25 de julho de 2014

antes é impossível

Vai, essa que é, pela primeira vez, minha rainha. Vai, não por acaso, pela última. Eu que tardei em te coroar, você que tardou em insistir. Se coincidimos no atraso e ainda assim não nos encontramos, reza a lógica que estivéssemos em diferentes caminhos, ou se no mesmo caminho, em diferentes pontos desta geografia. Eu, que já não atrevo meus esforços na monumental empreitada da causalidade, fico apenas a recolher as memórias que o tempo ainda não embaraçou - não para conferir-lhes sentido, apenas pra nos enterrar. 

Quem sabe o tempo, rei da misericórdia, se encarregue de tirar do seu rosto o brilho que a perda agora acende. Seu rosto jamais teve esse brilho, nem no prelúdio de nossa história, quando eu ainda podia me dar ao luxo de te cobiçar. A cobiça tem vantagens que o amor concretizado esquece. Na minha volúpia inventar seu corpo nu, na minha lombra curtir sua aderência, na minha prepotência provocar seu gozo. Nunca te vi tão bela como no instante em que você me escapa, e mesmo que a ciência venha em meu socorro lembrar que todos esses são os primeiros sintomas do luto, existem coisas que nenhum luto tem em comum com o outro: o tempo que dura e o estrago que faz. Sobre estes, mesmo a mais leviana ciência precisa ainda fazer perguntas.

Vai, se é o que você quer. Quer? Pra um coração bom, uma decisão de consequências tão dramáticas para alguém que já amou só pode ser da ordem da necessidade. Vai se precisa, vai se quer, vai. Ir definitivamente, depois de tantos ensaios, é um gesto prosaico contra a maçaneta. Este gesto perde em intensidade dramática para todas as suas tentativas de me deixar. Este gesto quase disforme, se comparado à elegância bailarina dos seus arroubos de antes. Este gesto, nessa triste serenidade, a me atestar o apagar silencioso e lento de nossos holofotes.

Queria poder mais uma vez de xingar, te humilhar, te empurrar, ser cuspido, agredido, ofendido. Queria de novo poder chamar você à razão aos gritos. Queria de novo me embebedar pra um amigo enquanto me queixo de você, exagerando suas incoerências. Queria agora ver seu corpo gordo, seu rosto seco, lembrar da sua imaturidade polida, sua vaidade idiota frente aos amigos ao falar de filosofia, os defeitos da sua pele, seus pelos, suas distrações infantis com a casa, na cozinha, sua fragilidade que só pode impacientar até o mais completo imbecil.

Haverá tempo pra esquecer você. Mas vai. Antes é impossível.