24 de maio de 2014

três decisões

Os destroços se espalhavam por uma planície sem árvores, ao longo de um raio bastante curto, portanto estavam disponíveis à vista de pouca distância. De cima, a parte da nave que sofrera menor despedaçamento e que se encontrava, portanto, bastante íntegra apesar de ter mudado de cor, podia ser vista ao centro de uma roda de gigantescas lascas metálicas. Em escala, a cena pareceria montada por uma mão humana, porque a distância e o formato das peças davam a impressão de uma harmonia intencional. Mas a exatidão daquela disposição era fruto apenas da infinidade de variáveis, todas elas em realidade bastante arbitrárias – apesar de ordenadas causal e cronologicamente – que haviam culminado no acidente aéreo. Um acidente cujas proporções e efeitos solicitam que o chamemos “tragédia”, apesar de reconhecermos, desde já, que a estrutura lógica pela qual compreendemos a conexão de tais variáveis é rigorosamente semelhante a estruturas lógicas que explicam acidentes comuns, como um tropeço na calçada ou um rasgo num vestido.

Os envolvidos, no entanto, na prevenção de acidentes como este estão cientes de que a banalidade de sua estrutura lógica em nada interfere na magnitude de suas consequências. Daí que se dediquem a evitar que a sua ocorrência seja tão banal quanto sua estrutura, e a prova de que este trabalho é valioso repousa justamente na alta lucratividade dos investimentos na área.

Quando Dr. Frota recebeu na tela do seu computador as imagens que um de seus técnicos conseguiu capturar quase milagrosamente antes de qualquer veículo de imprensa, sentiu o comprimento da própria coluna vertebral em sua totalidade, como se um levíssimo choque o tivesse despertado para a existência desta pilha de ossos que tanto o auxiliava em quase todas as suas ações. As imagens eram as mesmas às que aludimos no início: vistas de cima, davam conta apenas da planície sobre a qual repousavam os destroços do avião. O técnico havia sido feliz em duas pequenas decisões: a de enviar as imagens feitas à maior distância, e de tê-las anexado como arquivos de baixa qualidade no e-mail à diretoria. Assim, impediu que o zoom do computador do Dr. Frota o permitisse ver, como de fato se tentou, quaisquer detalhes de destroçamento de corpos humanos.

Esta sagaz discrição chegou a ser confundida com descuido de aprendiz, o que levou Dr. Frota a abrir imediatamente uma janela de resposta ao e-mail em que ele solicitaria imagens mais nítidas. Mas, antes que cometesse a gafe que denotaria, inicialmente para o técnico erroneamente tomado por inexperiente, depois por toda uma sorte de sócios, advogados, jornalistas e finalmente cidadãos comuns, como um indício relativamente óbvio de uma curiosidade sádica que em nada se relacionava à intenção de minimizar os danos do evento, fechou a janela. Passou-lhe pela cabeça que a partir dali todos os seus movimentos deveriam ser calculados com sobriedade proporcionalmente inversa à que seus impulsos lhe ofereciam. Em segundos descortinou-se diante dele uma porção de cenários em que ele seria personagem principal nos próximos meses em função das consequências daquele acidente: entrevistas, reuniões, tribunais, manchetes. Antevendo a publicidade de cada um de seus passos dali em diante, reabriu a janela de resposta ao técnico e escreveu um agradecimento quase solene pelo envio das imagens, já manifestando seu profundo pesar pelas mortes com a dramaticidade de quem confessa um crime a um amigo.

No momento em que a resposta chegou ao dispositivo móvel institucional do técnico, ele sobrevoava a cena dentro do helicóptero da companhia aérea bem de perto, tirando fotos do que restava dos corpos com seu celular. Em poucos minutos ele tomara outra decisão igualmente sagaz às anteriores, mas de magnitude bem maior.

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