionara ao abrir a porta da palavra. Queria se parecer a um homem que antes e depois da fala dela tivesse exatamente as mesmas ideias sobre si mesmo. Dedicado a estes cálculos, ele ficou em silêncio, os olhos esvaziaram e se perderam dos dela, e quando notou a digressão, fingiu que era uma digressão atinente ao tal pedido de desculpas. Este merecia mesmo uma análise detida. Uma vez que concluiu este poderoso aspecto, ainda demorou um pouco mais em silêncio – desta vez era intencional - o que conferiu a tudo uma carga de mistério.

E então foi sua a boca que se entreabriu, foram seus os dentes que rasparam no ar que entrou, e foram seus os músculos abdominais que se preparam para a soltura das seguintes palavras: não sei. Não sei.

Ela se arrepiou. Pareceu-lhe então muito grave o efeito que causara nele, e o amor esforçado que usara para motivar a humildade agora era pouco frente a tudo que precisaria fazer para recuperar o bem estar entre os dois. E se sentia confusa, porque, por outro lado, não estava dramatizando a frustração que causara seu exagero, que por sua vez causara o primeiro silêncio. Ela quis se apressar, ser romântica, mas algo em si de que precisava para se entregar já não funcionava tão bem como no início da conversa.

Quanto a ele, manteve o olhar solene, assim ganhava tempo para uma negociação interna entre cada detalhe que sua memória era capaz de recolher sobre todos os conflitos que tivera com ela e os planos valorosos de futuro que se estendiam diante da necessidade de reconciliação. Ele precisava ser estratégico aqui; esta era sua forma de administrar o romance, e não se pode dizer que não fosse de todo amorosa. Era assim que ele cuidava de tudo na vida, e o restante ia bem.

O silêncio, de seu lado, se preparava para nova batalha contra os próprios pulmões.