24 de abril de 2013

interpretose

- Admita, ele foi babaca.
- Será? Não é pra tanto.
- Foi um babaca mau caráter.
- Que exagero!
- Te seduziu, te conquistou, te comeu e te deixou pelo prazer mórbido de deixar.
- Eis a pior versão da história.
- É a mais provável. Conheço esse tipo de homem.
- Ah, você pensa assim porque odeia seu pai.
- E você diz isso porque idolatra o seu.

17 de abril de 2013

arribamento de saia

Diz que o amor invade tudo
Feito água pela fresta
No botequim do Zé
É a tal mulher imodesta
E na casa da gente
Aquela visita indigesta

Diz que do nada ele dá
Que nasce feito fruta
Acidente inescrutável
Destino, karma e luta
Tipo relâmpago na árvore
Brusquidão absoluta

Diz que amor caipira
É de todos o mais real
Diz que dispensa tudo
É simpleza sem igual
É arribamento de saia
Até a morte natural

Diz que amor jovem
É o mais incompetente
A vida tem de parar
Pra paixão adolescente
Em três meses ele finda
E deixa a moça doente

Diz que amor velho
É pacato e agoureiro
Ninguém ama, ninguém xinga
Vivem um feliz atoleiro
Cada um apenas torce
Pro outro morrer primeiro

Diz que amor entre mulher
É coisa bem complicada
Muita história com amiga
E calcinha pendurada
Diz que beija e no outro dia
As menina já tão casada

Diz que amor entre homem
É prático e nada avaro
Que dão muito e comem bem
E dizem sempre que amaram
Que é mais difícil ter neném
Mas tão lutando contra Bolsonaro

Diz que amor homem-mulher
É de todos o mais pior
Por lei pode e até deve
Mas na prática é o ó
Diz que filho é que segura
Mas depois que dorme é melhor

Diz que amor divorciado
É faca de dois gumes
É guerra fria, ninguém admite
Até que uma gravidez assume
Aí vem a escalada final:
Foda de despedida é o cume

Tem também amor arranjado
Até hoje diz que tem
Acontece entre os milionários
E desabrigados do Xerém
É o amor das circunstâncias
Que é ruim com e pior sem

Do amor não sei contar
Só sei do que dele se diz
Não sei se sobrevive a tudo
Ou se vive por um triz
Minha ignorância te suplica:
Vem me educar nesse infeliz

perdulário

Gostava de esgotar todas as possibilidades de palavra, falar até compreender o impossível. Esgotar: tornar esgoto, fazer tudo escorrer, espremer a vida como uma toalha molhada até secá-la de todo mistério. Ser preciso por exaustão. Envolver todos os acontecimentos de sentido. Fazer outra exibição da vida com os comentários do diretor. Explicar a si mesmo como quem o faz a uma criança. Não poupar qualquer suspiro.

Ela não perguntava nada.

Ele se contorcia entre as frases, esgueirava-se pelos labirintos de silêncio, encontrava saídas nas interpretações menos cabíveis. Alimentava suas versões paranoicas com a generosidade assídua da memória. Ambicionava uma razão para cada gesto. Riscava com giz o assoalho onde jazia o corpo indiscernível do fim. Estabelecia os contornos das suas intenções, das dela, dos seus erros, dos dela, como se cada uma dessas manchas fosse um continente absoluto a derivar na superfície do amor.

Ela ia embora.

Ele reivindicava respostas. Supunha que uma delas, qualquer delas, mesmo a pior delas o sacaria do imenso desamparo. O infinito do silêncio era pior que a pequenez das alternativas. Outro homem? Uma palavra mal dita? O tédio dos dias? O trabalho doméstico? A falta de sentido dos projetos de longo prazo? A mediocridade eventual das crianças? Uma depressão, talvez? A monotonia do sexo? A decadência hormonal? Aquele aborto? O cigarro? A falta de luxo do apartamento? A amiga tendenciosa? O álbum de fotografias de Noronha que não revelei? O pó acumulado nas prateleiras mais altas do armário do sótão?

Os anos apenas se passaram.

Ela não voltou.

12 de abril de 2013

Next.

Venta sobre duas moças perfeitas. Elas estão na capota de uma caminhonete. Vestem jeans. São muito brancas. Fazem curtas estátuas. Os flashes disparam. Flashes brancos. Uma apoia-se sobre os joelhos. A outra olha o infinito dentro da sala branca. Semicerra os olhos. Um homem grita palavras aleatórias. Awesome. Turn around. Show me your neck. Há outras trinta delas tagarelando nos arredores. Todas têm o porte das éguas. Todas caminham como os insetos. Todas são jovens. Algumas gargalham. Outras estão sentadas. Maquiagem. Boca entreaberta. Olhos frenéticos contra o pincel nos cílios. Um minutinho pro rapé do maquiador. Esconde o rapé. É pó de arroz. Next.

Duas moças perfeitas na penumbra. De camisola. Luz indireta. Cabelos alvoroçados. Um recamier. Almofadas de veludo. Uma toca o pequenino seio da outra com o ombro. Esta olha pra frente. A boca reluz um bordô molhado. O homem sussurra palavras aleatórias. Together. More lips. Again. Outro homem se aproxima com a câmera na mão. Fotografa um pé sobre o tapete felpudo. Se afasta sorrindo. O homem das palavras aleatórias diz. Bring me Claire. Desliza uma moça perfeita pela sala branca. Cabelo chanel. Negro. Pele muito branca. Corpete negro. Claire se esgueira entre as duas moças perfeitas. Muitos flashes. Elas improvisam. Sorriem. Tocam no cabelo de Claire. Next.

Duas moças perfeitas. Moças venezuelanas. Elas acolhem o roçar de uma serpente mansa. A serpente dança sobre os ombros de uma. A outra lhe sorri. Elas são morenas. Seminuas. Seus cabelos são crespos. Elas são gêmeas. Elas chegaram juntas. Elas não falam inglês. Elas simbolizam o estrangeiro. E o são. Estão ganhando em dólar. O homem das palavras aleatórias faz caras para que elas imitem. Sussurra palavras por automatismo. Depois se dá conta de que fala sozinho. Elas são tão belas. Ele quer aprumar o queixo de uma delas. Mas há a serpente. Ele não vai. Aquelas fotos são reais. Não é mais foto, é a selva. A sala branca. Não é mais arte, é a vida. Ele olha em volta. Descobre o tema da nova coleção. Ele vai dar lugar ao exótico. Dar voz ao selvagem. Viva a globalização. Ele bate palma duas vezes e grita para as outras trinta. I stand for Africa.

10 de abril de 2013

toda ferrugem


Tudo o que fiz pra você (não que tenha sido muito), cai, calado, sobre as coisas que eu já tinha. A lingerie nova ainda na embalagem. As frutas e queijos na geladeira querendo apodrecer. Os lençois brancos, ainda – ainda – firmemente esticados sobre a cama. Ninguém vai dormir lá. Ninguém vai comer.

O calendário está atrasado: passaram-se anos.

O relógio, por sua vez, vai muito mais depressa que o tempo. No espaço de um segundo cabe toda a escavação. Minúcia, culpa, arqueologia, gruas. Em cada segundo se forma uma enorme rocha sedimentar dentro do meu apartamento. Sobra pouco espaço para a correria dos meus bichos de estimação.

Certa vez você disse que, comigo, teus dias de treva haviam acabado. Até te perguntei, leviana: treva, meu amor? E você repetiu: treva.

Eu não conhecia a treva.

Sobre a escada que prefiro não subir, dormem mendigos imaginários. Leprosos, magros. Pela manhã parece que eles somem, se desmaterializando através das paredes.

À noite, na insônia, uma minhoca minúscula, de infinitas patas, percorre todo o perímetro da minha imaginação. Estou diante de um Aleph seletivo que condensa apenas o mal: vejo os dutos do que resta de petróleo sobre a Terra, aquela aranha no centro da negra pirâmide que Borges também viu – ela permanece lá -, vejo os pés de um veterano de guerra que acaba de se enforcar, vejo a inveja no olhar de uma mãe, a miséria de um alce perdido na savana, toda ferrugem, vejo o quarto escuro onde uma criança dorme de cansaço depois de muito gritar, vejo as chaves da porta deste quarto correndo com a água suja do esgoto, vejo uma bicheira no dorso de uma mulher pobre, as entranhas de uma ave que comeu uma lata de alumínio lançada ao mar, um navio gigantesco no fundo dele, vejo a cegueira, e ela me vê.

Na mesa há uma flor amarela que uma amiga trouxe. Morta. A faxina que te esperava começa a dar sinais de cansaço e acolhe a dócil poeira dos dias. Aquele sabonete de leite de cabra caiu no chão e escorreu com a água de um dos poucos, longos banhos que tomei. Tem um resquício dele no rejunte do ralo.

Teu silêncio é impressionante, meu amor. Rege tudo. Tudo cala... menos os bichos. A alegria deles tem a mesma obstinação.

7 de abril de 2013

vício retórico IX

Prólogo. 

Querido Zé Carlos, 

desculpe-me a demora. Acho que fiquei demasiadamente inibida frente à comunicação do teu conhecimento da minha traição. Todo o tempo transcorrido desde então e a irrelevância emocional deste envolvimento não conseguem invalidar o caráter de flagra que me invade ao ler, e reler, e cada vez novamente a tua última correspondência.

Eu não devo mais te escrever. Estas clarezas súbitas que me acometem nem sempre culminam em coerência, mas desta vez é sinceramente o que você pode esperar de mim. 

Não devo mais te escrever, Zé, porque você deu teu jeito, saiu da minha vida por necessidade, que é, ao contrário do que quase sempre parece, consequência do desejo. Respeito muito isto. Flagrada, então, te respeito. Talvez sempre soubera que você sabia. Mas eu precisava que você me dissesse que foi por ódio a mim, e não por amor à Renata, que você decidiu ter a vida que tem. Talvez eu precisasse que você se desprezasse menos para que eu pudesse te entender. Quero dizer, para te aceitar.

Eu fico cada vez mais entediada com o discurso corrente entre minhas amigas, colegas, primas, de que quando um homem deixa uma mulher é porque ele não deu conta dela. Zé, atualmente, você já deve ter notado, se é que não foi você quem me mostrou, atualmente todas as mulheres se acham a melhor mulher do mundo. Acho até que existe uma sensibilidade quanto ao momento histórico que atravessa a política dos direitos fem... Aaaai, enfim. Todas somos bonitas, sexualmente disponíveis, algumas somos sensuais, bem-sucedidas, financeiramente independentes. É uma lista de atributos que gozamos ao perceber aqui, do lado feminino da equação. Não sei se por narcisismo, se por preguiça, aliás, uma coisa nunca está disjunta da outra - não sei exatamente por quê, as mulheres gostam de dar essa resposta única ao adeus de seus homens: ele era pouco pra mim.

Por muito tempo essa ideia me consolou. 

Não é isso, né,? E antes que você pense que estou me penitenciando, o que seria novamente uma maneira narcísica - ainda que invertida - de enfrentar a questão, tampouco acho que você era muito. Na verdade já não acho que essas medidas sirvam para nos comparar, nos apoiar, principalmente nos justificar.

De tudo que ainda se poderia dizer, se fosse o caso, se estivéssemos um na presença do outro, e se fôssemos mais imaturos, e se tivéssemos alguma esperança no nosso amor, e se você quisesse, mas no presente do indicativo, escolho apenas esta consideração, já agradecida dela concisão que tua masculinidade acaba contaminando em meu texto, se a deixo entrar. Sinto muito por nunca ter aceitado teu sobrenome. Este foi um erro verdadeiro, do qual (adeus, concisão) deveria ter me desculpado na primeira carta. Talvez esta humildade pudesse ter evitado todas as correspondências seguintes. Mas minha humildade você conhece bem: está sempre atrasada. Eu pensava que meu sobrenome de solteira caía melhor na assinatura dos textos. Babaquice - os mais importantes textos assino apenas como Sonia: são estes, para você.

Escrevo, finalmente, porque as palavras são uma exigência. São elas que determinam todo fim, todo começo. Ninguém existe sem um nome, Zé. Ninguém se casa antes do amém. Ninguém se joga de um prédio sem um bilhete - os que assim fazem parece não ter morrido. Um corpo só é dado como morto quando alguém o encontra, mesmo aos pedaços, e repousa sobre ele - ou sobre seus pedaços - o lençol das palavras: é ele. É ela. Sim, este é meu filho. É preciso comunicar à morte sua própria presença, o que se faz na enunciação da hora exata do óbito. Antes disso ela permanece esperando, apoiada em seu cajado e sua paciência, o decreto irrevogável das palavras.

Nosso fim tem muitas explicações, muitas traições, muitas verdades. Mas apenas uma palavra. Agora me parece pertinente que nunca tenhamos dividido seu nome. Talvez nossa precária família pudesse ter tido entre todos apenas este sobrenome, um que não se herda, mas se constata. Que não se transmite, mas se cria. Que não é nem meu, nem seu. Desilusão, Zé Carlos. Desilusão.

Sonia

1 de abril de 2013

duas frases


Enquanto você apoiava o peso do seu corpo sobre sua mão esquerda que por sua vez se apoiava sobre o canto esquerdo do colchão, me envolvendo com o braço direito e me puxando para o centro da cama de forma a evitar que eu continuasse roçando as costas na parte áspera desde a qual o lençol de elástico já havia se retraído, você sorriu como um ator que é flagrado por seu colega de cena ao improvisar após esquecer o texto, de forma a deixar relativamente evidente para o público mais atento que ali acaba de acontecer algo inesperado, algo que no entanto não se configura como um erro, uma vez que a espontaneidade do ator diante de uma tal confusão é, como disse alguém, onde verdadeiramente começa a interpretação. E nessa sua naturalidade de performer grosseiro, sem ensaio e pouco romantismo, isto é, nesse seu romantismo grosso, nessa sua rude maneira de pegar no pau como quem oferece um doce a uma criança, sim, é mesmo essa a imagem adequada, essa sua inocência capaz de sintonizar com qualquer mulher, imagino, me deixe imaginar, eu preciso me defender da sua sedução com uma expectativa de dor, deixe eu pensar que sou mais uma, não me ofereça a saborosa crueldade do engano, desse seu profissionalismo tosco, essa sua doce barbaridade, não, acho que agora exagerei, sua impaciência progressiva até a penetração e essa certa negligência, cuja evolução pela noite culmina num cuidado selvagem, e portanto honesto, e portanto fiável, e portanto perigosíssimo, essa sua coisa que também posso chamar de entrega, essa sua insegurança tênue que ora se apresenta como esperança de um amor enfim, ora como um comportamento sofisticado de um Don Juan maduro e despido de canastrices, esse seu sexo sem preparos, esse seu gosto quase confesso pelo sujo, pelo asqueroso, pelo real, pelo sabor amanhecido, pelas manchas de sangue, pelos pelos, por tudo que pode vir a simbolizar, na sua complexa teia de signos do amor, o mais distante das considerações abstratas sobre a beleza e sobre a adequação, essa sua rebeldia franzida no cenho, esse seu corpo revoltado, toda essa sua ideologia concentrada debaixo das unhas dos pés, esse medo todo com o qual você se oferece, medo que no entanto você está sempre disposto a capar, esse medo que então capado você joga diante de mim para que eu aprecie como sangra, portanto, essa coragem toda com a qual você se oferece, essa sua brutalidade calculada, de quem, apesar de todo apreço pelo fortuito, lembra-se vez ou outra estar diante de um ser-humano, seu leve machismo, seu zelo de homem que não pretende morrer logo, seu gozo farto, sua delicada masculinidade, os pequenos segredos que você não percebe que confessa, os que você percebe e faz questão de confessar, seu evidente susto face a um corpo de um sexo diferente do seu, o modo sempre inédito pelo qual você se assusta com isso, seu mistério sobre as outras mulheres, mas sua disposição em responder às perguntas, sua insistência em construir diante dos olhos uma mulher única que calha de ser eu, enquanto estou diante deles, pelo menos, sua língua incondicional, sua atenção detida aos frêmitos, a proximidade do seu rosto aos meus poros mais escuros, os adjetivos estranhos que saem da sua boca, e me adornam, e me transformam, e me humilham, e me endeusam, e me saúdam, e me comparam, e me estendem, e me conjugam, e me consertam, seus pedidos de que eu lhe peça as coisas que você quer que eu queria de você, seu pedido de que eu os repita várias vezes, preferencialmente seguindo o ritmo frenético dos nossos quadris, seu jeito, sua voz que entra como qualquer outro membro pelos meus furos, seu corpo horizontal, nessa sua vontade de se levantar e se limpar brigando com a vontade de me esperar querer levantar, na sua gentileza destreinada, na sua abertura ao novo que eclode do encontro dos corpos, das mentes, dos discursos, nisso tudo e no seu sorriso sem-jeito ao arrumar um corpo de mulher enquanto ele é conduzido, jogado, penetrado, usado, manipulado sobre uma cama de casal, nisso tudo se revela o furo vertiginoso, o mais profundo, mais obsceno e mais delicado buraco de uma mulher.