24 de fevereiro de 2013

- Sim.


- Seu maior rancor é correlato ao amor que não passa.
- Não, acho que é por causa das brigas, da agressividade dela.
- Seu tom geral de ressentimento não se dirije a tudo que deu errado, mas à dor por não possuir mais tudo que deu certo.
- É, alguma perda tem sim.
- Confesse, pelo menos entre nós. Seu ódio é sua admiração.
- Ela vai longe.
- Pois é.
- Mas tão longe, tão longe, que não vou conseguir mais enxergar.
- Melhor assim. Não?
- É um atestado de fracasso. Quando acompanhamos com a vista um pássaro até entender que já não o acompanhamos mais, e que estamos mirando um ponto qualquer no fundo azul como que enganando a nós mesmos de que ainda o possuímos contra os olhos.
- Sim.
- Penso que neste momento o que acontece é que o pássaro interrompe seu vôo. Morre. Vira nada. Ele não prossegue até um ponto onde não mais conseguimos ver. Ele simplesmente desaparece.
- É o que acontece, na realidade.
- Mas não se pode odiá-lo por isso?

vício retórico VIII

Prólogo. 

Sonia, 

preciso assumir, do contrário estaria insistindo numa canalhice a esta altura consciente, que precisei lhe deixar em função do meu ódio. Não este ódio quiçá divertido, às vezes cretino, mas sempre civilizado que dirijo a você. Talvez pelo medo de perder completamente o acesso à sua vida de que surpreendentemente ainda gozo, meço minhas palavras. Mesmo quando não as meço, como fiz na última correspondência, há uma intuição de que aquele determinado ódio você conseguirá conter, elaborar, revidar e esquecer, se necessário. 

Admiro as pessoas que calculam menos suas dosagens de agressividade. Não chego a enaltecer o extremo oposto de mim, que é você, nisso que às vezes se mostra como perda completa de controle. Mas admiro quando você esculpe essa tendência sádica numa honestidade que está disposta a pagar seu preço. 

A ponderação à agressividade que dedico à sua pessoa me faltou entre meus familiares, meus amigos, e até com a Renata. Destilei tanto ódio por você, Sonia, quando soube da sua traição (quantos nomes!), e manifestei tanta tristeza entre meus pares, que selei com eles um acordo tácito. Consistia em lhe deixar.
Talvez seja excessivamente casual essa maneira de lhe contar que soube da sua história com o tal Felipe. Ou melhor, que sei de algo disso. Um segredo que você me revelou com a mesma generosidade inconsciente com que me mostrou os defeitos do seu corpo. Sem tirar nem pôr, Soninha, você sabe tanto amar quanto desprezar. Sabe se entregar tanto quanto se recusar. Soube me comunicar sua paixão por ele tanto quanto sua paixão por mim. Não sei exatamente o que vocês viveram. Sei que o que aconteceu mudou sua vida – palavras suas; mudou a maneira como passamos a trepar – precisei concluir isto apenas retroativamente; e mudou minha auto-imagem. Assumir o conhecimento do chifre seria contrair com você esta dívida: a da coerência com pressa. Eu não queria lhe deixar. Não queria. Precisei arranjar um bom motivo pra isso, outro que não o fracasso de homem.

Meses depois apareceu a Renata. 

Ao ler minhas palavras, hoje, imagino que você nem sente o calafrio do flagrante. Você soube que eu sabia. Mas o silêncio é o guarda-costas da ignorância... e serviu bem a nós dois. Serviu para que você não arruinasse seu casamento depois de um affair cuja concretude valeu principalmente como laboratório de imaturidade emocional. Serviu pra mim ao ganhar tempo, recuperar a aposta na minha masculinidade e encontrar alguém que funcionasse como razão pública da vingança. 
Meus amigos, meus familiares, eu mesmo, mas especialmente minha irmã – todos esperávamos de mim que lhe cobrasse cada choro de desespero. Cada cápsula de ansiolítico. Cada noite em claro ao telefone. Não tenho parente cuja madrugada saia de graça.
Mas esta lembrança dos seus dedos queimados me toca, Soninha. Sua capacidade de amor, que eu sempre procuro esquecer, e sua irreverência, e sua passionalidade, sua auto-penitência, seu rigor, sua coragem, sua entrega. Nada destoa nessa orquestra de sedução. O que, é impressionante isso, me ajuda a começar a lhe perdoar por ter se entregado a outro homem enquanto ainda éramos casados. Este cara, estes caras, se for o caso. Enfim! Somos/fomos todos agraciados.

José

22 de fevereiro de 2013

Não me obedeça

Tola, não acredite em mim 
Vou te trair 
Vou te humilhar 
Pior 
Vou me casar contigo 

Não me obedeça 
Escute: 
Não me obedeça 
Sequer esta advertência 
Não a cumpra 
Não me obedeça 

As crianças não vão ser tão belas 
Quanto você supõe 
Não vão ter a sorte 
Da loteria cromossômica 

Nada vai ser tão interessante 
Quanto parece hoje: 
Os cômodos da casa 
Não terão identidade entre si 
Conviveremos mais com seus primos 
Que com os amigos artistas 

Vamos tomar o rumo imperativo 
das conveniências 
do conforto 
da santa hipocrisia da felicidade 
E você será feliz, sim 

Tola, não venha comigo 
Ou sua vida vai diminuir 
E aumentar 
Como o fazem as raras 
Raríssimas 
Vidas comuns

7 de fevereiro de 2013

vício retórico VII

 Prólogo.

Zé Carlos, à merda?

Lembra daquela noite na concha acústica em que você me beijava dentro do carro do seu pai, todo entregue, jovem, sôfrego, aflito, ainda namorávamos, lembra? E você me beijava e me puxava pra si, e tinha o freio de mão, e a gente todo estabanado, e você me fez aquela pergunta. Se meu corpo era todo seu. Eu disse que sim. Você me beijou mais. Me segurou. Aí você perguntou se você era o único que podia me tocar. Eu respondi que não, lembra? E toda a sua sofreguidão, sua pressa, seu tesão, tudo se esvaiu quase que instantaneamente, primeiro do seu olhar, depois do seu rosto, depois dos seus braços. Não houve tempo pra mais nada. Tentei explicar que era uma brincadeira, mas você achou de um mau gosto total, concordei, fomos embora.

Lembra no dia seguinte? Eu te liguei pra te ver, você não quis me ver, estava me achando um mau gosto puro, como deve estar achando agora. Mas aí fui até você, no seu estágio, lembra? Te esperei no pátio do hospital, você nem havia me deixado perguntar por você na recepção. Marcou uma hora, eu estava lá, você demorou uns vinte minutos.

Eu te mostrei as pontas dos meus dedos direitos, três deles envoltos em band-aid. Lembra? Você perguntou o que era aquilo. Comecei a abrir um deles, era o dedo do meio, você olhava a cena com um pouco de desprezo e de curiosidade. Você já era o Zé Carlos.

Lembra? Eu havia queimado as pontas dos meus dedos cuidadosamente com uma vela. Eu te disse: agora sim, você é a única pessoa que pode me tocar.

Antes de me mandar de novo à merda, Zé Carlos, lembre-se de que a delicadeza foi por muito tempo nosso terceiro na cama. Tua amante e meu amor platônico. Foi ela que testemunhou nosso amor, nossa ira, toda a poesia das correspondências de quando você viajava. Foi a delicadeza que cumpria o papel da Renata. Então, por favor, sem pieguismo. Mude o tom e me escreva novamente.

Sonia

ilha de edição

Na ilha de edição
Tudo é muito delicado
Os cortes amenos
Os fades da trilha
Fade in
Fade out
Fade in
Fade out


Tudo é doce
Ninguém especula nada
Todo mundo respeita
Como, imagino, numa sala de cirurgia
Aqui
Todo mundo respeita
O que eu faço, o que sinto
Observam apenas
De vez em quando me ajudam


Tudo silencia
Ao mesmo tempo em que tudo pode
À mão estão todas as músicas do mundo
Trinta e duas horas de vídeo
Todas as referências que o amor me deu


Tudo é pequeno
Brando
Exceto seu rosto em close
No meio do escuro
Tua voz enorme
No meio do silêncio
E o teu olhar pra câmera
Teu olhar deliberado
Agora eterno


E minha pergunta:

imaginem o mar


Imaginem o mar. O mar; façam caber sua vastidão no limite – neste raro caso – estreito da imaginação. Finjam estar diante daquela fatia de horizonte que oprime a retina e que convoca o movimento de torção do pescoço para que se possa acolher mais mar na visão. Imaginem o mar no enquadre da vista, quando ele é o repouso da retina, ela que, como ele, se vê constrangida entre as claridades do céu e da areia. Imaginem o mar que boqueabre. Ou quando o sobrevoamos, quem já o sobrevoou; aquele manto escuro e brilhante sobre o qual o sol vem correndo, sobre o qual a luz se esparrama de maneira áspera, tratando as ondas, para nós imensas, como nanicos acidentes de relevo da Terra. Imaginem o mar no que ele nos emociona, advertindo esta sensação de pequenez em cada pessoa que tenta descrevê-lo, contorná-lo mesmo que seja para si mesma, e que procura, às vezes desesperadamente, entendê-lo. Há poucas coisas que não conseguimos entender entre as coisas olháveis. Costumamos acreditar que todas as coisas discerníveis pela visão, o mais honesto dos sentidos, também podem ser compreendidas pelas faculdades da razão. O olho: porta principal dos salões da inteligência. Mas o mar, que podemos ver, que temos mania caipira de fotografar; o mar, pelo menos durante o dia, podemos vê-lo com distinção do céu, podemos ver a cores boa parte de seu interior – e mesmo assim parece não ser possível atingi-lo com o pensamento. Da maneira que puderem, que conseguirem, imaginem o mar. Ou melhor, imaginem a porção de mar que couber nesta pressa que dá ao se passar da metade de um texto cansativo. O que der, me imaginem o mar. Agora, desfaçam-se da combinação de azuis, verdes, marrons e negros de que se compõe o mar. Se puderem, por gentileza, tirem toda a cor. Tornem o mar absolutamente transparente, como, amanhã de manhã, não haverá um pingo de cor na água translúcida dentro do copo que fora de requeijão. Façam do mar mais transparente que o vidro. E vejam este mar sem cor, esta água totalmente cristalina. Pra mim, pra mim, esta é a imagem do desejo quando se sabe correspondido.

3 de fevereiro de 2013

vício retórico VI

Prólogo. 

Sonia, 

já falei da sua tendência à vingança. Saiba que meu medo dela foi o maior responsável pelo adiamento da minha decisão. Conheci Renata naquele simpósio em Paris. Eu a vi na plateia, ela mexia nos cabelos e pouco se importava com a minha fala. Uma culpa irradiante pelo que eu ainda não havia feito me invadiu ao descobrir que ela era brasileira. Posso te contar a história de nosso reencontro em São Paulo, da idade dela, da história do ofurô, das nossas aventuras, mas não é isso que você quer. Você quer ler sua história a partir desta. Faça as contas. Ligue os pontos. Compreenda cada uma das minhas indiferenças subsequentes e as atribua, retroativamente, ao cabelo da Renata. Vai apaziguar sua já preguiçosa responsabilidade, e talvez, por extensão, apazigue também a mim.   

O que faz da Renata uma escolha é justamente ser uma contingência, Sonia. Poderia ser ela. Poderia ser outra. É bom decidir viver com alguém apenas porque esta é uma das possibilidades que, como tal, se encarrega de várias renúncias. É leve. É o que tem pra hoje, com a chance da eternidade. Se ela teme minha infidelidade, é bem possível. E é bom que seja assim, Sonia. Eu também temo pela dela. Não colocamos nossa mão no fogo um pelo outro, apenas vivemos juntos, uma singeleza que eu particularmente desconhecia.  

Se ela se sente em dívida contigo, não sei. Mas sua filosofice – bem colocado – torna imperativa uma observação. Se alguém sai do nosso (deveria ser o que lhe interessa) relacionamento em dívida, certamente não sou eu. Prova disso é a divisão de bens muito mais conivente a seus caprichos do que justa aos meus recursos. Tampouco quero fazer parecer que seria você. Mas sabe-se lá. Muitas vezes as mais valiosas dívidas passam ao largo do conhecimento dos credores. 

Meu tesão por você não quer dizer nada, mulher. Machista ou não, institucionalizada ou não, errada ou não, essa relativa disjunção entre amor e sexo é um traço comum aos homens em geral. Inclua este dado nos seus gender studies.

Agora talvez você se orgulhe de uma das suas notas mais acuradas: minha mulher desfruta mesmo da autenticidade que você me ensinou, bem como de outras competências que adquiri no convívio com sua catequese sexual. Ou deveria chamá-la simplesmente vulgaridade? Não, não a chamarei de vulgaridade por condescendência à sua boa vontade em me ensinar, e principalmente por indisposição em retomar a querela da saia. (Agora que o propósito dela ficou claro, com ele se esclareceu também a eficácia do seu método.) Compreendi que um homem dedicado às letras provavelmente se atrasa no treinamento das irreverências da cama. É sempre preciso, nesses casos, uma mulher como você, destemida porque carente, para nos instruir como transar. Agradeço a generosidade com que você se entregou, até invejo outros homens que venham a tomar suas lições, mas confesso que às vezes me envergonhava por falhar em lhe indicar alguns dos seus exageros performáticos. 

A ironia tem sido um aliado covarde e promíscuo neste combate. Respectivamente, porque fere sem se comprometer, e porque ora está contigo, ora comigo. Mas hoje minha temperança se curva de bom grado. A cordialidade nunca teve o mérito de ser honesta; mas mesmo ela se cansa da sua falsidade, Sonia. Vá à merda. 

José 

profecia


Consentimos em dormir um ao lado do outro e isso pressupôs um espectro enorme de confiança. Supomos não haver uma faca debaixo do travesseiro do outro. Supus não haver pragas nas bordas de suas feridas. Você supôs não haver ruídos cruéis no silêncio de minhas intenções. Supus não haver sujeiras relevantes debaixo das suas unhas. Você supôs não haver quaisquer sujeiras debaixo das minhas. Supus serem toleráveis suas intolerâncias. Você supôs ter paciência e habilidade contra meus ímpetos de gula. Você supôs incompetência nos homens que vieram antes. Eu supus despreparo em suas mulheres. Supus interrupção na sua promiscuidade. Nós supusemos famílias cooperativas. Nós supusemos vantagens. Viagens. Você havia suposto meus seios. Eu supus o desenho dos pelos do seu peito. Você supôs vertigem ao me olhar numa noite de Natal. Eu supus a combinação feliz dos nossos cromossomos num rostinho humano. Você supôs cores dentro de uma geladeira que eu viria abrir. Nós supusemos nossa habilidade em lidar com o que não supúnhamos. Em tudo acertamos. Meu único erro, subestimar o caráter de suposição de tudo. E o seu, ter escarnecido da possibilidade da faca.

tua língua ensebada

Tua mente não se cala
Ela é feita do rejunte
Entre cada corpo humano
Educado na palavra
Não consegue ficar só
A linguagem não permite
Ela é feita de um mundo
Tanta voz e tanta gente
Que o silêncio é um olho
Frenético e indecente
Numa terra de ceguetas
Que tateiam no escuro


Tua mente não se cala
Ela é feito uma maluca
Gritando pela rua
Toda suja e toda nua
Tudo tudo te acomete
Como cegos esbarrando
Até tocarem o muro
Da tua língua ensebada


Tua mente não se cala
Teus esforços todos vãos
Ela vaga inconsequente
E se instala no pulmão
Da pura irrelevância
Que respira aliviada
Pela pausa dos sentidos


Tua mente não se cala
Justo quando se lhe pede
Quando dizes que não pensas
Quando pensas sobre nada
É aí que justamente
Tua mente não se cala

física


Uma vez que a investigação matemática sobre o movimento retilíneo dos corpos sublunares se articula radicalmente com o movimento destes outros corpos reais, caóticos, instáveis, animados, substanciais, padecentes, incoesos, excessivos, melhores, piores, sensíveis, ímpios, suicidas, arbitrários, intencionais, retóricos, injustos, violentos, possessos, ébrios, leprosos, bruxos, lunáticos, excluídos, inconvenientes, insubordinados, entregues, irreverentes, vigorosos, latejantes, colonizados, divinos, imperfeitos, demasiados, humanos, vis, solenes, musicais, doloridos, virgens, carnívoros, sofridos, passíveis, mortos, amputados, mutilados, desorientados, finais, éticos, inconscientes, verdadeiros e novamente Reais, é preciso inaugurar novo estudo do movimento.