23 de maio de 2013

som algum

Calada da noite
Grita dentro da mente do poeta
Uma criança de cuja boca
Não sai som algum

No burburinho do dia ele
molha o rosto, parte os cabelos
Lembra-se do sonho
Quer dizer 'ai' mas a voz ainda dorme e ele é permissivo com o sono da língua
Não se sabe se por sensibilidade ou mau humor

Decide escrever (era mau humor)
Lembra da bocarra
Da criança
Do silêncio
Vai pro analista e
acredita agora ter entendido o que o silêncio gritava

Paga caro pela palavra que ele repete no elevador
'mãe'
'pai'
Sabe-se lá,
cada um que segure na boca sem som sua própria palavra

Assistamos a imagem do preciso momento em que o júbilo interpretativo assassina o poema:

eles não vivem

Toda dramaticidade é um pouco inoportuna
Que a deste poema seja perdoada

licença:
Por um feliz arranjo de acidentes
a vida orquestrou em silêncio
que hoje eu me sentasse à janela oeste
de um avião
às cinco da tarde

Voava de Minas

Além das belezas de sempre, incólumes de repetição, que testemunhamos
às janelas avaras de aviões

Assisti ao sol se pondo
sobre Brasília
Desde uma perspectiva acima do horizonte
Eu voltava pra casa
O céu mudava de cor, embaixo de mim

O sol foi redondo até se esparramar em cores sobre a linha côncava que supomos ser a pele da Terra
Ele acaba à revelia do que acontece na superfície do mundo,
independente das luzes, das horas
Autônomo, meio lírico
Me fez lembrar alguns poetas que conheço

Eles não vivem (suponho)
Derramam-se

10 de maio de 2013

gratidão


Santa, Santinha, fostes irreparável em me prometer: a vida vai ensiná-lo. Ela foi duramente pedagógica com ele, deu-lhe dissabor no negócio, pôs-lhe doenças, em si e na família. Ele foi traído pela mulher, trocado, traído e trocado também pelos próprios filhos – um horror! –, não recebeu herança, que o pai quebrou antes. Herdou foi dívida, calvície, problema cardíaco, a baixa estatura física e moral. Perdeu o pouco restante onde, Santa? No jogo. Pras cartas. Vendeu a casa, as vestes, o relógio do avô, a alma, dizem que até o corpo acabou vendendo quando o vício se apossou de seu último sopro de dignidade, de cuja existência eu nunca soube. Conheceu muita desgraça, não digo todas, porque não teve filha mulher pra fazerem com ela o que ele fez com a minha. De resto, toda santa miséria pediu abrigo dentro de sua casa, entre seus lençois, entre suas lembranças e até em sua morte a miséria se aninhou, levando-o pelos inúmeros braços quentes do botijão que explodiu bem em sua cara.

Eu não tinha nada que me queixar de vós, Santinha, vós fizestes como se faz ao melhor filho. Vós me destes a graça da vingança, vingança legítima, Santinha, porque Deus esteve ao meu lado, Santa, cada vez que esse homem amargou. Deus e vós, as duas únicas fontes de bênçãos que o mundo há de conhecer, Santa, vós me destes toda glória, toda glória. Eu agradeci a cada nova chamuscada na vida dele. Eu rezei, Santa. Eu agradeço ainda agora.

A vida lhe ensinou, por certo. Mas, não sei. De tombo em tombo ele se erguia como um corvo. Cada vez mais cansado, é verdade, mas sempre voltava, sempre largava o mal e partia pro próximo. Desculpai, Santinha, mas ainda invejo o boçal. Apesar de tudo, parece que o homem partiu leve. E eu fico, Santa; perdoai, mas eu fico pesado. Será, Santinha? Por Deus, um homem mau não pode levantar tantas vezes. Será que ela me mentiu?

Se mentia, Santa, vós sois a melhor de todas as santas, pois me concedestes a vingança de qualquer maneira, com ou sem merecimento, apenas para que minha fé fosse louvada. Os fatos lá importam face à fé, Santíssima? Debaixo da terra agora desfolha a carne queimada. Minha filha é bela. E por vós eu sigo. Amém.