2 de fevereiro de 2014

vórtice

Parasitei minha mãe por nove meses exatos, fui tirada de seu corpo duma incisão da fundura de mil tecidos, o coração dela parou e os médicos a reanimaram. Fui levada à incubadora pelas primeiras horas, e ali desamarelei. Mamei no peito por quatro meses. Permitindo-se o salto narrativo de mais de vinte anos que vai nos conduzir à minha gravidez, quando um serzinho me quica nas entranhas e me desperta atenção aos meus órgãos até outro dia sensivelmente mais imaginários, notaremos com distinção o tipo particular de experiência que se esboça em meu caso, e que, apesar dos incontáveis relatos que dão conta da universalidade das sensações, há de ser diferente de todos, mesmo daquele que minha mãe viveu enquanto eu a habitava. 

Agora um pequeno ser em quase tudo humano habita o meu centro, colhendo, desde o centro de seu corpo recém constituído, todos os líquidos com os quais eu o provenho, alguns deles certamente dispensáveis para seu desenvolvimento, mas, em bem maior quantidade, líquidos sem os quais não teria chances de algum dia poder dizer-se humano. Esse pequeno ser, que às vezes parece assaltar meus espaços internos com o acaso injustificado das ficções científicas, esse pequeno ser em tantos sentidos estrangeiro a mim, que a cada dia parece ter acabado de entrar com o exato tamanho e proporções que apresenta agora, depois da vasta teia de procedimentos industriais que seu corpo operou para chegar à formação atual, esse ser que colhe do meu corpo quase tudo de que precisa ao mesmo tempo já é quase autônomo de mim. Isso me leva para a sutil ainda que evidente ironia de meu nascimento: enquanto eu era retirada no centro sangroso da minha mãe, seu coração delicado resolvia descansar, desavisado das fatais consequências de seu capricho. E poderia ter parado para sempre. Aquele serzinho que um dia eu talvez tenha sido, desde a incubadora, poderia ter continuado a viver mesmo se minha mãe morresse.

Atentos aos detalhes microscópicos deste período tão rico em mitoses e extravagâncias da imaginação que a ciência mais provinciana alimenta, poderíamos nos deter às funções que os órgãos desse serzinho já são capazes de desempenhar sem mim. Mas enquanto tento divagar pelos labirintos deste pensamento ao mesmo tempo lógico e empirista, o que verdadeiramente me ocorre é a delícia, a sorte, a maravilha da possibilidade de ser consumida pela minha filha. Minha mãe poderia ter morrido quando nasci. Eu posso morrer quando Eva nascer. A única maneira de um ser-humano pagar por esta arriscadíssima hospedagem é, com todo carinho por todas as outras mulheres e homens do mundo, ter no ventre uma menina, ter no ventre um outro pequeno ventre de mulher. Eu nunca poderia ter me redimido do compasso de espera do coração da minha mãe se não tivesse dentro de mim essa pequena estranha, minha amada, antiga filha. Nem sabia desta dívida, e agora já posso pagá-la. Acho que a gente sempre morre um pouco quando põe no mundo um corpo de mulher. Fundamos ali um buraco pra onde alguém talvez, um dia, queira voltar. Vezes sem conta e em vão já quis voltar pro centro da minha mãe enquanto seu coração continuasse a bater. Hoje é bem onde estou, no centro vivo da minha mãe, cada vez que escuto o coração da Eva bater tão, tão mais rapidamente que o meu.